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10 Considerações sobre O Dia D, A Batalha que Salvou a Europa, de Antony Beevor

O Blog Listas Literárias leu O Dia D, A Batalha que Salvou a Europa, de Antony Beevor publicado pelo selo Crítica do grupe Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Em O Dia D, A Batalha que Salvou a Europa, Antony Beevor dedica-se a descrever os acontecimentos relacionados à Operação Overlord que representou à estratégia militar durante a 2ª Guerra Mundial mais do que um gigantesco desafio, seja por questões logísticas, seja por questões políticas, militares e diplomáticas, capazes de por em ação certamente das maiores campanhas articuladas e coordenadas em termos militares, mas não apenas neles. Além disso, tal evento e suas consequências compõem peça central não apenas nos desígnios daquela guerra, mas do pós enquanto resultado político e geográfico de um mundo que emerge após anos de combate e terror de uma das maiores tragédias humanas da história;

2 - E Beevor apresenta os fatos de seu modo já bastante autoral e reconhecível por seus leitores. Alicerçado por documentos, depoimentos e um vasto material de pesquisa, o autor procura narrar os acontecimentos como assim se deram, inclusive com bastidores, intrigas e movimentações políticas, mas essencialmente com muito material e informação de campo, o que dá ao livro e suas publicações em geral a percepção de reconstrução dos eventos, aparentemente sem o peso de qualquer julgamento, apenas a apresentação dos fatos, em certa parte com abordagens que retomam as duas frentes;

3 - Por isso, inicialmente é possível ingenuamente quase tomarmos isso por neutralidade, no entanto, bem sabemos que isso é via de regra uma ilusão. Embora Beevor traga-nos nefastas experiências e cenários da guerra, não há contudo qualquer crítica ou questionamento de tal "instituição", mesmo que em muitos dos relatos trazidos em sua escrita tragam a incongruência deste tipo de acontecimento e escolha da sociedade. Isso, aliás, cria certo contraste, pois o leitor arguto perceberá que o autor é admirador das táticas e estratégias militaristas, cabendo em alguns momentos quando a aparente neutralidade é quebrada, elogiando uma ou outra escolha dos vultos históricos que em alguns casos sua reconstrução intencionalmente ajuda a mistificar;

4 - Vale destacar também que embora o título trate do Dia D, a obra acaba a partir dos relatos da invasão da Normandia reconstruindo os cenários e eventos deste 6 de junho de 1994, O Dia D, até a libertação de Paris pelas tropas aliadas, somando-se então à descrição, a narração de operações posteriores e complementares durante o combate em solo francês;

5 - Dito isto, importa dizer que o livro é um vigoroso e consistente conjunto de olhares, dos mais diversos e diferentes, acerca dos acontecimentos desencadeados nas e durante as encarniçadas batalhas. Como demonstra e comprova a publicação, a Operação Overlord representou uma série de desafios, militares, econômicos, diplomáticos e humanos, e como bem demonstra o livro, tudo sempre transcorrendo no fio da navalha entre o fracasso e o sucesso, sendo que dela e de seus resultados sairia um novo desenho global. Ao ler o livro, embora nos fique claro o tamanho do desafio, especialmente porque os fatores humanos envolvidos também representaram certo peso sobre tudo, deixando de lado a posição crítica quanto a insensatez da guerra, não há, porém, como não se espantar com a capacidade de coordenação de algo tão "monstruoso" como a estrutura e as estratégias necessárias para por a operação em andamento, do soldado ao meteorologista, dos tanques e aviões aos negociadores e diplomatas, pois que, a obra de Beevor também nos revela que a Guerra não travou-se entre duas frentes oposta apenas, mas nas táticas de convencimento daqueles que estavam dividindo as mesmas trincheiras;

6 - Isso revela-nos então o tamanho das complexidades envolvidas. É curioso observar os detalhes políticos e diplomáticos apresentados por Beevor com a mesma qualidade que os detalhes de campo. Podemos depreender de seus relatos o quanto a individualidade e a personalidade de figuras do jogo da guerra contribuíram para os insucessos e sucessos das batalhas, especialmente nos maiores escalões onde cada escolha pode representar milhares de mortes. Beevor embora não aponte, deixa ali para quem quiser pegar a informação, pegá-la, de modo que me apropriei com espanto do quanto o ego humano, mesmo num cenário tão dramático, ainda sobrepõe-se a certa racionalidade. Essa é uma questão aliás que o autor retoma em suas conclusões dando conto das rixas entre os generais após a guerra: "O marechal de campo Sir Alan Brooke, fino observador das fraquezas humanas, não deve ter se surpreendido. Ele já escrevera sobre uma briga entre oficiais navais de postos elevados em junho "é espantoso como os homens podem ser pequenos e mesquinhos em relação a questões de comando";

7 - Falando de fraqueza humana, a este leitor nenhuma fraqueza ou ruptura moral é mais representativa que a Guerra. Antony Beevor não nos diz isso, mas os acontecimentos e os fatos narrados e descritos por ele de modo algum contradizem, por exemplo, o olhar cético, crítico e desesperançoso de romances como A Pele, de Curzio Malaparte. Pelo contrário, as contradições, as complexidades e a insensatez e loucura do que ocorre no campo, embora não tratada pela arte, em seu livro estão presentes. Nesse sentido o autor trata as coisas independentemente do lado da guerra, pois os horrores e os terrores que narra não tem lado, assim como o medo, a insensatez e a selvageria solta em tempos tão extremos. A guerra é então quando qualquer binarismo - a despeito dos discursos políticos - entre bem e mal é derrubado por terra, no livro, aparente pelos relatos que o autor traz dos problemas surgidos com a presença americana na Normandia;



8 - A bem da verdade, um dos elementos interessantes é analisar como os relatos reunidos por Beevor reforçam a longa distância entre termos como aliados, amigos ou associados. A aliança nada mais é que a reunião de inimigos para o enfrentamento a um inimigo comum. Isso fica um tanto evidente nas relações entre nações descritas por Beevor, em geral marcadas por desconfianças e picuinhas e, em muitos casos, já cogitando cenários para o depois da Guerra. Isso por sua vez só amplia a insensatez dos conflitos, pois enquanto o jogo do poder é definido pelas ações nos topos hierárquicos, como veremos em muitos relatos, a guerra acaba sendo algo incompreensível e sem sentido para os que a vivem no campo, sob chuva de bombas e balas. Assim, ainda que haja por parte do autor admiração pela estratégia militar, parece-me que ela não apaga o relato do quão monstruosa pode ser, pois todos "os monstros" a solta numa guerra, dão as caras no livro;

9 - É portanto um livro capaz de dimensionar o tamanho dos eventos focados pela publicação. De acordo com o autor "o cruel martírio da Normandia salvara o resto da França.  Mas o debate sobre o excesso aliado de bombardeio e artilharia está fadado a continuar. No total, 19.890 civis franceses mortos durante a libertação da Normandia, e um número ainda maior ficou gravemente ferido. Isso sem falar dos 15 mil franceses mortos e 19 mil feridos durante o bombardeiro preparatório da Operação Overlord..." Tais números somados às baixas aliadas de mais de 200 mil e às 240 mil baixas da Wermacht revelam a tragédia humana de uma ação que definiu a história do mundo recente;

10 - Enfim, o livro é um documento importante, especialmente por aliar detalhes de campo e de gabinetes com qualidade e documentação vigorosa. O leitor tem acesso a diferentes espectros e perspectivas da guerra, narrada com a proximidade possível que se tem a escrita.  Por fim o livro e sus justifica-se pelo que diz o próprio Beevor no encerramento do livro: "a batalha da Normandia não aconteceu como planejado, mas até os críticos de poltrona jamais questionaram o resultado final, por mais imperfeito que fosse. Também se deve levar em conta o que aconteceria se a façanha extraordinária do Dia D tivesse fracassado, como, por exemplo, se a frota de invasão tivesse sido atingida pela grande tempestade de meados de junho. O mapa do pós-guerra e a história da Europa talvez fossem mesmo muito diferente".


     

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