Header Ads

10 Considerações sobre Cem Poemas Sem Poesias, de Danilo Otoch

Formado em história, policial por profissão e poeta talvez pela paixão pelas palavras e pela complexidade da vida. Danilo Otoch apresenta nesta coletânea uma diversidade de poemas e temas contradizendo seu título contraditório, pois há sim poesia em todos os poemas. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - De acordo com a apresentação do editor Ocello Oliver o livro "mistura o sincretismo, conexão e sabedoria em seus textos, nos fazendo refletir sobre o cotidiano". Acerta nisso, pois de fato os poemas nesta obra reunidos versarão do cotidiano e também tratarão do olhar não apenas sobre si mesmo, que acaba de fato destacando-se na publicação, mas também do olhar para com o outro, em grande parte do olhar dos diferentes e apaixonados "eus líricos" para outras;

2 - Nessa perspectiva de olhar a si mesmo "Eus" é um exemplo quando o eu lírico confessa "Eu tenho dois de mim/ambos querendo ser um" que demonstra não somente este olhar interno, mas também outra questão presente em grande parte de seus poemas, a incompletude do ser que permanece na jornada, na insistência e resistência do caminhar que não cessa, de certa forma talvez observando a vida não como caminho ou destino, mas o próprio ato de caminhar, seja com trajetos ora mais limpos, ora pedregosos;

3 - Aliás, esse caráter resistente da insistência e de persistência como algo inerente a seus "eus líricos" revelar-se-á de forma consistente pela estratégia do autor no uso da repetição. Em muitos poemas a repetição de palavras, mais do que isso, a repetição de verbos, como em "Convite ao choro", poema com elementos de crítica social, "Minha amiga partiu" e "Não sou louco", dentre outros, talvez corroborem com as perspectivas deste leitor;

4 - Tal uso estético de certo modo tratam do "ser" em construção, até porque aquele que olha para si mesmo carrega a virtude de bem conhecer a não perfeição das coisas e da necessidade e possibilidade de sempre corrigirmos ou melhorarmos, de modo que em muitos dos poemas essa busca por sentido, essa caminhada permanente seja procurando pelo amor, caso de muitos poemas, pelo perdão ou simplesmente pelo entendimento das coisas, encontra na repetição não a simples e mera repetição das mesmas coisas, mas a repetição do ato, do verbo, do caminhar, e isso mais do que repetir, é progredir para uma coisa nova;

5 - Vejamos que até aqui pude compartilhar algumas virtudes da poesia de Otoch, uma poesia que com a liberdade dos versos adquiridas por aqui desde o modernismo toca naquilo que é reconhecível pelos leitores. Desse modo temos bons exemplos de poemas que extrapolam a mera tipografia impressa no papel e nos conduzem a boas reflexões. Todavia, numa seleção com tantos poemas, por certo que nem todos manterão a força e o vigor de seus melhores exemplos, havendo pelo menos aos olhos deste leitor uns mais atraentes, interessantes e relevantes que outros;

6 - Dentre os que chamaram a atenção deste que vos escreve, aqueles poemas que que durante a leitura passei a chamar de "poesia direcionada", quando o autor notadamente marca-as dirigindo-as a alguém em especial, ou alguma instituição. Neste grupo de poemas, excluindo-se "Acadepol" que não passa de versos saudando sua instituição, os demais, em geral dedicados à mulheres, acabam desnudando o poeta, não apenas em seus desejos, mas também naquilo que já disse aqui, o fato de os poemas analisarem a si mesmo, inclusive debatendo acertos e enganos de uma vida;

7 - Assim, feitas essas considerações, num conjunto geral podemos destacar alguns elementos dos poemas contidos neste livro, todos agraciados com muita poesia. Nesse aspecto o tempo perpassará por muitos dos poemas, ganhando certa centralidade na coletânea, pois que mesmo quando não presente explicitamente, o tempo desempenhará papel relevante nos poemas de Otoch;

8 - Soma-se ao tempo o elemento natural da poesia: os amores e as paixões. Eles conduzirão muitos dos poemas contidos nos livros, alguns em tons mais doces, outros agridoces, mas estarão sempre lá, bem como conduzirão os diferentes auto-olhares dos respectivos "eus líricos";

9 - Nisso destacar-se-á outra virtude interna nas reflexões dos versos do poeta. Muitos de seus trabalhos carregarão de forma reflexiva uma construção bastante altruísta de mundo, pois que o olhar para si mesmo não representa aqui uma busca narcisística ou egocêntrica, pois carregam em suas palavras a perspectiva de outrem, alheia, dos outros e outras que também compõem o mundo;

10 - Enfim, para os amantes da poesia, Cem Poemas Sem Poesias apresenta em seu amplo conjunto bons e significativos trabalhos que carregam um pouco desse tudo aqui já falado.  Pelas curiosidades da leitura, a este leitor a escolha como melhor trabalho o livro, talvez o mais ingênuo de todos, mas certamente o mais vibrante e esperançoso "Festival de Cores" que celebra justamente a diversidade da vida, mesmo que com a ingenuidade daqueles que ainda se permitem sonhar.



Nenhum comentário