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10 Considerações sobre O Inquisidor, de Catherine Jinks ou por que tomar cuidado com "a fé"

O Blog Listas Literárias leu O Inquisidor, de Catherine Jinks publicado pelo selo Marco Polo da editora Novo Contexto; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Bem estruturado e com uma narrativa vigorosa e verossímil, O Inquisidor leva-nos a uma viagem pelo tempo, a uma época em que de caçador à presa basta um piscar de olhos, numa sociedade marcada pela desconfiança, pelas denúncias, mas acima de tudo, uma sociedade em que fé e poder estabelecem uma tirania de longo e mortal alcance;

2 – Para tanto, Catherine Jinks leva-nos ao Século XIV, em plena inquisição, a uma pequena comunidade francesa, Lazet, onde o poder da Igreja é absoluto e quem não está com ela, é provavelmente seu inimigo. Nesse ambiente de extremo controle qualquer manifestação individual ou considerada não ortodoxa pode levar a prisão, ou mesmo à morte, de tal modo que o ambiente é tomado pelo medo e pela desconfiança;

3 – Um detalhe interessante da obra inicia-se já pela escolha narrativa da autora, escolhendo um narrador, que embora possua a tradicional desconfiança às vozes em primeira pessoa, é dotado de toda sua subjetividade capaz de tornar palpável e vívida a sua experiência, no caso, do próprio narrador, padre Bernard, que após a morte de um inquisidor, assume a função em meio a um jogo de cambiantes situações em que as ambições pessoais são tão poderosas quanto a própria igreja, além de habitar um espaço em que o profano e o sagrado cruzam-se muitas vezes de forma macabra;

4 – Desde o princípio os leitores são informados de que o narrador-protagonista encontra-se em grande apuro com a igreja de modo que sua salutio, além de introduzir e instigar à trama, monta uma grande missiva que não só vem a justificar sua narrativa estabelecendo um narratário explícito, fazendo com que sua narrativa cheia de reviravoltas e tramas seja também seu documento de defesa a narrar com sua perspectiva uma ampla cadeia de acontecimentos, de modo que é também testemunho de acusação e defesa;

5 – Tal detalhe é interessante e no campo dos estudos literários deve ser observado, visto que temos o olhar de um degredado, de um fugitivo que apresenta-se aos superiores dando a sua versão dos acontecimentos, já que o protagonista, um padre, é bem verdade um tanto petulante e um tanto orgulhoso de seu saber, acaba enredado mais pelas ambições e intrigas de seus colegas do que propriamente por seus fraquejares com a fé, pois a cabo, embora um romance histórico com grande poder de ambientação e paralelismos históricos, é das ambições e fraquejares humanos, especialmente os desejos de poder, que levam à morte e às dores que nascem na obra, sendo a política à época um bom agente a possibilitar que homens ambiciosos matem outros homens ambiciosos;

6 – Além da questão histórica envolvida, vale ressaltar o poder atrativo do romance, que ainda com suas peculiaridades, acaba tendo certos ares de romance policial em plena inquisição, com investigações de assassinatos tenebrosos, perseguições e mentiras que mascaram e nublam os acontecimentos de tal forma que envolve e cativa os leitores desde o princípio;

7 – Assim, aliamos o ambiente de caça às bruxas às narrativas criminais, isto com personagens envoltos por seus dramas humanos, caso do próprio narrador, abalroado pelo amor, perseguido por seus pares ao mesmo tempo que procura solucionar a morte do inquisidor que o precede, revelando então uma dinâmica fluída cujas revelações são constante, assim como a sensação e a percepção de perigo que não cessam nunca;

8 – Lógico que se o caráter policialesco da narrativa surge como um atrativo a mais da obra, é seu cunho histórico o mais relevante para o gênero, e nesse campo a obra cumpre também seu papel com bastante eficácia, visto que a ambientação é bastante exitosa em transpor o clima de opressão e suspeição do contexto que se pretende narrar, pois ao leitor fica-se a impressão de que aos habitantes daquele espaço ficcional não há para onde escapar ou fugir, pois as artimanhas do poder e seus tentáculos tanto podem encontrar ou fabricar os seus hereges, o que, convenhamos, não mudou muito de lá para cá;

9 - Portanto, claro, com todas as liberdade necessárias, o romance possui diversos atrativos, e especialmente pelo poder de convencimento de seu narrador e a forma que seu testemunho cia e recria todo o ambiente, nos soa não só com boa capacidade de fidelidade mas especialmente é capaz de trazer palpabilidade ao ambiente construído soando-nos bastante real e verossímil, e isto não só agarra-nos à leitura mas também convence-nos da experiência narrada, aí, talvez a grande virtude do livro, pois embora, claro, todas as adaptações da linguagem pelo tempo (e pela tradução), padre Bernard tem sucesso ao nos levar ao Século XIV num ambiente bruto e perigoso, um ambiente em que a fé deu vazão à grandes atrocidades, intrigas e traições. Escutamos (lemos) a estória como se ouvida da própria fonte;

10 - Enfim, O Inquisidor é uma potente drama histórico, cheio de atrativos e alternativas que leva os leitores a um ambiente palpável de insegurança e medo numa sociedade estrutura sob princípios de intenções obscurecidas e onde o perigo espreita a qualquer momento. Uma obra que trata de tempos sombrios da humanidade.



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