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10 Considerações sobre Dar corpo ao impossível, o sentido da dialética partir de Theodor Adorno, de Vladimir Safatle

O Blog Listas Literárias leu Dar corpo ao impossível, o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno, de Vladimir Safatle publicado pela editora Autêntica; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Frutos de tempos urgentes, os pensadores da Escola de Frankfurt nos legaram análises duras de sociedades em ruínas que testemunharam o auge da barbárie e a ascensão dos mais tenebrosos projetos de poder. Em razão disso e da elevação da urgência do presente, que,cada vez mais apresenta-se como simulacro desse passado sombrio, o conhecimento e a discussão dos estudos e debates promovidos pelos frankfurtianos é de extrema relevância, podendo colaborar com a compreensão de lógicas a serem combatidas através da argumentação e pela exposição de suas estruturas internas. Nesse sentido, a presente obra apresenta-se como ótima oportunidade para a discussão sobre o trabalho de um dos principais nomes da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno, que neste trabalho de Vladimir Safatle tem sua dialética negativa posta em análise;

2 -  Como foco dos artigos apresentados, a aproximação entre Adorno e Hegel, que conforme o prefácio de Peter Drews "ao pacientemente explorar como Adorno se imerge no pensamento de Hegel, e ao focar na não identidade que é repetidamente revelada por meio de seu movimento dialético, Vladimir Safatle demonstra toda a relevância contemporânea e a radicalidade da filosofia de Hegel". Para Andrews "ele [Safatle] faz isso com muito mais sucesso do que qualquer outra tentativa de transformar Hegel em um "naturalista pós-metafísico" ou no expoente de uma metafísica racionalista orientada epistemologicamente";

3 - Neste espírito, Safatle propõe que "Adorno sabia do passo que dava ao afirmar que a dialética não deveria ser compreendida como dialética idealista, nem como materialismo dialético, mas com esta estranha alcunha de dialética negativa" procurando demonstrar ao longo de sua argumentação como "dialética negativa será indissociável da tarefa de pensar as condições para experiências que assuma como modos de desabamento do horizonte metafísico no qual o capitalismo se assenta e reconstrói";

4 - Para tanto em seu debate em linguajar enevoado da filosofia e dialético em sua construção, o livro divide-se a seu modo em três partes, na primeira reunindo artigos tratando da "emergência da dialética negativa" trazendo para análise Hegel, Marx e Adorno em três capítulos que compõe esta parte, "Infinito e contradição: da arte de desrespeitar o vazio", "Totalidade: processualidade contínua e vertigens" e "materialismo: transformações por indução material da sensibilidade" capítulo em que Safatle se dedica a "uma discussão a respeito das relações tensas entre dialética e materialismo";

5 -  Na segunda parte os capítulos se orientam pelas "Linhas de transbordamento", com mais três capítulos, "Ser e sujeito: a sombra de Heidegger e a violência contra a origem" em que  defende que "por mais que alguns não queiram" aproxima Heidegger e Adorno a partir da afirmação adorniana de que "a identidade é a forma originária da ideologia" para Safatle "uma maneira de lembrar que a ideologia que se trata de criticar no capitalismo é momento de uma metafísica da identidade"; a sequência desta parte se dá com os capítulos "Identidade: a psicanálise da desintegração" e "Práxis: apesar de tudo uma política revolucionária";

6 - A última parte reúne outros três capítulos "Excursos: um esclarecimento sobre a produtividade das colisões e dois sobre a dialética em solo nacional". No primeiro capítulo ele trabalha "Entre a diferença e a contradição: Deleuze contra a negatividade" numa curiosa aproximação de Deleuze e Hegel partindo da aversão francesa à dialética até chegar à proposta de que "nessas ironias tão próprias à história da filosofia quando abandonamos certo sistema naturalizado de evidências de leitura, talvez seja exatamente nesse momento em que o infinito aparece como nome do movimento que retira os conceitos de toda amarra representacional que Deleuze e Hegel estejam mais próximos";

7 - Nos capítulos seguintes que tratam da dialética em solo nacional, temos primeiro "A energia negativa das classes subalternas: Paulo Arantes e a matriz transformadora da crítica dialética". Neste capítulo Safatle apresenta relevante reflexão ao lembrar que "pensar o Brasil seria indissociável da capacidade de compreender de forma dialética as dinâmicas do atraso e de sua possível superação em países periféricos como o nosso", tendo como principal elemento de discussão Ressentimento da dialética, de Paulo Arantes, considerado por Safatle "um dos mais consequentes projetos dialéticos intentados entre nós";

8 - O outro capítulo do livro que procura centralizar a discussão dialética em solo nacional é "A dialética do romance nacional: retomando o debate Roberto Schwarz/Bento Prado Jr." partindo das visões dos dois críticos à obra de Machado de Assis e Guimarães Rosa pondo em discussão especialmente a questão da autonomia estética e heteronomia em que  o autor diz que "o cruzamento dialético singular aqui consiste lembrar que a autonomia estética é heteronomia do ponto de vista da autonomia moral";

9 - Dito isto, "dar corpo ao impossível" significa dizer que Vladimir Safatle se propõe a uma discussão teoricamente encorpada, mas trilhando caminhos de possíveis resistências e encontros não habitantes da casa das obviedades. Tudo isso marcado pela dialética e pela densidade do debate filosófico, não raro, imerso em águas profundas que exigirá de seu leitor certa familiaridade com os temas e com os pensadores que influenciam a presente publicação;

10 - Enfim, Dar corpo ao impossível, o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno para os que não se intimidam a temas espinhosos ou que não se submerjam a uma lógica binária incapaz ao debate filosófico vitimados por um binarismo reacionário, é interessante leitura para debate, reflexão e mesmo compreensão da dialética adorniana, neste livro observada entre aproximações e distanciamentos nem sempre naturais ou rotineiros. Além disso, é ótima oportunidade para debate de um dos pensamentos mais duros da Escola Frankfurt. E como já dito neste post, é leitura relevante e necessária nestes tempos urgentes.


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