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Entre na Matrix. 10 Considerações sobre Neuromancer, de William Gibson

O Blog Listas Literárias leu Neuromancer, de William Gibson publicado pela editora Aleph; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - De 1984, ano de sua publicação até hoje em sua 5ª edição publicada no Brasil pela Aleph em 2016, Neuromancer constituiu-se um clássico da cibercultura, mas não só isso, pois hoje mediante nossos avanços tecnológicos, ainda lá nos anos 80 quando a internet ainda gatinhava já apresentava questões relevantes à nossa sociedade diante as tendências de comportamento perante os recursos da tecnologia e altamente influenciado pela cultura punk cujas influências ainda podem ser observadas nos dias de hoje;

2 - Com sua narrativa muitas vezes dura e direta numa linguagem sem floreios Gibson transpõe para sua estética o próprio universo em que ambienta sua trama, uma sociedade de cores distópicas em que vemos desaparecer o próprio Estado perante megacidades corporativas, e cujos habitantes povoam o submundo tomado por crimes e corrupções que parecem ser a regra de seu universo onde há apenas sobrevivência em convívio com os avanços da tecnologia computacional;

3 - Justamente por isso, justifica-se plenamente a linguagem muitas vezes científica e filosófica da narrativa, pois esta extravasa as personagens e o ambiente da obra de tal forma que a precisão brusca desta linguagem constitui também elemento da opressão e da violência presente na obra;

4 - Além disso, o livro, precursor do que foi sendo chamado de Cyberpunk já nos anos oitenta traz para o debate como a tecnologia computacional poderá interferir na própria existência humana. Obviamente, ainda no princípio desta coisa toda, o que nos fica é a capacidade de o autor descrever tendências as quais muitas vieram a se concretizar em tempos presentes a despeito de qualquer tipo de aviso ou recado que poderíamos ter numa narrativa distópica. Nesse sentido, obviamente a relação entre as pessoas e o ciberespaço é um dos principais elementos da obra e que hoje estamos muito próximos do mundo de Neuromancer e seu protagonista Case, um cowboy virtual colocado numa trama a princípio confusa, tendo de acessar a matrix em busca de um código computacional;

5 - Aliás, ainda que o filme Matrix coloque Neuromancer como influência e não inspiração - ou mesmo adaptação -, é inegável as similaridades da obra que foi sucesso de crítica e público nos cinemas com a obra de Gibson, de tal modo que influência não seria a palavra mais correta, talvez. Entretanto, não entremos nesta seara, pelo menos não aqui, o fato que nos importa é como Neuromancer nos apresenta esta realidade virtual paralela que em última instância corre para o destino que vemos no filme dos irmãos Wachowski. 

6 - A matrix, no caso o próprio ciberespaço, é então o terreno para o embate de distintas inteligências artificiais que interferirão sobre "o real" manipulando e articulando as ações de Case e seu grupo movendo-os de tal forma a manter-lhes na ignorância de um todo [aliás, isso é bastante natural numa obra que em oportunidades aponta para seus princípios na gestalt] que só revelar-se-á ao final do romance com a reflexão sempre presente a respeito das tecnologias de A.I deixando ao final a pergunta de "enfim, quem controla quem?";

7 - Mas o "cyber" é apenas um dos elementos, ainda há o "punk" e este provoca toda uma discussão filosófica de identidade e comportamento muito propícia aos anos oitenta e cujas marcas permaneceram entre nós até hoje tamanho impacto do movimento cultural punk, seja nas artes plásticas, na música ou na literatura;

8 - O elemento "punk" por sinal é o grande responsável pelo fascínio da imagem e da identidade desta obra. É este elemento que nos dá o ambiente e o protagonismo e faz-se a alma da narrativa, até porque provavelmente são princípios estéticos e filosóficos do movimento que constroem a capacidade de resistência e sobrevivência no mundo opressor e estranho criado por Gibson de tal forma que talvez outros grupos não tivessem capacidade de liderar tal protagonismo numa sociedade como a de Neuromancer;

9 - Além disso, o "punk" do romance nos leva para ação e para o mundo psicodélico que coloca em pauta o consumo de drogas, as modificações corporais parte eram presentes no cerne da ideologia "punk" como elemento de construção de identidade, de individualidade, contudo já no romance podemos antever algumas questões referentes a isto como processo comercial quem no livro já cria toda uma economia própria que não nos está distante também;

10 - Enfim, claro que nosso post aqui é insuficiente para tratar de todos os aspectos deste romance que a despeito de suas complexidades [estas aliás que o tornam tão importante], mais do que um clássico, Neuromancer é uma leitura presente e necessária que não foi superado pelo avanço do tempo, mas sim partilhado de tal forma que suas discussões ainda nos são relevantes, principalmente porque para além da ação e da "aventura narrativa", das "previsões futurísticas", ele não se esgota porque justamente penetra nas filosofias e ideologias humanas, estas sim, sem qualquer prazo de validade e que mesmo quando superadas ainda permanecem em nosso DNA como um registro coletivo e histórico de nossa existência.



Um comentário:

  1. Comprei esse livro para o meu filho, esse mês, e estou muito curiosa para ler também. Muito bom poder ler sua resenha! Está ótima! Obrigada,
    Abração,
    Drica.

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