10 Considerações sobre Noite sem fim, de Agatha Christie ou por que este não é um romance policial

 O Blog Listas Literárias leu Noite sem fim, de Agatha Christie publicado pela L&PM. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, ou sobre a importância de prestar atenção aos mínimos detalhes em uma narrativa policialesca, confira:

1 - Na contracapa do livro traz-se a informação de que este seria um dos livros prediletos de Agatha Christie, um dado um tanto quanto interessante, pois que, ao se olhar com lupa, este romance difere dos demais da autora e afasta-se em muitos elementos da narrativa policial que a marcou como "a rainha do crima". Não que não haja crimes, não que não haja em seu interior elementos recorrentes à obra da autora, entretanto, em muitos aspectos não estamos falando aqui de narrativa policial [policialesca no máximo] já que alguns elementos caros às gramáticas do gênero romance policial não estão presentes;

2 - E não falamos aqui pelo fato de neste romance não termos a figura clássica dos detetives literários, tendo a autora contribuído com nomes gigantes como Hércule Poirot e Miss Marple. Na verdade, a narrativa aproxima-se muito mais da afirmação "sendo esta uma história de amor" feita pelo narrador, que diretamente de uma narrativa policial. A trama não é ela própria um investigação, algo característico do gênero, além de outros elementos fundamentais à literatura policial que são quebrados nesta narrativa que soa quase como uma antigramática das narrativas policiais;

3 - O romance é narrado em primeira pessoa por Michael Rogers que ao encontrar-se com Ellie, uma jovem herdeira norte-americana vê sua vida mudar radicalmente. Mike procura compreender as relações tensas da amada com a família, advogados e todo o entourage à sua volta. Sua origem simples, um complicador, além das conexões mistificadas com o espaço onde constroem sua casa. Um lugar supostamente amaldiçoado que desde o princípio confere ao romance uma atmosfera de mistério, mesmo que tudo se dê de forma um tanto monótona. Além disso, com Mike Rogers leva ao máximo a ambiguidade característica dos narradores em primeira pessoa e ainda das reconstruções das memórias;

4 - Aliás, importante dizer que o que segura o leitor até o fim é a provocação lançada ao final do primeiro capítulo, "Meu Deus, se eu soubesse o que me esperava..." É o índice marcador de que este narrador passou por alguma experiência relevante e trágica, algo inesperado a despeito sua vida simples e muito mundana, já que Mike é um inglês que vive de trabalho medíocres para o desencanto da própria mãe. Um sujeito comum que apresenta-se sem grandes ambições, alguém que vai aceitando com naturalidade até mesmo as mudanças que chegam com o novo relacionamento com a jovem Ellie;

5 - E aqui já temos uma questão: diferentemente de muitos outros livros de Agatha Christie, as primeiras páginas passam com certa monotonia. O livro parece despropositado, sem grandes emoções a não ser as insinuações futuras. Inclusive até então sequer temos um crime a se investigar, outra diferença da maioria das obras da autora que tem por tradição matar alguém nas primeiras páginas. É como se Agatha Christie nos quisesse dizer, eu posso fazer diferente...

6 - Esse ritmo lento e a presença do misticismo em que o narrador traz pouca afeição para com os ciganos naturalizando clichês sobre este povo, por um bom tempo mais nos faz lembrar de uma aventura de Scooby-Doo que necessariamente Agatha Christie. Junto a esta impressão soma-se certo ranço do leitor para com o narrador que parece-nos apático a tudo que lhe acontece e nisso está o jogo que Christie elabora com grande maestria;

7 - Entretanto, a ambiguidade também pode representar a relação do leitor com a leitor [ou ao menos desse leitor que vos escreve]. A agilidade dos capítulos, a ampliação das redes de intriga que vão se constituindo, o avanço do romance proibido entre Ellie e Mike não nos permitem largar a leitura, é uma história de amor, mas ao ritmo do thriller que quando vemos estamos totalmente cooptados pela narrativa, mas ainda em certo compasso de espera...

8 - É então apenas no último terço da narrativa que os acontecimentos se precipitam, quando apromessa de Mike ao final co capítulo começa a ser cumprida. Haveria mesmo uma maldição? Que desgraças ele sofreu? O ritmo desse terço final é alucinante e quando teremos a primeira morte do romance. Uma morte ao estilo clássico de Agatha Christie e só a partir desse momento os leitores têm em mãos uma investigação propriamente dita. Uma investigação triste, pois é preciso decifrar a morte de personagem estimada entre os leitores que precisa mirar sua lupa nos suspeitos;

9 - A solução infringe algumas regras da narrativa policial, ainda assim, há uma solução para os crimes. Inclusive não muita demora na solução, afinal, tudo se dá no último terço e nos últimos capítulos do romance. Não se pode negar que há alguma surpresa, mas isso, conforme a experiência do leitor. Leitores habituados à narrativa policial, chegam à revelação com boa dose de suspeita quanto à culpa do crime. Para estes leitores a solução é até previsível e alguns diálogos anteriores mais do que incriminadores. Aliás, quem compreende alguns jargões das investigações policiais matará a charada bem cedo, no que se der o crime;

10 - Enfim, Noite sem fim é uma narrativa ao mesmo tempo clássica e ao mesmo tempo disruptiva com as obras da autora. Há muita ambiguidade no processo e talvez por isso esta possa ser uma obra capaz de dividir opiniões entre seus leitores. Não pe propriamente uma narrativa policial, mas inegavelmente é uma obra com as digitais da autora, capaz de nos envolver desde as primeiras páginas e nos entregar finais surpreendentes e eletrizantes. Ou seja, Agatha Christie foi extremamente exitosa ao nos mostrar que mesmo escrevendo, de certo modo, de forma oposta do que sempre fez, ainda assim, não desgrudamos das páginas do livro.

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