10 Considerações sobre A ilha perdida, de Maria José Dupré ou sobrou para as capivaras

O blog Listas Literárias [re] leu A ilha perdida, de Maria José Dupré publicado pela editora Ática em sua tradicional coleção Vaga-Lume. Confira neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro e descubra por que sobrou para as capivaras:

1 - Antes de mais nada é preciso dizer que esta leitura é um tanto diferente das demais já feitas aqui no blog, geralmente primeiras leituras e contato com a obra lida. Neste caso específico realizamos uma releitura de uma obra infantojuvenil marcante em minha adolescência leitora e a premissa era menos um regresso nostálgico, mas sim os impactos e ressonâncias de uma nova leitura realizada 30 anos depois do primeiro contato. Trato em vídeo esta questão, aqui, nos dedicaremos apenas à análise da obra, mas que, logicamente, é uma leitura um tanto distinta daquela feita pela primeira vez;

2 - Dito isso, A ilha perdida, de Maria José Dupré é nada menos que a obra mais vendida da clássica Coleção Vaga-Lume e a primeira obra a ser publicada pela coleção em 1973. Entretanto, como nas primeiras publicações da coleção a prática era republicar obras anteriores, o romance infantojuvenil data de 1944, ano de sua primeira publicação pela editora Brasiliense. Isso, aliás, ao leitor de hoje é fator considerável pois que seja na ambientação, na caracterização ou mesmo no contexto em que se passa, é inevitável dizer que trata-se de um mundo um tanto quanto estranho aos tempos contemporâneos, porém, que de modo algum inviabiliza novas leituras;

3 - Toda a ação da narrativa está centrada nos irmãos Henrique e Eduardo que exemplificam algo comum ao período: os jovens adolescentes da cidade grande que nas férias regressam ao interior na casa de um parente ou de algum padrinho, como é o caso desta narrativa. Os dois vão passar as férias na casa do padrinho - não nomeado -, na verdade uma fazenda um tanto extensa cortada pelo rio Paraíba. Justamente no meio deste rio há uma espécie de ilha cercada de curiosidades e mistérios e pouco visitada. Tudo isso, logicamente, surge como combustível ao estímulo de descumprimento de regras por jovens adolescentes - nesse caso bastante tolerada pela classe social - que resolvem mentir ao padrinho e bolar uma expedição não-autorizada à ilha;

4 - Como não podia deixar de ser, a aventura não sai como planejada e uma enchente - algo comum aos ribeirinhos - complica a situação (aliás, vale esse parentêses porque a descrição da enchente, o avanço das águas e o que ela arrasta junto talvez seja o momento mais pesado de toda a narrativa), pois os garotos ficam isolados e perdidos naquela ilha carregada de mistérios a partir das lendas que circulavam sobre o lugar;

5 - Aqui, na verdade a referência é bastante direta, pois a aventura bebe em muito na clássica literatura de aventura de Robinson Crusoé. Os perigos estão muito mais relacionados às questões de sobrevivência em meio a uma natureza ainda um tanto quanto primitiva. E não fechando o capítulo de influências talvez o mais interessante seja dizer que em A ilha perdida é quando Robinson Crusoé se encontra com Tarzan justamente pela aparição do personagem mais enigmático e não menos problemático da narrativa, o ermitão Simão, um homem barbudo que desde os 20 anos de idade decidiu viver isoladamente naquela ilha em um relacionamento mutualista com os animais - expresso especialmente pela telegrafia, indispensável à rede de espionagem animal que Simão constrói - em uma convivência harmoniosa entre homem e natureza em uma espécie de utopia ecológica. Menos para as capivaras, obviamente, porque apenas elas no reino animal - e os peixes - serviam à alimentação e fornecimento de energia à caverna de Simão;

6 - Rude e controlador Simão é um personagem um tanto paradoxal, porque a bem da verdade, tecnicamente é um sequestrador, já que rapta Henrique para sua caverna e em determinado momento insinua a busca por uma presença humana. Vivendo há anos entre os animais, Simão no melhor estilo Tarzan se comunica com eles e curiosamente não deixa de exercer o papel de um líder dessa pequena ecotopia. Um líder cuja hierarquia é perceptível já que Simão manda, não pede. O mesmo se dá quando leva Henrique para sua caverna. O rapto é importante para o desenvolvimento da narrativa no que se refere a apresentar aquele local, a vivência harmoniosa, etc. Há todo um sistema de vida no entorno de Simão que por vezes também faz as vezes de curandeiro da vida animal e às vezes se dá o inverso;

7 - Entretanto, a relação de Simão e Henrique se dá sob signos um tanto ambíguos e cremos que possa ter relação com o próprio contexto. Trata-se inequivacadamente de um sequestro, Simão é um sequestrador que aprisiona Henrique sob sua tutela. O jovem, inclusive tenta embrenhar fuga, mas é impedido pelos animais lacaios a Simão (o uso de macacos pode trazer aspectos semióticos de importância a se estudar de forma crítica). Nos dias que vai passsando junto ao homem na caverna, Henrique, mesmo impedido de voltar à prainha e tentar reencontrar o irmão Eduardo, estabelece de certo modo espécie de Síndrome de Estocolmo, desenvolvendo grande admiração pelo raptor que permanece até o fim, quem sabe gratidão pela decisão de libertá-lo;

8 - Contudo é essa problemática relação, a existência de um raptor e um raptado, que viabiliza a apresentação do espaço ecotópico que se torna a ilha, pois é a partir da convivência com Simão que Henrique passa a conhecer todos os animais e a convivência entre eles na ilha. Dentre as diferentes mensagens pedagógicas presentes no livro a de não se maltratar os animais, pedido feito por Simão a Henrique. Mas novamente vale destacar aqui uma coisa: espécie de utopia ecológica, como natural das utopias, há quem seja deixado de fora e isso dá ruim para os excluídos das utopias, caso neste romance das capivaras, únicos seres utilizidades por Simão enquanto animalidades: carne e óleo para lamparina;

9 - Dito isso, e considerando o aspecto de releitura, o livro ao leitor maturado de tantas outras experiências desperta olhares que certamente não se dá ao primeiro contato, especialmente nos que fizeram contato há mais tempo. Marcações do contexto de época são inegáveis em suas estruturas socais. Além disso, há lacunas que muitas vezes ao leitor experiente não passam despercebidas, ou mesmo lógicas que são para lá de ambíguas, caso do capíulo No mundo da macacada, por exemplo. Isso ao leitor de hoje aparece como uma pulga atrás da orelha. Além disso, o fato de a obra se sustentar em dois únicos personagens de um pouco maior em profundidade e outros demasiadamente acessórios, também nos chama atenção;

10 - Mas enfim, A ilha perdida ocupa seu espaço no imaginário da literatura brasileira. Obra é das principais integrantes de uma coleção que despertou para a leitura milhões de brsaileiros e brasileiras e isso é um aspecto relevante. Além disso, embora superficial e com alguns elementos datados, a leitura em tempo presente ainda nos é viável, embora alguns aspectos possam soar estranhos mesmo aos jovens leitores de hoje. Ao leitor de maior experiência em suas leituras, contudo, diferentes implicações e olhares podem surgir aos elementos da narrativa, o que também pode ser visto de forma positiva, já que o romance ainda nos entrega coisas a debater e falar. Em suma, foi uma experiência curiosa realizar a releitura desta obra, uma releitura destituída de nostalgia e capaz de nos levar a olhares mais questionadores do que a primeira incursão pela ilha. Uma leitura contextualizada da obra ainda pode ser um tanto quanto interessante.

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