quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

10 Considerações sobre Como Se Estivéssemos Em Palimpsesto de Putas, de Elvira Vigna, porque tem dessas coisas, sabe.

O Blog Listas Literárias leu Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, de Elvira Vigna, publicado pela editora Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobe o livro, confira:

1 - Constantemente leitores perguntam-se as diferenças entre aquilo que é tido como literatura (ou alta literatura) ou mero entretenimento, literatura comercial, e por aí vai. Ler Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas te dará um ótimo exemplo do que de fato podemos convencionar como literatura, numa obra em que linguagem e narrativa se coadunam numa literatura raramente vista sendo capaz de ressignificar com sua prosa lindamente escamoteada e sonora uma série de questões da natureza que tão somente uma escritora de enorme talento poderia proceder tal leitura da mundo;

2 - Neste romance, os elementos literários saltam desde sua narradora, uma voz que constrói seu próprio olhar a partir de uma pequena e densa teia de relacionamentos com compromisso literário assumido pela estética da antítese em que mescla fatos e suas próprias percepções do que foi ou do que pode ter sido, para jogar o leitor numa névoa de acontecimentos que a cada página ampliará a sensação de estar diante de um palimpsesto apagado muitas e muitas vezes, mas ainda assim com uma gigantesca e surpreendente carga de revelações;

3 - Com isso, a obra através deste olhar único, quiçá um dos mais elevantes da literatura atual, penetra com grande profundidade aspectos humanos que vão da sexualidade, os desejos, da fuga daquilo que se é, da própria competição masculina, as pressões sociais para que todos cumpram seus papeis determinados, além é claro, da carga pesada e dramática da ausência e da invisibilidade que no romance está presente o tempo todo;

4 - Para tanto, para se chegar ao âmago das reflexões propostas, Elvira Vigna estabelece um micromundo com personagens reduzidos mas cujas histórias são um mundo vasto de contradições e medos, em que a partir dessa ressignificação pelo olhar de uma narrador que em determinado momento passa a recordar e mesmo remontar suas lembranças com João, Lola e as Putas;

5 - Putas estas que surgem mais do que mero palimpsesto, mas sim, também como fuga, visto que o distanciamento que se dá dessa postura de João, a forma de como ele (ou a narradora) trata de sua relação com as garotas de programas, algo muito similar ao drogado que busca no pó uma porta de escape, de salvação, é como João enfrenta as putas, uma rotina obrigatória, mecânica, em parte por sua representação de personagem numa sociedade de papeis definidos;

6 - Então, quando a narradora, que aliás, divide o apartamento com uma garota de programa, reconstrói suas experiências e diálogos com João, e toca Lola, a ausência sempre presente, ao leitor já cabe a desconfiança de grandes revelações, de desencaixes que terão de ser encaixados ao ritmo de uma prosa firme, impactante, mas sem perder a musicalidade, tampouco os compromissos estéticos que transformam o texto em literatura;

7 - E aqui passamos a falar então da linguagem magistral com que Elvira compõe o romance. É uma espécie de negação-afirmativa que estrutura a obra de tal modo que mesmo quando a narradora pretende afirmar algo, cravar uma posição, ela se vale da negação, tanto é que as palavras mais numerosas do romance são advérbios de negação, como nem, nunca e especialmente o não (eu não os contei e lá estão enlaçados para futuras pesquisa e devem aproximar-se dos mil), impossível de passar despercebido pelo leitor, que mesmo numa prosa de orações curtas e ritmadas muitas vezes é freado pela quantidade de nãos;

8 - E aí reside, a meu ver, obviamente, a natureza antitética do romance que a cada negação saltam as afirmações, os não ditos, os segredos, construindo desta forma uma espécie de narrativa pelo negativo, e justamente pela natureza dialética de tal escolha, as reflexões abundam e se aprofundam de tal maneira que suas metáforas, analogias e mesmo afirmações são golpes pensados e estruturados a impactar seus leitores diante da certeza de uma obra diferenciada;

9 - Além disso, a narrativa é pungente e a despeito das imprecisões calculadas é composta por uma métrica de expectativas audaciosas. Do mesmo modo, e sem perder a oportunidade, essa negação-afirmativa já citada é ainda representada pelo caráter da ausência, foco inclusive explicitado no romance, mas que também funciona como os advérbios de negação do romance visto que a ausência tão mencionada, tão anunciada, numa clara antítese, surge como uma presença, e não apenas uma presença, um incômodo, e talvez seja o que Lola represente no romance, o elo das não realizações, o símbolos das frustrações, a que nunca é levada em consideração, logo ela, que ao desfecho trará todos estes rancores à tona;

10 - Enfim, geralmente no Brasil há uma discussão muito forte dividindo literatura de mercado e a literatura propriamente dita, uma discussão que Elvira Vigna com Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas joga álcool em fogaréu, pois este é um romance que claramente está acima mesmo daquilo que já reconhecemos como literatura. Uma obra impecável e pertencente imediata ao hall das grandes e principais obras do conjunto da nossa literatura nacional.



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