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10 Considerações sobre Nada Além da Verdade, de Alex Gilvarry ou bem-vindos à selva

O Blog Listas Literárias leu Nada Além da Verdade, de Alex Gilvarry publicado pela editora Tordesilhas; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Com uma linguagem e temas contemporâneos, Nada Além da Verdade trata de uma questão nem tão nova assim: o autoritarismo. No caso deste livro, desnudando os tempos sombrios desencadeados pela "guerra ao terror" imposta pelos Estados Unidos ao narrar a história e o encontro de personagens improváveis;

2 - A narrativa é centrada em Boy, estilista filipino que joga-se a viver não só o "sonho americano", mas também o "sonho novaiorquino", mas que virá a ser colocado no meio de uma trama de terrorismo internacional, fato que impulsiona sua narrativa confessional escrita dentro de uma prisão de Guantánamo;

3 - Nesta sua confissão, menos um documento a entregar seus captores e mais uma impulsão à narrativa, Boy rememorará em primeira pessoa as linhas de acontecimentos que o levaram até a prisão como terrorista fashion. Essa descrição em primeira pessoa dá palpabilidade ao narrador-protagonista, pois sua forma simples de se comunicar dá a credibilidade ao estilista - quanto ao narrador é outra coisa - e nos fala de sua chegada aos Estados Unidos, seus sonhos e seus medos naquele éden do capitalismo;

4 - Com isso o livro une personagens e situações inesperadas. Na verdade a junção de personagens nem seja assim tão inesperada, porque ao chegar em Nova York o filipino como todo peregrino do sucesso vai estabelecendo contatos com figuras peculiares, as quais algumas alcançam o cume enquanto outras ficam ali com seus destinos de homem-placa. Essa consciência da selva-metrópole será o que justamente colaborará para que determinados conceitos do narrador sejam mais elásticos em virtude de uma ambição capaz de muitas concessões;

5 -  Mas o grande contraste certamente se dá com a aproximação do mundo da moda com o terrorismo e a espionagem. Enquanto Boy apresenta ao leitor todo seu conhecimento e identidade no mundo da moda, que nos convence, de fundo vamos acompanhando o desenrolar de sua confissão, não apenas trazendo para a narrativa os terroristas, mas também toda a paranoia e medo surgidos com o onze de setembro;

6 - Além disso, o livro provocará a reflexão sobre o autoritarismo tolerado a partir destes medos e paranoias ao descrever e apresentar diversas desconsiderações aos direitos individuais de uma pessoa, ao passo que diante do poder autorizado a cometer ilegalidades e arbitrariedades ninguém fica a salvo das ideias mais absurdas, inclusive os estilistas;

7 - Logicamente temos de considerar, porém, uma série de elementos sobre a narrativa de Boy Hernandes. O leitor perceberá que como qualquer voz pessoal, ela possui seus limites de confiabilidade, e Boy em sua escrita não deixa de ter suas complexidades e contradições. Temos ainda o fato de que sim, suas relações propiciam qualquer mal-entendido, mas como ficará em sua mensagem, quem nos dias de hoje, com tanto controle, estará livre da má interpretação?

8 - Nesse momento é que a mensagem não explícita talvez ganhe mais força. Sua vida praticamente acaba a partir de uma confusão, isso porque para se construir algo sobre alguém, ou então que interpretações errôneas ou precipitadas é muito fácil, sendo que a questão mais séria é quando isso acaba servindo a interesses pouco claros do poder, e das autoridades que o exercem;

9 - Em suma, Boy, o terrorista fashion torna-se um habitante a conhecer de fato este novo mundo, um mundo em que a distopia do passado tornou-se a prática do presente, e que acima de tudo isso, está a impossibilidade de o sujeito sugado para esse túnel de névoas lutar para sair dele porque ele está posto sempre em desvantagem, pois o medo propagado desencadeia outras formas de terror, no caso de Boy, o terror praticado por aqueles que "combatem" o terror;

10 - Enfim, publicado em 2012, esta é uma leitura bastante interessante e que deve ser olhada e lida com muita atenção. Uma narrativa aparentemente despretensiosa que aborda de forma qualificada o universo autoritário que estamos vivendo há alguns anos. Além disso, reúne elementos estéticos capazes de não agradar somente leitores pelo entretenimento, mas também pela crítica.


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