10 Considerações sobre Os irmãos Karamazóv ou vinde a mim as criancinhas...

O Blog Listas Literárias leu Os irmãos Karamazóv, de Fiódor Dostoiévski publicado pela Martin Claret. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre este calhamaço da literatura mundial, uma narrativa indispensável e que se encerra com uma imagem misteriosa que evoca ao chamado "vinde a mim as criancinhas".... confira:


1 - Antes de mais nada, há tempos uma narrativa não me desafiava tanto em seu decorrer. Não só o fato de ser um desses tijolões que chamamos de calhamaço, mas o momento da leitura, sua própria complexidade, entre outros fatores que tomaram um tempo maior para a leitura, especialmente seu miolo. Tudo isso porque trata-se justamente de uma narrativa a miúde, compostas de tantas camadas e subcamadas que muitas vezes demanda que seus leitores estejam concentrados nas nuances de uma linguagem, como natural à literatura russa, em que o implícito é predominante, quando geralmente as comunicações não são marcadas pela clareza, mas sim pelos não-ditos que ressoam em ambiguidades. Tudo isso é um desafio que nos obriga a concentrar-nos e, especialmente no miolo da obra, são ainda mais desafiadores enquanto nos preparam para o desfecho, este de modo mais eletrizante, quando o julgamento de Mítia Karamázov nos entrega uma das mais instigante - se não a melhor de todas - peças jurídicas da literatura mundial. Voltaremos a esse julgamento no decorrer desta resenha, contudo, sigamos...

2 - Os irmãos Karamazóv, de Fiódor Dostoiévski é o clássico livro do autor em que esta disfuncional família apresenta-se como uma metáfora da própria Rússia. Em síntese, a narrativa apresenta-se enquanto biografia do filho mais jovem, Aliocha, e girando em seu redor seus outros dois irmãos, Mítia e Ivan Karamazóv, cada um deles de índoles e ideologias distintas unidos pelo sangue Karamazóv, que te todo tinha a força de reunir elementos comuns, a despeito de suas diferenças. Todos esses irmãos "marcados à ferro" pela conduta de um pai, uma das mais contraditórias e vis criaturas da literatura, Fiódor Pávlovitch Karamázov - quiçá imagem de uma velha Rússia para suas novas gerações -, um patriarca cuja acepção do termo será questionada, enfim, tudo se dá a partir da relação destes três filhos como o intragável homem que é seu pai;

3 - E é justamente o assassinato deste tenebroso pai, seria um parricídio, portanto?, ao qual gira toda a narração da obra. Uma narração que se dá por meio de um narrador em embora em terceira pessoa, uma testemunha dos fatos que agitaram a pequena cidade e que para lá levaram todas as atenções da Rússia. É de certo modo um exercício de memória, já que a narração dá-se treze anos após os terríveis acontecimentos. Assim, o romance é um exercício de reconstituir aqueles dias a partir do que seria ao narrador (autodenominado autor no prefácio) seu herói, ou seja, o filho mais jovem Alexei Fiódorovitch Karamázov, Aliocha, do qual é - ou supostamente é - a biografia do romance;

4 - Aliocha, o mais jovem e entre os Karamázov o mais centrado - e também o mais amado - não apenas pelo pai, mas pelo narrador que lhe é extremamente simpático, pelos moradores, enfim... nele está o Karamázov que recebe afeto, em grande parte por ser o mais lúcido, o que segue o caminho religioso - mas cujos próprios desígnios da religião o devolvem a uma vida em sociedade. Aliocha é uma espécie de balança de equilíbrio entre os outro irmãos, o pai, e ainda o ponto de equilíbrio entre outras situações acessórias, caso da trama paralela que ocorre com o jovem Iliúcha e outras crianças; Entretanto, o próprio status de Aliocha enquanto herói deste romance nos é algo no mínimo, questionável. Ele logicamente funciona como elemento de ligação de tudos e todos, entretanto, fora sua postura ética e moral, a fibra ou a crença com que enfrenta as coisas, de certa forma, não nos parece que seja ele o pilar central a sustentar toda a narrativa. Sem o assassinato de Fiódor e sem seus outros dois filhos, especialmente o caso de Mítia, sem esses dois - a bem da verdade, não haveria romance sem Mítia -, desconfiamos que a trajetória de Aliocha não a ninguém. Tanto que, sua biografia, a bem da verdade, a despeito de circular no entorno do evento, pelo visto nada de mais interessante lhe ocorreu no interstício dos treze anos entre o narrar do romance e o acaontecimento que abalou a sociedade russa cujo ápice é o julgamento de Mítia;

5 - Mas antes de irmos ao irmão mais velho e implicado na morte do pai, temos o circunspecto e tenebroso Ivan Karamazóv, o irmão do meio no qual centra-se questões como culpa e ardis tão sutis que este paira em uma ambiguidade etérea que se torna ainda mais interessante quando seu suposto encontro com o Diabo. Entre os irmãos, Ivan é um homem frio, menos explosivo que Mítia, mas extremamente perigoso. Nele centra-se o debate sobre a existência ou não de Deus. Ivan, tal como Mítia, possui atritos com o pai e não menos que ele, deseja a morte do velho. É por Ivan que se manifesta de forma mais incisiva a linguagem do desvio, das coisas não ditas às claras, cujas intenções se deixam ao ar. Como clássicos não têm spoilers, Ivan estará fortemente implicado no assassinato do pai. Logicamente tudo de forma ambígua. Sua participação não é efetivamente clara, já que Smerdiakov, um lacaio da família e possível filho bastardo de Fiódor Pávlovitch, é o real assassino, o faz no campo da sugestão - e do sugestivo. Ivan, em tese, tenta colaborar com o irmão no decorrer do julgamento, entretanto, seu estado é deplorável, em grande parte, por supostamente ter sido tomado pela culpa - o que, também pode ser questionável - e especialmente após uma visita do demônio, ter sua mente fritada. Aqui, inclusive, um aspecto interessante, o fato de que embora o narrador esteja treze anos a frente do julgamento e dos meses posteriores, o mesmo nada trará sobre os herois desta biografia, tudo é colocado a disposição do imaginário dos leitores. Mas enfim, Ivan é emblemático e assim como Mítia tinha lá seus motivos para querer a morte do velho;

6 - Por fim, aquele que a nosso ver é o verdadeiro herói desta biografia - a despeito da escolha do narrador. Tudo passa pelo filho mais velho, Mítia. Fruto de um dos casamentos do pai, Mítia foi a vida inteira abandonado por Fiódor Pávlovitch. Um escorraçado do qual o pai, inclusive, aparentemente surrupiara a própria herança. Uma figura contraditória, Mítia, ao melhor dos signos dos Karamázov. Explosivo, passional, uma bomba sempre prestes a explodir, mas interessantemente profundo e complexo, ao passo de recordar com gratidão os poucos e simples sinais de afeto que recebera. Tudo gira na disputa de Mítia com o pai. Com uma vida dada a dispêndios e experiências radicais no viver com "liberdade", em determinado momento, ele decide questionar seus próprios direitos filiares, especialmente o relacinado a uma suposta diferença monetária na herança de sua mãe. É toda esta questão e o viver intenso - e incômodo ao corpus social - de Mítia que estabelecem as bases as quais ele será julgado. Tanto seus próceres comunitários quanto os leitores vão sendo apresentados a uma existência ambivalente, intensa e passional. Tudo que leva-o ao banco dos réus, com atitudes que pouco contribuem para sua situação, como as atitudes que toma enquanto ébrio;

7 - E aqui está o detalhe que nos leva a ver Mítia muito mais o herói da biografia que propriamente Aliocha. Toda a narração tão somente existe em virtude dos fatos ocorridos naquele evento trágico que é a morte de Fiódor e especialmente o julgamento de tal crime. O crime e o julgamento constituem a essência da narração, é por eles que tal narrativa se dá. Justamente por isso, Mítia é ponto central e de maior importância que os irmãos para a narrativa. É preciso trazer todo seu passado, trazer os momentos emblemáticos de sua vida que serão retomados na parte mais interessante da obra, o julgamento. O livro existe pela existência do parricídio e pelo julgamento deste, de modo que o réu, ou seja, Mítia, é a grande figura a ser analisada, a despeito da popularidade de Aliocha. Em grande medida tudo se dá por causa do julgamento de Mítia, pelas ações que o levaram até ali. Sem Mítia, a narrativa não existiria;

8 - Tanto que ele, na busca de Dostoiévski pelo Hamlet russo, ainda estará ao centro da intrincada teia amorosa que complica ainda mais a questão. Sua relação com  Katerina Ivánovna rompida em virtude de sua avassaladora paixão pela "promíscua" Gruchenka e o flerte de disputa da garota com o próprio pai estabelecem as bases de uma tragédia inevitável. É fácil suspeitar de Mítia, não só pelas suas próprias palavras, como por toda a situação. Tudo recai sobre ele, assassino, assassino. Muito fácil apontar-lhe os dedos. Em grande medida Os irmãos Karamázov trata de um julgamento. O julgamento é sua essência. Um julgamento cujas as bases a narrativa estabelece a partir de um longo recorrer à memória feito pelo narrador que antes de trazer o famoso julgamento, apresenta-nos de forma longa e detalhada. Aliás, vale aqui um breve parenteses de que o narrador, embora uma testemunha dos acontecimentos sociais que rememora apresenta uma discutível onisciência permitida pela capacidade de que apenas a literatura tem em preencher as lacunas daquilo que não temos acesso;

9 - Dito isso, voltamos ao evento que a nosso ver é o grande momento do livro: o julgamento de Mítia. A reconstrução desse julgamento é notável, não só enquanto peça jurídica. Aqui o narrador se mostra em seu melhor, inclusive, narrando de forma literária o que poderia ser técnico. Aliás, o julgamento é uma das demonstrações que aproximam a literatura e o direito. A literatura geralmente adentra aos longos circunlóquios do direito tanto quanto em estética, mas também como influência. A habilidade com que  narrador descreve as cenas em sua atmosfera cambiante é algo de sensacional. Sua possível adesão à tese da defesa, inclusive, torna tudo ainda mais poético, a despeito de falarmos em prosa. Mais do que isso, sem a necessidade de ser panfletário, a própria ambivalência do direito e da justiça é posta em debate a partir de como o narrador nos traz o julgamento de Mítia. Um julgamento que como o dissemos também o é, enquanto alegoria, da própria sociedade russa. O capítulo do jugalmento é um dos grandes momentos em que a literatura apresenta-se em suas formas magistrais;

10 - Enfim, logicamente pe possível que tenhamos deixado passar muita coisa desta obra fantástica. Trata-se de um romance de profundas e múltiplas camadas que abordá-las todas em um único post de blog por certo é inviável. Por isso trazemos aqui alguns dos aspectos que gostaríamos de abordar inicialmente, trazer daquilo que mais nos imprimiu efeitos, mas o que de modo algum encerra possibilidades de interpretação. É uma narrativa que nos penetra, uma narrativa que tenta compreender e propor diferentes olhares aos comporamentos humanos em sociedade. Uma leitura essencial, mas isso é chover no molhado. Simplesmente, leia-o.

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