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10 Considerações sobre Não Vai Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis ou como surgem as tiranias

O Blog Listas Literária leu Não Vai Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis publicado pela editora Alfaguara; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Tão necessário quanto 1984, Nós e Admirável Mundo Novo, Não Vai Acontecer Aqui é um alerta necessário contra os ideais fascistas e populistas que volta e meia reaparecem em ondas de intolerância patrocinada por políticos aproveitadores, que na vida real existem às pencas tais quais o antagonista desta narrativa, Buzz Windrip, pertencente à galeria dos grandes tiranos da literatura;

2 - Escrito em 1935 (e recentemente retomado por leitores e críticos) o romance está dentro daquele período marcado pelo surgimento das narrativas distópicas clássicas que expressavam justamente o momento desesperançado a que estavam inseridas num mundo tomado pelo fascismo em diversas partes, de modo que em sua obra Lewis demonstra que não apenas escritores europeus mostravam-se preocupados com o totalitarismo, sendo ele uma representante na América;

3 - O livro parte da premissa de que os Estados Unidos não estaria imune aos movimentos totalitários e que o fascismo e a ditadura poderia constituir-se na América, mesmo a despeito da descrença de seu corpo social marcado pela frase "não vai acontecer aqui" que acaba dando nome ao título do livro. Para mostrar que o contrário era possível, Sinclair Lewis apresenta uma trama em que pelas vias democráticas numa eleição vencida pelo déspota e populista Buzz Windrip de que "no futuro" as ditaduras também poderiam ocorrer nos Estados Unidos;

4 - Para construir sua trama o autor então narra em terceira pessoa e a partir da perspectiva do jornalista já de certa idade, Doremus Jessup, todo o processo que mergulhará o país numa grande treva de opressão e morte, e que a princípio soará tão irreal a ser capaz de justificar a descrença com a expressão dita por vários personagens "não vai acontecer aqui", mas que pouco a pouco levará que qualquer conversa ou pensamento será um ato bastante perigoso;

5 - Desta forma, o livro constrói-se como se guiado pelo "manual básico de formação dos tiranos", observando elementos e movimentos sociais e de massa que permitem que tais tipos de figuras cheguem ao poder, sejam eles comunistas, socialistas, trabalhistas, democráticos, etc... e seja lá por qual tipo de forma que se possa chegar ao topo. Todavia, no caso do romance, não se pode deixar de observar que Windrip segue um modelo muito próximo da fórmula usada por Hitler para tomar a Alemanha, inclusive existindo no romance certo paralelo aos "SSs" encarnados nos temíveis e cruéis Minute Men, uma polícia formada por violentos e jovens arruaceiros, disciplinados e obedientes ao Chefe;

6 - Aliás, para os que interessam-se por discutir, debater e refletir sobre o totalitarismo, o romance é capaz de revelar muitos dos elementos dos Estados totalitários que marcaram a primeira metade do Século XX, seja pelo uso da propaganda, o controle e a vigilância, a manipulação das massas; enfim, a obra permitirá ao leitor estabelecer diálogos, por exemplo, com os estudos de Hannah Arendt sobre As Origens do Totalitarismo, sendo que, porém, o romance é fruto do exato momento histórico, ou seja no momento que as coisas estão acontecendo, e que Sinclar Lewis demonstra uma grande capacidade de compreender os movimentos políticos, sociais e históricos que o circundam;

7 - E parte desta capacidade de compreensão do autor será colocada ao leitor por meio da sobriedade desesperançada e cética de seu protagonista, Jessup, um homem de ideais humanistas, mas não sem deixar de carregar suas contradições e complexidades que dão ao seu olhar sobre tudo que ocorre uma lucidez acachapante e reveladora das distorções e hipocrisia dos discursos sociais e políticos;

8 - Além disso, entre tantas virtudes e relevâncias desta obra, certamente a principal é a de desmascarar o discurso fácil do populismo e do fascismo ao mesmo tempo em que seu alerta serve para dizer não a acomodação, visto que nossas democracias não estão livres de sujeitos como Windrip e seu discurso no melhor estilo "canto das sereias". Aliás, o livro vem sendo resgatado justamente por causa disso, pois após a eleição de Trump, toda essa questão do "não vai acontecer aqui" parece ter começado a ruir entre os americanos que querendo ou não, e ainda que não discutam as contradições e problemas de sua democracia, a valorizam um bocado. Do mesmo modo, vale dizer ainda, que na verdade a obra de Lewis consegue ultrapassar datações e espaço geográfico, seu romance trata sobre o totalitarismo possível - e presente - em qualquer lugar do mundo, como no próprio Brasil onde muitos não levam a sério discursos de ódio ou desprezo pelas diferenças das humanidades que compõe nossa sociedade. Nesse sentido, o livro é uma alerta valioso, ainda que seu alcance seja sempre reduzido, e ainda entre os que leem tais mensagens nem sejam totalmente compreendidas;

9 - Vale também destacar, como aliás, já tracei algumas comparações, embora com algumas peculiaridades, o romance poderia ser incluído entre as distopias, pois sem dúvida alguma em sua estrutura e seus acontecimentos o pensamento distópico não apenas permeia, mas constrói a narrativa. Além disso, para os leitores de distopias se perceberá que há no romance elementos que serão posteriormente vistos também em 1984 e especialmente em Fahrenheit 451, ainda que a própria obra demonstre que nada mais agrada aos tiranos há milhares de anos que queimar livros e bibliotecas. Em relação às distopias, outro detalhe interessante de observarmos e que distingue o livro das demais é que em todas elas o Estado totalitário vigente já está ali, presente, enquanto neste romance, o que acompanhamos é justamente o processo de instauração e o surgimento deste Estado totalitário, e  isto construído com uma leitura política bastante perspicaz do autor;

10 - Enfim, Não Vai Acontecer Aqui é uma leitura necessária, mas também imperdível por todos seus importantes elementos narrativos. Ademais, a obra traz uma questão bastante interessante e que nem sempre é posta a público, que é justamente apresentar uma parcela da sociedade americana simpática a ideais totalitários e a "líderes" fortes como Hitler e Mussolini, fascínio este que é partilhado e perturba o mundo em diferentes momentos e partes do mundo e que escancaram a fragilidade de uma afirmação como "isto não vai acontecer aqui", de modo que a leitura é uma dose, ainda que pequena, de precaução diante o totalitarismo, a violência e a opressão por parte daqueles que não conseguem compartilhar o mundo com o pensamento diferente.



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