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Mata o Monstro! Corta a goela! Espalha o Sangue! 10 Considerações sobre Senhor das Moscas, de William Golding

O Blog Listas Literárias leu Senhor das Moscas, publicado pela editora Alfaguara; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Alucinado e eletrizante, Senhor das Moscas é uma das raras publicações capaz de por meio da ação intensa e constante abrir as portas da reflexão sobre os piores comportamentos humanos através de uma metáfora crua, cruel, e que em maior parte da narrativa suspenderá a própria respiração de seus leitores, absortos e presos à barbárie cujo grau vai elevando-se gradualmente, e com rapidez. Sem dúvida, uma obra indispensável e um tratado sobre a violência que acompanha a humanidade há muito tempo;

2 - Para uma obra cujo plano mais superficial dá-se na ação, o livro abre uma grande possibilidade de leituras, dúvidas e reflexões, a começar pelas sombras que envolvem o passado das crianças que vão parar na ilha após a queda de um avião. Quase nada é dito sobre quem são elas, de onde vieram e quais suas relações pregressas, que surgem mais pelas insinuações e pelas relações que se desenvolvem já na ilha, como os antagonismo. Assim, exceto uma ou outra informação básica sobre Porquinho, o fato de Jack liderar o coro, e coisas esparsas sobre Ralph, tudo que passamos a construir sobre suas personalidades é como passam agir já na ilha. Aí, não demora muito para que todos se revelem por meio de uma vertiginosa escalada de rancores, ódios e medos;

3 - Obviamente, o pregresso à ilha provavelmente tem impacto nos comportamentos no exílio, que no caso passa a criar novos pactos e liberações diante da ruptura da ordem a qual estavam acostumados. Deste modo, logo percebe-se que perdidos naquela ilha e sem qualquer adulto para organizá-los, eles buscam proteger-se enquanto espera-se por algum resgate, contudo, como fica claro desde o princípio, as primeiras ações, as primeiras escolhas, enfim, desde o primeiro dia as ideias e concepções divergentes plantam as sementes dos horrores que acontecerão;

 4 - Neste sentido, aliás, a obra mostra-se bastante dicotômica, dividindo-os entre os caçadores e os fumaças, cisão que dá-se pela disputa entre Jack e Ralph pela liderança do grupo perdido. Há nessa disputa uma herança do pregresso, algo já presente nas personalidades de ambos, e que fará com que o grupo de crianças mergulhe nas trevas da barbárie. É quase uma luta entre os bons e os maus, entre o desejo de manter-se lúcido e civilizado e o retorno à selvageria primitiva, com Ralph e Jack encampando lados opostos numa luta que decidirá a sobrevivência de todos, enquanto a loucura parece dominar o grupo. Entretanto seria loucura ou algo inato à condição humana? que diante revezes e medos próximos joga-se à escuridão da violência? Esta leitura, aliás, bastante pertinente a uma narrativa marcada pela experiência da Segunda Guerra Mundial;

5 - Aliás, ao surgirem perdidos na ilha, os garotos parecem de fato dar início a uma grande metáfora alegórica da própria história da civilização humana. A luta pela sobrevivência e o medo os levam a reconstruir em muitos momentos os passos mais primitivos da nossa evolução, que no caso dos garotos trata-se de uma involução, contraponto, aliás, que sempre surge nas comparações de Ralph em sua luta por manter-se civilizado como antes da queda. Entretanto, tal involução leva a parte do grupo a paulatinamente reviver a primitividade humana, não só representada pela caça, mas pelo surgimento dos rituais, das encenações, dos mitos e símbolos próprios à suas estadas na ilha, como a própria concha do dia da chegada, o sacrifício, e as danças, que no caso do livro resultam numa das tragédias do livro;

6 - Mas se de algum modo temos uma narrativa dicotômica, não podemos, todavia, desconsiderar a própria fragilidade da liderança de Ralph, sempre vacilante e frágil, e que no princípio mostra-se insensível e egocêntrica, algo que fica claro em sua relação inicial com Porquinho, de modo que desde o início a concepção de liderança, impregnada pelo elemento de uma chefia despótica, que mesmo em sua aparente democracia, dá mostras de levar ao caos que inevitavelmente levará;

7 - A leitura política, aliás, é também um interessante elemento. Em ambas as formas apresentadas, não deixam de vir com críticas, mesmo a frágil democracia representada por Ralph e a concha que dá voz ao grupo. Vemos ela fragilizada e ineficiente, caracterizada por muita discussão, debate, mas pouca efetividade prática e mesmo compromisso;

8 - Todavia, a alternativa que lhe surge é um belo espelho das tiranias que eclodiram no Século XX. Por trás da "eficiência" de um líder ditatorial como Jack, que segura seu povo dando-lhe de comer, e com isso conseguindo autorização para as atrocidades que serão cometidas a partir de uma totalização massiva do grupo, é a construção do caminho para violência e a barbárie, que no caso do romance chegarão ao ápice numa caçada selvagem e que representa o ato máximo do retorno aos instintos primitivos que transformam as crianças perdidas em animais brutos e destituídos de toda civilidade. Aliás, outra bela relação entre o interno e a alegoria externa é que Golding a partir de Roger reforça que não basta um líder desumano como Jack, mas uma base tão sedenta por sangue quanto aquele que chefia por hora;

9 - Ao fim, resta a Ralph chorar "pelo fim da inocência" e "as trevas do coração humano", diante da percepção que perante um evento inesperado podemos regressar à nossa condição animal e de selvageria, como se tanto Ralph, Golding e os próprios leitores observassem com espanto de que manter a civilidade e a sociabilidade é ainda um grande e complicado desafio;

10 - Enfim, Senhor das Moscas tem motivos, e muitos, para ter tornado-se uma obra de referência. Há nele centenas de aspectos que podem contribuir para debates e reflexões. Uma obra rica e de elementos literários relevantes. Para uns, uma fantasia, ainda que ela (a fantasia) não habite a estrutura da narrativa, visto que a despeito do insólito e do improvável, a selvageria ocorrida na ilha pode ser bastante real. Uma trama de alegoria política, também, mas acima de tudo um grande manifesto crítico à nossa incapacidade de lidar com os medos e antagonismos, fatores que em dados momentos da história nos fazem regressar à primitividade. Há sem dúvida muitos Jacks e ilhas por aí, e William Golding através deste grupo de crianças não alheias a nossas piores inclinações, numa narrativa elétrica e terrificante traz certa desesperança no comportamento humano com a mensagem clara: não estamos livres da selvageria humana.



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