Header Ads

10 Considerações sobre Bonsai & A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra ou sobre a importância dos vasos...

O Blog Listas Literárias leu Bonsai & A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra, publicado pelo selo Tusquets da editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Bonsai & A Vida Privada das Árvores reúne as duas primeiras obras de Zambra e narra duas histórias que tratam de identidades desgastadas e perambulam pelo ócio cotidiano das existências mundanas em duas narrativas que falam dos não-acontecimentos e dos fracassos costumeiros de vidas comuns;

2 – Em ambas narrativas o autor joga com os limites fronteiriços entre ficção e realidade, de modo que em seus argumentos poderíamos depreender que ele vê ambas numa relação simbiótica em que tanto a literatura tem a capacidade de literalizar as situações da vida, como a própria vida pode ser ponto de partida para a construção literária, algo que fica mais perceptível em seu estilo dotado de certa ironia por meio de narradores que jogam com habilidade quebrando distâncias ente uma e outra [vida e literatura] ao mesmo tempo que as aproxima num uno possível de ser fragmentado e coeso de acordo com a voz que narra;

3 – Essa relação bastante presente e explícita entre a vida e literatura reforçará do mesmo modo a característica de metaliteratura das narrativas, onde inclusive teremos, por exemplo a definição de que “escrever é como cuidar de um bonsai. Cuidar de um bonsai é como escrever”, conceito que não só apresenta a filosofia do autor, mas é espelhada pelo estilo enxuto de sua prosa. Além disso, o assumir-se literário dos personagens, joga também nesse campo da literatura, em estilo que teremos exemplos semelhantes e interessantes como o filme “Mais Estranho que A Ficção”, ou como o romance brasileiro “Nunca o nome do menino”, obras que como estas duas narrativas de Zambra ressaltam o estranhamento da existência em conjunto de uma discussão sobre a própria discussão ficcional;

4 – Aliás, o próprio gênero das duas prosas podem dar vazão a debates e discussões, porque embora assumidos como romance, as narrativas curtas, enxutas e bastante focalizadas num centro único aproximam-nas dos contos, ou da própria novela, embora novela e romance sejam duas coisas relativamente próximas. A bem da verdade, não seria absurdo alguma observá-las como exímios contos, tanto pela capacidade de lê-las de uma sentada, quanto pelos icebergs sob a superfície de suas aparentes simplicidades;

5 – Em Bonsai, temos Julio que entre seu Bonsai e a literatura entrecruza-se com personagens que chegam a partem, sempre envoltos pela ironia e pelo sarcasmo de existências mundanas e contraditórias que destacam de certo modo a própria paralisia do protagonista;

6 – Além disso, Julio, nesta relação entre vida e ficção, vive de algum modo este jogo de inter-relações, tanto que a mentira e as fantasias que constrói acabam tendo reflexos em suas ações e atitudes, enquanto reflete até mais sobre a literatura do que acerca da própria vida;

7 – E não deixa de ser algo semelhante com o que veremos em A Vida Privada das Árvores, mais uma prosa a dar conta das ilusões, desilusões e encontros e desencontros de personagens, sempre envoltos por certa melancolia;

8 – Nesse sentido, a própria ficção não deixa de ser uma espécie de anestésico, de calmante ou mesmo de ponto de refúgio como veremos com Daniel, que a usa – a ficção – para amainar o drama enervante de esperar pela mulher que não chega;

9 – Em síntese, as duas prosas curtas falam de castelos de cartas suscetíveis aos menores sopros, às mais frágeis brisas, ainda que o ruir de seus castelos não lhes cause ais do que a melancolia e a resignação, assim como na vida, são acontecimentos comuns, banalidades cotidianas que no caso das duas obras são ressignificadas e amplificadas justamente pelo poder e pela força da representação literária, de modo que a literatura descortina esse real mundano, e, claro, não destituído de ideologia ou política, como veremos sutilmente especialmente em A Vida Privada das Árvores;

10 – Enfim, essa recente publicação reúne duas prosas de forte relevância literária em duas histórias aparentemente banais, mas que sob suas superfícies tratam da vida e seus dramas num estilo particular e preciso tanto quanto o necessário ao cultivo de um bonsai.



Nenhum comentário