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10 Considerações sobre Ninfeias Negras, de Michel Bussi ou porque todo mundo tem anjo da guarda

O Blog Listas Literárias leu Ninfeias Negras, de Michel Bussi publicado pela editora Arqueiro; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Ninfeias Negras é parada obrigatória para todo amante da literatura policial, e ainda que o romance tenha suas peculiaridades e as impressões digitais de Michel Bussi, é um ótimo exemplar do gênero capaz de instigar o suspense e enredar o leitor numa trama engenhosa e mesmo surpreendente que inclusive testará os limites da literatura policial com um desfecho eletrizante, mas pouco usual nos romances policiais, o que só agrega à sua originalidade;

2 - Assim como em O Voo da Libélula vemos as nítidas e confessadas influências de Agatha Christie nas obras de Michel Bussi, sendo que nesse Ninfeias Negras, mesmo que a lembrança narrativa cite Assassinato no Expresso Oriente (citação aliás que virá a ser descabida diante o desfecho final e suas revelações) é ao clássico da Dama do Crime, E Não Sobrou Nenhum (Ou O Caso dos Dez Negrinhos/Soldadinhos) que o leitor se remeterá, em parte pelo prólogo aritmético, sem dúvida alguma, excepcional (e bastante revelador depois que descobrimos tudo), mas também pelo fato da tensão diante novas e certas mortes a acontecer num ambiente reduzido envolto por segredos e mentiras;

3 - Para tanto, temos o acontecimento de um crime misterioso investigado por dois policiais obstinados em meio a uma comunidade silenciosa, Giverny, que vive à sombra de seu habitante mais famoso, Claude Monet, cujo "legado" parece estar por toda parte com sua não-presença opressora a delinear todos os passos do lugar, bem como complicar e embaralhar as cartas de uma investigação truncada e cheia de pontas soltas mas repletas de convergências que aparentemente não fazem sentido algum;

4 - Aliás, vale dizer que o pano de fundo a construir esta nova narrativa de crime nos conduz por uma paisagem bucólica carregada de certa tensão, como se tudo tivesse sido congelado por Monet em suas famosas Ninfeias. Do mesmo modo, é também a narrativa um mergulho na arte impressionista e a incursão por uma França ainda mítica;

5 - Contudo, é obviamente um romance policial, e em sua melhor estirpe, mesmo com suas pequenas digressões ao gênero, estamos diante de um assassinato, uma investigação e uma evolução gradual do suspense e das revelações dosadas de tal modo que somos fisgados de forma eletrizante que literalmente ao final do livro perdemos o fôlego diante da precipitação, ou melhor dizendo a culminação dos eventos anunciados que vão sendo descortinados em meio a uma névoa de verdade;

6 -   Todavia, como disse, não é um romance policial comum, pois há um detalhe, e o segredo do universo está nos detalhes, por isso é justamente este detalhe incrustado na estrutura da narrativa que a torna uma narrativa policial e que certamente quase que impossibilita ao leitor acertar suas especulações detetivescas, pois há um pequeno truque (talvez nuance) que de modo como somos envolvidos pela questão investigativa, é natural que a estrutura nos passe despercebida, porque de certa forma estamos acostumados com certa linearidade, e mais não posso falar sob o risco de sofrer as consequências;

7 - Mas por justamente existir tal questão estrutural, que quando descoberta passa nos falar mais da obra, o romance provoca os limites do gênero, ficando numa fronteira que quase foge ao clássico da literatura policial, mas que contudo, atentamente ao fim de tudo preserva-se justamente onde está, a literatura policial, mas uma literatura policial alicerçada com suas principais referências, mas capaz de apresentar opções interessantes;

8 - Além disso, o romance mostra claramente que Michel Bussi consegue conquistar uma voz própria no gênero, a qual podemos ver tanto em Ninfeias quanto em O Voo da Libélula, em ambos os romances com certo destaque ao tempo em suas narrativas, às imagens, mas especialmente a vozes narradoras que escapam do tradicional detetive, de um testemunha ou então simplesmente de uma terceira pessoa pouco intrusiva. Os narradores de Bussi não se enquadram claramente nestes tipos ainda que também não fujam deles completamente, mas são algo muito peculiar de suas características;

9 - No mais, para além do já falado, cumpre dizer que no restante temos na obra algo presente em quase toda a narrativa de crime, o sucumbir humano diante das obsessões e desejos da vida, os olhares um tanto senil sobre aquilo que pensamos ser o certo, e no fundo trata-se de um drama das pequenas coisas cotidianas, mas universais e menos das grandes conspirações e paranoias conspiratórias;

10 - Enfim, Ninfeias Negras está entre os grandes do gênero, intenso, vibrante, e por que não, impressionista como o pano de fundo cujas cores embalam essa narrativa eletrizante que acima de tudo vai te surpreender com seu desfecho inesperado, todos estes fatores capazes de superar pequenas incongruências ou lacunas que ficam pairando como pluma numa Giverny aprisionada pelos pinceis de Monet.



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