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10 Considerações sobre Mengele, a história completa do anjo da morte de Auschwitz, de Gerald Posner e John Ware

O Blog Listas Literárias leu Mengele: a história do anjo da morte de Auschwitz, de Gerald L. Posner e John Ware publicado pela editora Cultrix; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Mengele, a história completa do anjo da morte de Auschwitz traz de volta às livrarias, em nova edição da Cultrix, a obra de 1986 em que os jornalistas Gerald L. Posner e John Ware resgatam através de farto material de pesquisa, a trajetória de uma nas figuras detestáveis e relevante nos piores horrores do nazismo, Josef Mengele, cujo desfecho final de vida deu-se no Brasil e, cuja descoberta de seu corpo no país causou grande alvoroço nos anos oitenta, encerrando de vez a caçada, talvez mais infrutífera da humanidade, ao nazista responsável pela morte de milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial;

2 - Para tanto, os autores fazem uso de entrevistas e de documentos, especialmente os conseguidos com o filho de Mengele, Rolf, reconstituindo os passos do médico nazista durante e especialmente após a Segunda Guerra, após sua fuga da justiça e do enfrentamento dos crimes de guerra praticados por eles. Uma fuga que entre construção de falsos mitos acerca do homem e de uma série de inapetências dos que o caçavam, foi envolta de mistérios e enganos, só vindo à tona seis anos após sua morte, deixando para a história o fato de que ele jamais fora julgado pelos horrores que praticara e que lhe garantiram a "fama" de anjo da morte de Auschwitz;

3 - Todavia, deve-se destacar que embora traga eventos da atuação de Mengele em Auschwitz, onde além de ser o responsável pelos que morriam naquele momento, ou os que morriam um pouco depois após trabalhos forçados, e realizou tenebrosas experiências pseudocientíficas baseadas nas premissas doentias do nazismo, além do período antecedente da formação de Mengele, o livro concentra-se na reconstrução da fuga de Mengele da Europa contrastando os olhares míticos construídos sobre este medonho personagem da história com a fuga real destituída dos "romantismos" não só da imprensa como de seus perseguidores;

4 - Assim o livro se concentra no perambular de Mengele pela América do Sul e na rede, embora bastante distinta das teorias conspiratórias formuladas, que se constituiu como proteção do homem frio e assassino capaz de atemorizar sobreviventes do horror de Auschwitz. Aliás, a obra traz um retrato das incompetências em alguns casos, ou dos círculos de corrupção e ou de admiração ao nazismo que possibilitaram que o carrasco nazista morresse sem ser julgado por seus crimes. Isso, claro, encontra forte relação com o contexto da América do Sul naqueles tempos de regimes autoritários, muitos deles admiradores de Hitler. Com isso, nossa região tornou-se certo "paraíso" para fuga da escória nazista que fugia do acerto de contas para com a humanidade;

5 - Foi o caso de Mengele que passou por Argentina, Paraguai e finalmente Brasil, sempre encontrando pessoas dispostas a desacreditarem nos fatos, e até mesmo remoerem-se pela derrota nazista, de modo que Mengele, assim como outros nazistas, sempre encontravam refúgios e "amigos" dispostos a manter segredos, e em muitos casos esperar por um novo levante nazista, como muitos deste fugitivos pensavam fazer na América do Sul;

6 - Entretanto, vale ressaltar que em grande parte o livro de Posner e Ware procura desmistificar as teorias conspiratórias acerca destes fugitivos, especialmente no caso de Mengele, cuja fuga produzia notícias mais próximas das ficções do absurdo que propriamente das notícias. Isso significa dizer que o livro procura corrigir erros e enganos com um olhar jornalístico avalizado pela documentação utilizada, principalmente a documentação cedida por Rolf, que acabam revelando jornadas que se não de todo destituídas da aventura insana, longe, porém, das lendas que foram sendo construídas sobre Mengele;

7 - Mas não apenas a rede de proteção à Mengele nos leva a questionamentos e reflexões na obra, há ainda a apresentação da jornada humana (ainda que para muitos nada de humano haverá em Mengele) do nazista que do alto de seu poder em Auschwitz ao desfecho melancólico no Brasil após uma existência pós-guerra reúne farto material para discussão sociológica, psicológica e humana. Digo isso que é difícil não dedicarmo-nos a pensamentos dos caminhos que levam a um sujeito aderir a uma política tão nefasta e cruel, e como veremos neste livro, não dar-se conta da própria maldade, da miserabilidade de sua própria ética. O rancoroso e dramático Mengele, homem em eterna fuga só amplia a percepção da injustiça, pois que assim como seus apoiadores, carrega o lamento de perder a guerra, não das crueldades feitas. O ressentido homem que passa seus últimos anos de vida no Brasil dão conta de alguém incapaz de arrepender-se;

8 - Além disso, os dados reunidos pelos autores lançam algumas outras provocações, não apenas quanto às incompetências, premeditadas ou não dos Estados que deram abrigo a Mengele, mas também sobre os círculos íntimos capazes de proteger segredos nefastos, como a atuação da família Mengele e de toda a sua região, mantendo-se em silêncio por anos quanto aos passos do pária. Nem mesmo as pretensas fontes de atrito familiares, no caso o filho Rolf e sua oposição aos valores políticos do pai, foram suficientes para romper os elos típico das seitas poderosas a proteger seus membros;

9 - Isso mostra o quanto este livro escrito nos calcanhares da descoberta sobre a verdade do paradeiro de Mengele permanece importante e leitura necessária. Através dos relatos que reconstituem a vida desse detestável criminoso fica-nos o permanente alerta sobre os horrores de Auschwitz e os mecanismos que possibilitaram e permitiram que o horror acontece. As redes, os pensamentos e os valores que permitiram com que Mengele escapasse de um julgamento por certo estão entre tais mecanismos, que se não produziram Auschwitz, criam indícios de que ele pode sim repetir-se, que o diga este final de década cada dia mais disposto a tais escolhas infames;

10 - Enfim, conhecer esta biografia é um ato cívico-humanista. É levar a público a crueldade de Auschwitz, mas também provocar reflexão sobre como os campos de concentrações e as câmaras de gás são fantasmas dos quais não estamos livre de repetições. É ainda uma oportunidade num país disposto a produzir o ridículo, apresentar pela voz dos próprios nazistas a origem à extrema-direita do espectro político cujo ódio por judeus, ciganos, não arianos era semelhante ao ódio e combate ao marxismo e ao comunismo. É um obra para aqueles que preferem os fatos e os documentos que às teorias da conspiração.


  

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