terça-feira, 30 de maio de 2017

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10 Considerações sobre A Garota-Corvo, de Erik Axl Sun ou como nascem os monstros

O Blog Listas Literárias leu A Garota-Corvo, de Erik Axl Sun pseudônimo de dois autores, Jerker Eriksson e Håkan Axlander Sundquist publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Sombrio e terrificante, A Garota-Corvo é a afirmação do suspense sueco numa obra que propõe uma discussão quanto aos limites dos gênero policial, visto que sua trama não segue aquele formato padrão do gênero e por isso mesmo abre caminho para seu desfecho sinistramente possível e tão sombrio quanto toda narrativa;

2 - Na obra temos uma série de crimes, uns cujas ligações são imediatas e outros que vão comunicando-se de acordo com o avançar da narrativa e a formação de um elo macabro a unir seus personagens, principalmente no campo das vítimas, enquanto a policial Jeanette, essencialmente humana nos diversos conceitos que se pode atribuí-la busca desvendar uma série de assassinatos enquanto tem de lidar com problemas mundanos como sua complicada relação familiar e seu casamento em ruínas;

3 - Entretanto, cheia de problemas e diante de crimes horrendos a dedicação e o senso ideológico da policial vai prevalecer diante os horrores que lhe surgirão à frente, contudo deixando-se claro que no caso do romance, menos pela ação da detetive e mais pelo próprio avanço do tempo e do andar dos personagens é que as coisas vão se tornando claras aos leitores;

4 - Dizer isso é importante porque a grande investigação na obra se dá pela narrativa em terceira pessoa que acompanha diversos personagens, inclusive aqueles bastantes suspeitos por centrarem a culpa fundamental na obra, embora o mais sombrio do livro seja que justamente não haverá um criminoso apenas, mas um conjunto de culpados a formar uma teia interligada de horrores;

5 - Além disso, por envolver uma profundidade psicológica grande, o romance ainda se mostrará aos leitores bastante enevoado e dissimulado a ponto de mergulharmos nas confusões mentais de determinados personagens que nos carregam numa direção, ainda que não totalmente contrária ao que pensávamos a  princípio, mas que são eficientes ao nos jogar em falsas (mas nem tantas) direções. E não poderia ser diferente porque justamente a obra nos trás um verdadeiro tutorial de formação de monstruosidades e aberrações que fogem da normalidade social de tal modo que no livro chega ao seu ápice em cenas de revoltar as entranhas;

6 - No entanto, não são apenas as cenas de ápice policial que perturbarão seus leitores. O livro traz para suas páginas toda a perversidade humana ao falar da pedofilia de tal forma que nos espantamos da mesma forma que os policiais da narrativa; Além disso, no romance ainda que a pedofilia concentre o foco das discussões ela além da própria perversidade já inerente, surge também como resultado de outras anomalias humanas perpassando um determinado período histórico de tal forma que são várias as formas como no romance se reproduzem seus principais monstros, que não são poucos não;

7 -  Por esses motivos é que coloco que a obra é um tanto singular na narrativa policial e ainda que tenhamos uma detetive e assassinatos em série, a questão aqui vai além porque não estamos simplesmente acompanhando uma investigação policial como geralmente neste tipo de literatura, mas sim um recorte particularmente tenebroso de reflexões da humanidade em sua pior apresentação que por isso mesmo encerra-se diferentemente doutras obras policiais não existindo aqui o final do inquérito, mas sim um ponto fechado na jornada interligada de muitos de seus personagens que não surge como solução, mas sim um marco,  além disso, um marco que mesmo aquele detentor da "maior" vilania mesmo no final alcança sua vitória pessoal;

8 - Aliás, em A Garota-Corvo há um forte contraste em "os mocinhos" e os vilões, sendo que os primeiros demonstram mesmo certa ingenuidade enquanto os outros são bem mais complexos e muitos. Além disso a própria vilania aqui é colocada sob perspectiva e tudo assustadoramente vai tornando-se relativo sem que se possa cravar aquele tipo de argumentação "oito" ou "oitenta" de tal modo que se pudéssemos indiciar alguém, este poderia ser "a sociedade humana";

9 - Portanto esta é uma obra que afirma a literatura escandinava no campo do suspense e mais do que isso, nos deixa ainda mais curiosos sobre o que pode haver por trás da máscara de paraíso que temos desses países que ultimamente são responsáveis por nos trazer as facetas mais perturbadoras da humanidade;

10 - Enfim, A Garota-Corvo mesmo que te exija fôlego para acompanhar tal nível de perversão e atrocidade é uma leitura necessária capaz de agradar não só os fãs da literatura policial, mas também todo e qualquer leitor que não tenha medo de mergulhar numa história de podridão, máscaras e principalmente de sobreviventes do inferno, que se ora o reproduzem, ora também procuram tentar salvar um mínimo de sanidade.




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