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10 Considerações sobre O Aprendiz de Gutenberg, de Alix Christie ou sobre tarefas homéricas

O Blog Listas Literárias leu O Aprendiz de Gutenberg, de Alix Christie publicado pela editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - O Aprendiz de Gutenberg é um livro interessante mesclando narrativa histórica e thriller jogando luzes sobre um dos maiores inventos da humanidade, a impressão de Gutenberg, narrado a partir da perspectiva de um de seus aprendizes, Peter Schoeffer, numa trama que dentre outras coisas falará de obstinação e comprometimento;

2 - Para narrar este grande acontecimento da humanidade a autora noveliza a experiência histórica elaborando sua versão dos anos que antecederam até o dia do sucesso da impressão das edições da hoje conhecida Bíblia de Gutenberg. O impressor a partir de suas prensas e seus sistema de impressão provocou uma grande revolução no mundo,todavia há no romance de Christie certa tentativa de revisão histórica ao trazer para este acontecimento seu cenário amplo (que ao leitor de hoje até pode surpreender por causa de nossa concepção de impressão) com mais personagens relevantes a dar noção da condição homérica deste trabalho;

3 - Com o tempo e sua passagem nos habituamos a falar na Bíblia de Gutenberg, permitindo o esvanecimento da grandiosidade da empreitada realizada e todos os atores envolvidos no processo, de modo o romance ao trabalhar a perspectiva de Schoeffer acaba dando a dimensão do fato ao mesmo tempo que reproduz um cenário de intrigas e golpes, isso tudo num mundo cujo pano de fundo histórico está bastante tumultuado; 

4 - Assim, com sua narrativa em terceira pessoa e o tempo dividido em dois, com pequenos trechos cerca trinta anos após o feito, e durante a execução do projeto. Nesse avanço temporal um cronista ouve Schoeffer sobre a impressão da bíblia e a relação entre os antigos sócios ao passo que a narrativa em tempo presente à impressão da bíblia trazem as tumultuadas relações entre aqueles impressores;

5 - O romance então acaba colocando em discussão a individualidade do processo dando força a uma coletividade que possibilitou avanços ao projeto de Gutenberg além de nos dar boa ideia do tamanho do feito quando daquelas primeiras impressões e tudo o que aquilo representava para sua época, a lembrar, tempo ainda de escribas e cuja impressão uniforme tinha poder de espantar almas temerosas do novo. Nesse sentido, a obra além do desafio prático que todo aquele compromisso significava busca imbricar-se, graças a elasticidade da ficção, nas relações e complexidades entre os envolvidos no projeto e também seu contexto histórico;

6 - Ainda que a ficção então tenha algo de revisão histórica, ela contudo consegue ao final não buscar afirmar nada que não se pudesse dizer e assim muito dos personagens ficcionalizados manterão a aura de suas contradições e incoerências, caso do próprio Gutenberg que embora visto pela perspectiva de um de seus auxiliares, não será julgado pelo romance, mas sim muito mais problematizado;

7 - Desta forma, a autora, contudo, acabará trazendo para esta invenção a presença e relevância de Peter, que depois dissolução da sociedade com Gutenberg veio a tornar-se um dos mais importantes impressores do mundo e que aos olhos desta narrativa ocupa lugar de igual importância ao próprio Gutenberg;

8 - Mas ao mesmo tempo que ela partilha a invenção de Gutenberg, a autora não desfaz o misticismo sobre o inventor, caracterizando-o em seu romance com os mesmos mistérios, segredos e incompreensões destinadas aos gênios e sábios, de modo que mesmo rediscutindo os papéis durante o projeto, sobre Gutenberg pairarão muito mais perguntas do que afirmações;

9 - Na verdade o romance não falará só de criatividade, obstinação e sonhos, dará tons mais humanos às invenções descobrindo as intrincadas redes de articulação envolvidas num segredo que precisou perdurar anos (este, aliás, um grande feito dos impressores de Mainz), isto tudo movido entre conspirações, desconfianças e intrigas que colocam a invenção para além das ideias, mas também nos campos diversos e que demandam ação para que se possa por em prática o sonho desejado. No caso desses impressores, de acordo com o romance, uma tarefa hercúlea que além de obstinação demando superação e trabalho, muito trabalho e política durante os cerca de quatro anos que duraram aquelas impressões dos exemplares da bíblia;

10 - Enfim, além de ser um romance de narrativa atrativa, o objeto histórico desta ficção é interessantíssimo de forma que o livro consegue dar o real valor daquela impressão de Gutenberg e seus parceiros. Podemos ter uma noção dos diferentes desafios envolvidos. Se hoje o ato de imprimir nos pareça tão supérfluo (o engraçado é que caminhamos para imprimir cada vez menos, pelo menos fisicamente), para aquele grupo isso representava um projeto que acima de tudo cobrou-lhe abnegação e dedicação plena, e claro, por que não, um pouco de heroísmo.



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