segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

10 Considerações sobre O Império do Oprimido, de Guilherme Fiuza ou porque alegorias são perigosas

O Blog Listas Literárias leu O Império do Oprimido, de Guilherme Fiuza publicado pela editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – O Império do Oprimido é uma leitura dotada para a polêmica, especialmente por mexer num grande vespeiro que é a política nos dias de hoje, contudo a despeito de qualquer convicção ou ideal, acredito que independente das intenções do autor, o trabalho peca por uma série de fragilidades, entre elas, a falta de coragem de assumir um uma posição ainda que ao leitor mais atento, não consegue o autor confirmar-se assim tão isento em seu olhar (até porque não acreditamos em isenção);

2 – Em sua trama o romance busca estabelecer seu olhar para sobre a chegada da esquerda do país ao poder, entretanto tal olhar constrói-se de forma distanciada e com pouca seriedade na forma pela qual arquiteta-se a trama que é permeada de muito “senso comum” e uma porção de alienação perigosa que acaba infantilizando uma discussão que se feita de forma mais séria poderia ter construído uma obra interessante;

3 – A meu ver o problema do projeto surge em sua concepção, pois montado a partir de alegorias ao primeiro mandato de Lula o romance de Fiuza não é nem uma nem outra coisa, pois sua ficção é incapaz de revelar-se independente da realidade e vice-versa o que tira qualquer identidade e seriedade de uma discussão mais profunda;

4 – Além disso, ao falarmos deste montagem alegórica é essencial dizer que são alegorias de extrema pobreza, algo como se o autor tivesse pego um bocado de notícias imparciais da televisão e estruturado através de seus personagens que também possuem seus pecados porque a alegoria é ineficiente em reconstruir o real ao mesmo tempo que não consegue manter-se como peça única deixando no leitor sensações estranhas porque acima de tudo há pouco poder de convencimento do livro sobre nossa leitura;

5 – E para enfatizar a percepção de pobreza das alegorias presentes no livro, é lógico que sem qualquer dificuldade reconhecemos as figuras reais nas figuras fictícias e de nomes muitas vezes estrambóticos na obra de Fiuza. Por conseguinte, não bastasse mostrarem-se as alegorias, em muitos , casos elas flertam com o perigo de algo conhecido como plágio, pois vejamos, há no romance de Fiuza um deputado de esquerda de nome Fraga do qual não deixamos de lembrar o personagem de Tropa de Elite. No mesmo sentido temos no romance até mesmo uma Revista Milênio onde são publicadas denúncias contra o governo, e, ainda que percebamos a distância dos originais, as menções nos evocam tais obras, entre outras coisas presentes no romance;

6 – E aqui abrindo-se um parênteses: em crítica mais forte e visto que nestes tempos de opiniões tão divergentes, não há sobre esta avaliação a mácula ideológica pois a literatura está aí para trazer os mais diferentes pontos de vistas existentes, entretanto a este leitor, independente da crítica ideológica, ela precisa ser feita com qualidade e profundidade, se desta forma nos surgem obras como 1984, de outra forma, o que me parece O Império do Oprimido, ainda que com a presença de denúncias pertinentes, estas perdem-se na fragilidade literária de sua narrativa;

7 – E até realmente parece o caso deste romance, que de alguma forma aponta sim para as incongruências de ambos posicionamentos ideológicos no país, mas em especial na esquerda e sua chegada do poder, porém o exagero caricato destas incongruências retira do trabalho boa parte de seu valor pois acaba soando como conversa de botequim ou posts de redes sociais, ou seja, uma discussão superficial e sem profundidade, o que acaba prejudicando até mesmo as qualidades da obra;

8 – Da mesma forma, tais problemas convergem para uma forte quebra da verossimilhança da narrativa, e exceto por um leitor iniciante ou então alguém mais alienado, tanto os personagens como algumas situações (pois algumas são sim muito críveis) soarão inverossímeis e de difícil contrato de recepção entre leitor e obra;

9 – Contudo, não duvido de que a obra encontre muitos leitores, visto que caso seja adentrada sob mero viés de entretenimento sem grandes compromissos será uma leitura com certa ação e texto rápido, e desde que não se tente levá-la a sério é uma leitura que algum dia poder-se-á lembrá-la com alguns risos;

10 – Enfim, parece-me infeliz a tentativa de representar “a vida política no país no século 21 desvendando a alquimia que transforma piedade em poder” pois o autor mascara suas próprias convicções jogando sobre o leitor uma série de alegorias muito pobres e numa narrativa superficial que não condiz com a seriedade do momento do Brasil.



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