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10 Perguntas inéditas para Matheus Peleteiro

Embora jovem, o baiano Matheus Peleteiro já possui um número considerável de publicações desde sua estreia em 2015 com o romance Mundo Cão. Dele são Notas de Um Megalomaníaco Minimalista, Tudo Que Arde em Minha Garganta Sem Voz e Pro Inferno Com Isso. Seu lançamento mais recente (nossa avaliação aqui) é O Ditador Honesto, obra da qual falamos nesta entrevista, além, é claro, de questões relacionadas à literatura, confira: 

LL: 1 - Sua obra propõe e reforça o fato de o gênero compor crítica ao presente do que qualquer intenção de profecia. Nesse sentido, há algo em seu trabalho que fuja um pouco destes tempos caóticos? Além disso, o distópico tornou-se elemento central da sociedade?

M.P.: Acredito que não... Meu trabalho é fruto destes tempos caóticos. Embora leia autores de outros tempos e goste de certas fantasias, meus livros não são ideais para quem deseja fugir da realidade. Talvez, no meu livro anterior, "Pro Inferno com Isso", possam ser encontradas fugas através de sonhos e um pouco de psicodelia, mas certamente os tempos caóticos também poderão ser encontrados nos pequenos detalhes. Quanto a segunda pergunta, embora tudo esteja desmoronando, as pessoas ainda sonham com heróis e utopias. Não vejo o distópico como elemento central da sociedade, mas gostaria de vê-lo.

LL: 2 - Seu personagem Gutemberg Luz poderia ser um bom exemplo da frase "de boas intenções o inferno está cheio"? Quais os perigos da auto-presunção do herói?

M.P.: Poderia, perfeitamente! Porém, precisamos tomar cuidado, afinal, se seguirmos os preceitos de muitos daqueles que creem na dicotomia "céu e inferno", é bem provável que o inferno seja um lugar muito mais divertido e tolerante, não é mesmo? Risos. Gutemberg estava num lugar que detestava, e não se enxergava como um herói, mas um vilão necessário. A auto-presunção é pedante e, sempre, ingênua. Não existem heróis e há sempre o risco de se tornar um idiota. Ele não era ingênuo; talvez, um nobre idiota.

LL: 3 - Seu livro, claro, é marcado pelas características distópicas ao mesmo tempo que você percebe-o como sátira, entretanto comentamos em nossa avaliação de que esta é uma sátira que não nos leva ao riso. A distopia, nesse sentido, é capaz então de levar um de nossos bastiões de resistência, o riso?

M.P.: Ah, acredito que não há gargalhada, o riso de divertimento, mas enquanto escrevia, e de acordo com o feedback de alguns leitores, creio que o livro pode roubar risos ou gerar inquietude e raiva, que pode até ser direcionada a mim, o autor, muitas vezes associado ao narrador, rs. Acontece que o riso roubado na narrativa é um riso de canto de boca, de desdém ao ridículo, um riso sarcástico e, muitos leitores, principalmente aqueles acostumados a temas acadêmicos e políticos, leem este tipo de obra buscando a razão, querendo saber de que lado posso ser posto, tentando descobrir onde se quer chegar e, neste livro, como escrevi em seu prefácio, não se busca uma solução, mas um desdém a hipocrisia e aos paradoxos dos discursos.

LL: 4 - Consideramos o narrador, Antônio, uma das figuras mais dúbias do romance, pois embora próximo ao ditador, soa distante e impreciso algumas vezes. Podes nos falar mais deste narrador, bastante parcial, e que se constrói pelas antíteses, marcadas principalmente pela forma eufemística que descreve situações sombrias?

M.P.: Não o enxergo como parcial considerando o contexto. Na verdade, o construí a partir da perspectiva de um cidadão comum, desacreditado em relação ao seu estado e ambicionando construir uma carreira - situação que contempla a maior parte dos brasileiros. Antônio é como eu acho que o cidadão brasileiro se comportaria se a figura de Gutemberg surgisse. De início, pretendia evidenciar a possibilidade do surgimento de um ditador, terminando o livro evidenciando as desgraças que aconteceriam, no entanto, aos poucos, contemplando o viés do cidadão comum, percebi que seria muito mais sincero terminar o livro daquela maneira. Numa situação de desespero e desesperança, como a que se situa o país em 2026, qualquer iniciativa que se predispusesse a dar um pouco de fé ao povo acabaria por fazê-lo relevar os meios dela.

LL: 5 - Agora, deixando um pouco a obra de lado, você embora jovem conta já com certa experiência em publicações. Quais suas relações com a literatura? Suas principais alegrias e dissabores nesta jovem jornada?

M.P.: Meu maior dissabor é a visibilidade. É muito difícil alcançá-la no Brasil, um país que não possui o hábito de ler. Mais difícil ainda é alcançar leitores morando na Bahia, onde o mercado é tão pouco estimulado e os olhares dificilmente são voltados para o tema. Porém, a literatura tem me realizado bastante. Aos poucos minhas obras tem chegado a diferentes estados, de modo que tenho constantemente recebido mensagens de leitores de todo o Brasil. É claro, é um trabalho de formiguinha, mas a repercussão tem sido muito positiva, e receber mensagens de leitores que ficaram felizes de ver a realidade em que vivem sendo registrada e representada nos meus livros, isso não tem preço...

LL: 6 - Aliás, seu romance reforça a velha máxima que para antes existir um autor deve-se ter um bom leitor. Percebemos várias referências na sua obra, de Orwell a Maquiavel. Quais as obras mais influentes no Matheus autor, além disso, quais suas relações com as distopias?

M.P.: Gosto do humor sarcástico de Dostoiévski, Tchekov, Bukowski, mas também sou um grande leitor de Oscar Wilde, Albert Camus, Hilda Hilst, Herman Hesse... Acho que tudo isso se reflete em meu trabalho, seja no humor, no realismo, nos diálogos devaneantes... No que se refere às sátiras, acho que A Revolução dos Bichos (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) e Holy Cow (David Duchovny) são minhas maiores referências. Muitas metáforas, abuso de paradoxos, foco não muito direcionado ao enredo da história e nas vidas dos personagens mas sim nos acontecimentos e seus reflexos. Acho que aprendi muito com Bradbury, ele sempre disse que para escrever uma boa distopia é preciso ter lido fábulas e contos de fadas, e quanto mais os leio, mais vejo o que queria dizer.

LL: 7 - Falando em distopia, o gênero que no Brasil reúne nomes como Ignácio de Loyola Brandão. Como observas a relação Brasil x distopismo?

M.P.: Enxergo como todo o cenário brasileiro, possui grandes obras, mas são afastadas pela chamada "síndrome do vira-lata". Por serem os autores brasileiros, é sempre muito difícil conquistar visibilidade. Acredito que as pessoas comprariam se estivessem em evidência. É verdade, existem poucas obras sobre o tema, mas algumas das poucas, como o próprio "Não Verás País Nenhum" de Ignácio de Loyola são digníssimas distopias. Recentemente o livro "Ninguém Nasce Herói", de Eric Novello conseguiu um ótimo alcance. Me parece um bom sinal.

LL: 8 - Mas voltemos a "O Ditador Honesto". Há no livro uma série de inter-relações ideológicas que não raro causam espanto e indicam certa esquizofrenia politica, bem presente no próprio ditador. Seria essa sua fotografia da sociedade contemporânea?

M.P.: Certamente. A confusão é notória em todas as esquinas. É neste ponto que muitos leitores podem enxergar a obra com indignação e, outros, com um humor sarcástico. Muitas vezes o ridículo chega a ser terrivelmente engraçado. Todo mundo sabe tudo, mas ninguém sabe nada. Suposições viram verdades de todos os lados e são utilizadas como argumento "concreto". Não vejo mais "esquerda" e "direita". Vejo pessoas que nunca leram a constituição ou um livro de ciência política defendendo nas redes sociais suas teorias para solucionar o Brasil. Talvez você ache revoltante, fique puto, mas eu apenas lamento e desdenho. Como escutei o satírico escritor José Eduardo Agualusa dizer na semana passada "escrevo sátiras pois humor é subversão e rir é resistir".

LL: 9 - Falando em ditador e ditadura. Em sua obra, Gutemberg Luz é visto como ditador ainda que tão somente deturpe e manipule as estruturas da democracia. A democracia corrompida, para você é ditadura? Como observas a distinções entre tiranias e ditaduras?

M.P.: Acho que compreendo ambos a partir dos seus conceitos. A tirania possui o poder ilimitado em uma única figura, o que "O Ditador Honesto" acaba conquistando, porém, os seus aliados também acreditam ter poder, embora apenas aceitem as suas deliberações, afinal, por ordem dele ou não, lhes foi atribuído poderes. Sendo o conceito de ditadura "um governo regido por um grupo sem participação popular", não seria esta a classificação de uma democracia corrompida? Não gosto muito de classificar as coisas. Muitas vezes os termos se diferenciam somente para tentar disfarçar o que é evidente. Se foi corrompida já não é democracia, embora muitos ainda utilizem eufemismos para sonhar com uma certa "resistência".

LL: 10 - Para finalizar, o que podemos fazer entre a utopia e a distopia, já que ambas constituem as faces muito semelhantes de uma mesma moeda?

M.P.: Olha, como escritor, falando a favor dos escritores, acredito que o que podemos fazer é escrever livros em que o leitor seja obrigado a se perguntar qual dos dois se encontra ali. Acho que não cabe ao escritor classificar nada, muito menos tentar encaixar a sua obra em determinado conceito. Já escutei de pessoas que leram "O Ditador Honesto" que a invenção de Gutemberg é uma utopia, pois a sua existência seria "maravilhosa", assim como escutei acusações de irresponsabilidade, por escrever uma distopia em que a partir dos olhos de algumas pessoas, um tirano acaba sendo tido como um mártir. Portanto, penso que resta me desvencilhar de conceitos e continuar escrevendo livros que confundam a cabeça de leitores. Como disse Kafka: "Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?". Estou preparado para as divergências que o livro irá causar, mas sei onde quis chegar e isso me basta.

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