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10 Considerações sobre A Filha do Reich, de Paulo Stucchi ou sobre traumas e barbárie

O Blog Listas Literárias leu A Filha do Reich, de Paulo Stucchi publicado pela editora Jangada; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - A Filha do Reich é uma publicação bastante curiosa. Flertando com diferentes gêneros, entre o romance histórico e pintadas de fantasia, a obra do autor brasileiro toca antigos traumas humanos sob a égide da barbárie, tendo a Segunda Guerra como pano de fundo histórico, bem como, principal agente das ações desencadeadas em diferentes tempos de uma narrativa de amarrações consistentes e desfecho romântico;

2 -  Para tanto, precisamos observar os diferentes detalhes do romance. Narrado em diferentes tempos, a obra se desenlaça especialmente num passado recente, quando o publicitário Hugo Seeman em 2006 é confrontado com a história do pai, com quem ele tinha pouca intimidade para além das obrigações filiares. Narrado pela primeira voz de Hugo, o evento abre espaço então para uma segunda voz, a do próprio pai, em um diário que retoma acontecimentos no campo de Plazow em 1943 nos períodos mais sombrios do nazismo. É neste diário que o ex-soldado nazista rememora estranhos acontecimentos no campo, e estabelece uma teia de segredos que não só, impacta toda a vida de Olaf e Hugo, mas que também leva o livro de certo modo a uma zona muito limítrofe entre fantasia e realismo;

3 - É que tudo gira em torno de Mariele Goldberg, prisioneira judia em Plazow sobre quem circulam rumores de ter poderes especiais, curativos, conforme o próprio jovem Olaf presenciará, construindo a partir de então uma relação que o aprisionará por uma vida toda envolta por fantasmas, estes que acabam sendo soltos após seu falecimento e seus últimos pedidos feitos a filho. A partir daí temos outro típico gênero evocado pelo romance, o thriller, pois que na tentativa de conhecer ao pai e a si mesmo, Hugo acaba envolvido numa trama frenética, misteriosa e com os perigos tradicionais aos que caem em teias ou sociedades conspiratórias;

4 - Feitas tais observações, podemos então nos dedicar a alguns elementos de debate sobre, primeiramente a parte de história enquanto fundo de construção do romance. Embora improváveis, a ficção de Stucchi traz acontecimentos que deixa-nos numa fronteira limiar entre ter ou não verossimilhança, já que embora difícil, não seria de todo impossível uma relação como a de Olaf e Mariele num campo de prisioneiros. Talvez mais improvável mesmo seja o olhar crítico deste soldado ao nazismo, justificado no romance por sua prática católica. Então, embora improváveis muitas das relações representadas no tempo da guerra, não seriam de todo impossíveis, já que mesmo frágil e pouca, havia certa resistência claudicante entre os alemães de modo que há certo convencimento do leitor nesse sentido;

5 - Além disso, por mais exótico que seja, a relação entre o nazismo e pesquisas ocultistas não é nenhuma novidade em debates acerca da Segunda Guerra Mundial, e temos narrativas que vão de Indiana Jones ao recente Operação Overlord. Stucchi caminha por esse terreno e elabora com certa habilidade uma organização secreta ainda operante, perigosa e mortal que se acabará cruzando o caminho d protagonista do livro;

6 - Tudo isto, claro, está na camada mais aparente, superficial da leitura, esta, dotada com a ação e reação capaz de encantar um bom número de leitores. Noutra perspectiva temos dramas mais complexos, conflitos interiores carregados de recalques e ressentimentos, especialmente na relação de Hugo e seus sentimentos para com o pai, algo que reflete-se em sua postura de um quarentão até certo ponto realizado na vida profissional, entretanto, uma alma fria, vazia e cheia de rancores. Quanto a isso, vale dizer que a narrativa acaba mostrando-se uma progressão linear de mudança, de modo que ao fim, tendo conhecimento da história do pai, que também é a sua, ele acaba sofrendo profundas mudanças;

7 - Do mesmo modo, não menos complicada é a situação de Olaf. Na verdade um homem que abdica da vida, embora venha a falecer já no Brasil, muitos anos depois de todos os traumas que a barbárie da guerra não apenas o fez como vítima, mas também como algoz incapaz de ficar de fora do macabro teatro de guerra. Tudo isso causando nele, não feridas, mas sim, talvez, verdadeiros buracos em sua humanidade, afastando-o de qualquer convivência social mais profunda, o que, claro, é principal fator na pedida relação entre pai e filho;

8 - Portanto encontramos aí interessantes elementos de análise, pois a narrativa de Stucchi tem sua vibração particular, como no todo, apresenta-nos uma romance que que todas as linhas da teia encontram-se tecidas de tal modo que a leitura torna-se fluente e agradável, a despeito das tragédias e dramas que narra;

9 - Todavia, reforçando as boas virtudes do romance, como tudo na vida, temos também aqueles elementos passíveis de maior ou menor crítica. No caso deste romance, parece-me que os ruídos que possam surgir estão nos detalhes, mas como bem sabemos, "o diabo mora nos detalhes". O primeiro detalhe, e aqui a ressalva de que este é um detalhe que provavelmente será percebido por leitores talvez do Rio Grande do Sul, é que em virtude de a narrativa ser boa parte ambientada na serra gaúcha, o autor parece querer destacar a linguagem do gaúcho, entretanto, na perspectiva deste leitor, pelo menos, não que haja exagero, mas sim um desencontro, pois que as personagens gaúchas do romance parecem falar mais a língua da fronteira, de uma metade sul, locais de marcas linguísticas um tanto distintas da serra gaúcha, por exemplo. Outro detalhe que pode chamar a atenção dos leitores, especialmente aqueles com conhecimento não apenas das narrativas policialescas brasileiras, mas do sistema policial em geral, é bastante inverossímil o compartilhamento de informações policiais presentes no livro, já que, enquanto realidade, uma das maiores queixas é justamente a falta de integração dos sistemas policiais no país, de modo que a agilidade de Machado no romance causa estranhamentos. São pequenos detalhes, é bem verdade, mas que acabam fazendo certa diferença. Além disso, a este leitor, pelo menos, certas marcas na narrativa precisam ainda ser melhor analisadas, ainda que determinadas expressões diante dos contextos de colocação, a mim causaram desconforto;

10 - Enfim, de modo geral, A Filha do Reich é uma ficção que possui seus atrativos, e ainda que, prevaleça a ação e o romance, a lembrança dos atos de barbárie, no livro, em momentos mais ou menos relativizados, é sempre importante para que não se esqueça o quão monstruoso o ser humano - e como no livro veremos, especialmente o coletivo - pode se tornar. 


  

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