10 Considerações sobre Eu devia estar sonhando, de Michel Bussi ou por que andorinhas sempre voltam para casa

O Blog Listas Literárias leu Eu devia estar sonhando, de Michel Bussi, publicado pela editora Arqueiro. Confira neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro e descubra por que as andorinhas sempre voltam para casa:

1 - Creio que antes de mais nada seja preciso dizer que chegamos a este livro depois de conhecer Ninfeias Negras e O voo da Libélula do autor, e isso faz-se necessário, justamente porque a nossa relação de leitura com suas obras trazia uma expectativa distinta da prática. Não que tenha sido uma má experiência, entretanto, neste Eu devia estar sonhando quase nada tem a ver com aqueles dois thrillers vertiginosos;

2 - Neste livro o que não temos, propriamente, é o thriller de ares policiais dos outros dois livros citados. Não que não tenhamos nuances do gênero, afinal, surgirá um mistério carregado de reviravoltas, mas são alusões breves ao gênero policial. já que o que se sobressai em Eu devia estar sonhando são as relações amorosas, a intimidade da privacidade das pessoas, as coisas que ficam guardadas em gavetas sob pactos de silêncio, de modo que, mesmo que haja certos ares de investigação - sem que a investigação propriamente exista -, o que prepondera nesta obra é o enredo romântico às voltas da comissária Kathy que vê o passado retornar de um modo um tanto abrupto à sua vida;

3 - A narrativa do livro intercambeia justamente estes dois tempos, o espaço de duas décadas, 1999 e 2019. Essa dupla jornada pelo tempo é instigada por estranhas coincidências que fazem Kathy regressar no tempo nas reminiscências de uma paixão avassaladora que leva-lhe a infidelidade em um casamento mais do que estável com seu esposo Olivier. Deste modo a narração vai intercalando na voz de primeira pessoa de Kathy ambas experiências, a de 1999 e a recente, quando as imagens do passado atiram-lhe ao medo e também ao risco, tudo isso enquanto viaja por diferentes continentes (tendo o tsunami na Indonésia como importante pano de fundo) entre o místico e a busca pela racionalidade;

4 - Ocorre que a narração flerta com acontecimentos fantásticos e a busca racional de Kathy para encontrar respostas para as improváveis coincidências que surgem, em boa parte do livro, dotadas de ares mágicos em meio à confusão mental que ela, no presente, com seus 53 anos, mergulha em pistas do passado para justamente tentar compreender seu presente tão estranho. Na verdade temos aqui o reviver da paixão intensa que lá trás quase acabou com seu casamento e sua família e a cada nova coincidência, aumentam os perigos, para ela e para seu amado Ylian, um músico provido de talento, mas desprovido de sucesso - e sorte;

5 -  Mas antes de prosseguirmos, a questão da narração precisa de alguns apontamentos. Dissemos que Kathy intercala com sua voz os dois tempos da narrativa, 1999 e 2019. Creio que esse detalhe é importante, porque, é preciso dizer que a narração de 1999 é de uma Kathy daquele presente, não a Kathy do futuro, contudo, em alguns capítulos, o leitor atento perceberá algumas confusões temporais com citações imprecisas de eventos. São poucos esses casos, mas perceptíveis. Outra questão é que Kathy predomina a narração, mas uns 5% do livro temos a narração por meio de outros pontos de vista. Particularmente não gostamos deste tipo de escolha, um narrador/a em primeira pessoa é logicamente limitado e cabe aos autores lidar com essa limitação, de modo que usar outros narradores em percentual tão pequeno da obra nos soa problemático enquanto escolha de estilo;

6 - Dito isso, voltamos ao enredo que leva a narrador Kathy buscar interligar as coincidências com os fatos do passado, o que leva-a necessariamente em busca desse amante do passado. Como dissemos, tudo está centrado no amor, mas a necessidade de compreender esses novos estranhos fatos, faz com que a Comissária, não só repita parte do roteiro de 1999, como precise quebrar uma promessa e tentar encontrar sua antiga paixão. Quanto mais essa busca avança e as lembranças incendeiam a narrativa é que então vamos tendo ares de algum ficção policial, como direito a sequestros, uma boa dose de ação - com explosões e tudo -, além, é claro, da revelação de um culpado;

7 - Aliás, diga-se, embora com tais contornos mágicos e as insinuações místicas, tudo é muito racional, como veremos no desfecho da obra. Na verdade temos os intrincados fios de um teia que se entrelaça, mas que ao fim, como de modo geral são as narrativas, conectam cada ponto atribuindo sentidos bem racionais, lógicos e alguns até mesmo surpreendentes;

8 - Vale destacar ainda que há um interessante peso da arte e da música na narrativa, inclusive, sendo a música elemento central na união de todos os pontos intrincados da teia que move a narrativa. A música adentra a narrativa especialmente por Ylian, um músico de pequenas apresentações que vez por outra trabalha junto a grandes bandas. Isso faz com que o livro nos entregue muitas e ótimas referências musicais no decorrer da narrativa;

9 - Mas acima de tudo, o livro adentra às paixões intensas e impulsivas mas que também adentram à vida de tal forma que permanecem. Além disso, da abordagem do desejo, entra em discussão os silenciamentos, os pactos, as memórias guardadas de forma profunda, entrentanto, que em algum momento podem voltar com força avassaladora como vimos no caso de Kathy, de modo que, embora de linguagem simples, o romance pode nos trazer interessantes reflexões sobre a intimidade seja do desejo, dos prazeres, mas também dos segredos. Isso sem falar das abnegações, dos acordos silenciosos, das diferentes formas de amar, algumas delas, como a de Olivier com Kathy, um tanto agoniante ao leitor por certas vezes, diante a incondicionalidade de seu amor pela esposa;

10 - Enfim, Eu devia estar sonhando é um tanto diferente dos outros livros de Michel Bussi que lemos, contudo, o ritmo e as surpresas guardadas para os finais permanecem, de modo que é uma interessante leitura em uma narrativa sobre diferentes formas de amar e de também agir com o amor. No fim, para além das revelações, um devir posto sob controle da imaginação do próprio leitor.

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