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10 Considerações sobre Marrom e Amarelo, de Paulo Scott ou sobre olhares profundos de uma realidade profunda

O Blog Listas Literárias leu Marrom e Amarelo, de Paulo Scott publicado pela Alfaguara; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Diz-se dos grandes romances que são capazes de propiciar diferentes entradas, leituras e interpretações ao texto. Temos estes ingredientes neste romance de Paulo Scott, que você pode observar pela abordagem lúcida, talvez por isso tão amarga, do racismo introjetado numa sociedade que teima em mascará-lo [nessa perspectiva há uma cena das mais impactantes, tanto que tal evento condicionará toda a vida do narrador-protagonista], mas que está ali, no cotidiano e em suas mais complexas questões. Ainda no campo do racismo, pode-se dizer que é um romance sobre o debate da política de cotas, aliás, querendo-se, pode-se optar por uma análise das reflexões políticas presente no texto, pode-se vê-lo como romance de um homem em crise existencial, pode-se também, certamente encontrarem-se outras tantas possibilidades que não estas citadas brevemente neste espaço...

2 - Diz-se que os grandes romances são capazes de tocar com muita proximidade a vida, aquela real a que todos precisam resistir um dia após o outro. Paulo Scott faz isso como ninguém. Faz com uma propriedade raras vezes vistas em nossa literatura contemporânea. E o digo por duas razões: uma pelo conjunto de leituras contemporâneas da literatura brasileira, digo aquela que vem sido estudada, que passa por certo crivo do mercado e da academia. Geralmente nelas encontramos autores quase que refém da teoria que sustentam suas narrativas. Quer-se falar dos dramas sociais, mas lê-los a partir das perspectivas de um Nietzche, de um Foucault; isso não é em si o problema, se me faço entender, o problema, pelo menos na ótica de que vos escreve, é que em muitos deles parece-se que pretende-se muito mais afirmar a assertividade dos teóricos do que tentar compreender os dramas sociais. Em geral uma literatura pequeno-burguesa de esquerda, muitas vezes dotada de certo egocentrismo exacerbado por seus narradores em primeira pessoa numa angústia muitas vezes distante da realidade. Paulo Scott debate os dramas sociais, e o faz em todas as suas complexidades e com exímia técnica, da qual é capaz de encontrar soluções verossímeis de modo a dar conta do narrar dos distintos estratos sociais que narra. Ele nos transporta para dentro da obra e passamos a percorrer de corredores do poder a barzinhos suburbanos, e também nos transporta no tempo nos diferentes tempos em que se passa;

3 - Diz-se que os grandes romances existem numa relação mútua de influência com a sociedade por meio de uma relação dialética entre ambas. Os elementos em Marrom e Amarelo que demonstram isso são muitos, deste ao estilo marcado pela urgência da oralidade que a seu modo transpõe para a narrativa toda a angústia do problema. Isso se vê em certo fluxo febril, em discursos sobrepostos, pois ainda que a obra seja numa narração em primeira pessoa, é uma narração atravessada pelo discurso indireto que muitas vezes inclusive atravessa o próprio narrador. Além disso, as frases curtas em grande parte soam como o despejo de dores e rancores, pois é também estes uma romance sobre raiva, sobre indignação, sobre revolta; tais sentimentos são refletidos na linguagem escolhida por Scott. Se a obra traz tudo isso da sociedade, há também o retorno, pois certamente ela influenciará seus leitores, produzirá leituras para questões delicadas e complexas;

4 - Vejamos, portanto, que nestas pequenas introduções, a obra confirma a excelente recepção. Estamos provavelmente diante um dos nossos grandes romances que para além de outros grandes romancistas deste tempo, Paulo Scott, nesse trabalho, mostra-se autor de um livro vivo. Uma obra de ressonância, e esse talvez o diferencial a outros grandes nomes. No romance, Federico é o narrador-protagonista. Um homem de meia-idade chamado às pressas para compor uma comissão governamental cujo objetivo e discutir e propor "novas" metodologias para as políticas de cotas. Esse homem, em crise existencial, diga-se, e fortemente marcado por um episódio existente noutra linha do tempo, é branco em família negra. Pai Negro. Negro também é seu irmão. Uma família suburbana de uma Porto Alegre com seus abismos sociais, ainda assim uma família suburbana em melhores condições do que a maior parte da periferia, como o próprio narrador-protagonista deixa claro. O livro então parte a discutir o que é o racismo nessa sociedade a partir do ponto de vista de Federico;

5 - E aqui temos uma questão essencial do livro, pois ao optar pelo irmão branco em sua narração, Scott deixa claro esse não-pertencimento do narrador, o que por um lado reforça e confere as suas angústias e às complexidades daquilo que não compreende, ao mesmo tempo que lhe permite discutir sim o problema ainda que como se perceberá, talvez nem mesmo ele seja capaz de compreender o que de fato é o racismo na perspectiva, por exemplo, de seu irmão Lourenço. Além disso, as escolhas e opções do autor são mais do que oportunas, são na verdade de grande maestria, pois seus personagens permitem-no "passear" pelas diferentes esferas sociais de forma muito verossímil, de modo que num raro encontro, burguesia, classe-média baixa e marginalizados muitas vezes se tocam, se encontram, alguns encontros as faíscas geram a combustão de todas as dores;

6 - E isso dá-se especialmente num dos tempos em que se situa a narrativa, idos anos oitenta com o apagar das luzes da ditadura militar. Nesse tempo, que será a roca de toda a fiação da teia narrativa, o jovem Federico está numa espécie de terra-média entre os miseráveis e a alta burguesia da cidade. Um jovem negro de cor branca entre barzinhos do Partenon [bairro popular de Porto Alegre] e ingressos descolados para festas nobres. Num outro tempo, sua vivencia acadêmica, sua construção como homem político, já revoltando-se com a vivência enquanto família negra, entretanto se a militância por ele esperada. Tudo isso deságua em seu presente tomado de ceticismo, quase um cansaço perante o caráter sistêmico da intolerância e dos retrocessos, pois no Brasil veremos, pequenos passos à frente, muitos para trás. Por isso seu espírito alquebrado, calejado, colecionador de fracassos, no seu modo de ver, ao longo da vida, geralmente enxugando gelo com ferro de passar;

7 - Tudo isso fornece ao leitor um jogo de camadas complexas e nuances em sintonia fina, coisa que demanda muita penetração no texto. São camadas sobre camadas que apontam para o problema em toda a sua complexidade, de modo que, e isso é importantíssimo, não se há receita a seguir, mas sim uma alerta e também afirmações de declarações de nosso atraso diário, especialmente na discussão quanto ao racismo. Por isso a explosão de Federico, o ponto de inflexão que marcará, e mais que isso, conduzirá toda a sua vida em diante. Ponto que em seu tempo presente - um dos tempos da narrativa - ressurgirá e dará a abertura para a discussão do problema, agora ampliada pela polarização no universo acadêmico da política pública pensada para diminuir nossas distâncias, sociais e humanas;

8 - E aqui faz-se literatura e alcança-se todo seu potencial de ressignificação, poder que a arte, ainda bem, nos confere. Não se trata de um relato, de uma reportagem, é literatura e enquanto literatura, como nos mostram os teóricos, torna-se mais potente. O literário se mostrará aqui em escolhas que nos lembram a concepções de um Tchekhov quanto ao fazer literário, nos desfechos, no enredos e desenredos que se entrelaçam fiados pela necessidade literária de entregar algum sentido, nos antagonismos que ressurgem tal como aquela pista de um romance de detetives, de modo que não há aqui uma análise social, mas um romance de reflexão social, uma reflexão deverás crítica e com a contundência necessária;

9 - Num livro tão corajoso talvez sintamos apenas falta de se nomear a qual governo se fala, uma vergonha que reforça o próprio ânimo de Federico e seus colegas da citada comissão. Scott em sua narrativa traz como pano de fundo dois momentos, os estertores dos milicos no poder, e o ano de 2016 e toda a conturbação política com a chegada de um "novo governo", expressão recorrente no texto, talvez por não se querer datar ou dar ares panfletários à sua narrativa. No entanto, compreenderá bem o leitor do que e de quem se fala, e aqui uma nova abertura de debate e discussão, pois com a propriedade de quem parece conhecer bem a máquina burocrática do Estado, Scott produz certo monstro distópico que não morre nunca, mantido por uma burocracia adaptável que independentemente de quem ou qual ideologia a opere, segui engolindo-nos e passando ao largo dos efetivos dramas de quem habita sob a sombra desta gigantesca criatura;

10 - Enfim, Marrom e Amarelo é destes romances com potencial a ser divisor de águas. Uma narrativa contundente e que raras vezes vemos, diz-se que apenas nos grandes romances, coisa, que como podem ver, parece que concordamos. Um romance amargo no drama que repercute, mas saboroso na qualidade e na forma com que se entrega a tal reflexão. Um romance capaz de entender e desentender o Brasil, mesmo que por um olhar cuja identidade é tão ferozmente desconstituída, e isso, seja talvez o que lhe faça tão altruísta e eficiente em observar diferentes perspectivas. 


   

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