10 Considerações sobre Fausto tropical, de Sidney Garambone ou por que o Diabo veio ao Brasil...

O Blog Listas Literárias leu Fausto tropical, de Sidney Garambone, publicado pela editora 7 Letras. Descubra nesse post o que teria vindo fazer Lúcifer por estas terras que têm palmeiras e onde cantam sabiás e tantas outras aves; confira as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro:

1 - O mito de Fausto é de fato um tecido contínuo cujo nascer de novas tramas é aparentemente inesgotável. Neste Fausto tropical o Diabo novamente surge por terras brasileiras; o próprio destaca, por que não, afinal, Lúcifer "queria conhecer o Rio de Janeiro, a América do Sul...", segundo ele próprio "minhas histórias estavam se repetindo, por que só a Europa, a Ásia e a América do Norte?". Se de fato não temos repetições aqui, veremos na sequência deste post, teria a tropicalização do Demo entregue algo novo nessa trama que percorre séculos? veremos...

2 - Antes de seguir, porém, vale destacar, obviamente, que temos outras incursões de Lúcifer por nossa literatura, Grande Sertão: Veredas, por exemplo, - embora a presença de Satanás fique em suspeição -, no passado Machado de Assis e Álvares de Azevedo deram vida a seus próprios diabos, bem como nossa literatura contemporânea volta e meia sai a passear pelo inferno. Todavia, certamente neste o adjetivo "tropical" é bem empregado e talvez tenhamos, contraditóriamente, uma narrativa fáustica bastante solar, a despeito de algumas necrópoles e tumbas que surgem como cenário. Nisso adiantamos que há na narrativa, sim. alguns elementos que não soam como mera repetição de abordagem do tema;

3 - A literatura brasileira há algum tempo trabalha com a ideia de que o pacto prescinde do tradicional contrato de sangue, Riobaldo que o diga. Temos aqui, talvez menos um pactário, mas um bestfriend do capeta. O pacto é mais implícito do que explícito, entretanto, depois de uma sessão melancólica junto a uma prostituta, o escritor fracassado e funcionário de sebo Victor Vaz recebe a visita do próprio Lúcifer dentro de seu carro em um estacionamento subterrâneo. A partir daí, como carne e unha, a narrativa segue a relação dos dois, estabelecida mais em trocas intelectuais que propriamente em algum acordo ou pacto;

4 - A narrativa é feita em primeira pessoa pelo "Fausto" Victor. Autor de livros que não lhe levaram ao sucesso, mas, em contrapartida, garantiram-lhe muitos problemas, o protagonista é a típica "alma" alquebrada, alguém que vive mais das projeções do que não viveu, que propriamente sua vida um tanto medíocre. Vale destacar, contudo, que embora uma existência medíocre, Victor tem muita consciência dessa mediocridade. Separado, tem pouco contato com a filha. O e-mail de uma paixão nunca vivida principia seu estado de confusão, momento em que Lúcifer surge para lhe estender uma mão amiga...

5 - Essa será uma questão para que os leitores se afundem em interpretações, já que tudo é mais insinuado do que afirmado, e nenhuma das fontes são confiáveis. O Diabo surge inesperadamente no carro de Victor um pouco antes do retorno de Paulina - grande paixão do protagonista, espécie de sua alma gêmea  - porém, declarará sempre e a certa altura com certa anuência do escritor, que fora o próprio Victor que o chamara, ainda que de forma inconsciente. O diabo nesta narrativa, inclusive, desmerece ritos e gritos, explicando talvez a desnecessidade de Riobaldo ficar gritando na encruzilhada "Ei, Lúcifer! Satanaz, dos meus infernos!". No romance supõe-se que o mero desejo íntimo seria suficiente para chamar ao Tinhoso - mas saiba que o próprio não curte muito essa alcunha, a de Tinhoso;

6 - Do primeiro encontro com Lúcifer em diante, tudo parece desmoronar ainda mais na vida de Victor. A tragédia da morte de Paulina, sua Margarida em particular; a distância da filha que parece pesar ainda mais, a compreensão das coisas não vividas, tudo isso mesclado com a curiosidade intelectual nascida a partir das conversas com Lúcifer. Aliás, diga-se, curiosamente, os diálogos - que serão tantos - entre os dois se darão sempre sob vigor da intelectualidade e da racionalidade. Victor é um racional. O Diabo é racional. Ao menos nesta interpretação. Essa intelectualidade, inclusive, nos faz caminhar por uma vasta e interessante bibliografia de obras que têm na relação fáustica e na natureza do demônio o grande tema;

7 - São os diálogos intelectuais travados entre ambos que nos entrega talvez o novum [nos apropriando aqui do termo usado geralmente pela teoria da Ficção Científica] que o romance aborda dentro da espiral do mito. Encontrar narrativas com Fausto é muito fácil, as livrarias estão cheias desse tipo de obra [em minha pesquisa para tese, inclusive, está sendo elaborado um levantamento que traz muitas narrativas de nossa literatura brasileira contemporânea], porém, em grande parte, são repetições do mesmo tema. As que apresentam algo novo, o novum, são mais raras. Esta obra é uma das raridades. Aqui já não se deita sobre a já tão batida dicotomia bem/mal, mas sim sobre a lógica da verdade/mentira, bem como os lados tomados por Deus e o Diabo nessa querela. É aqui que se estabelece a principal batalha filosófica entre este Fausto tropical e Lúcifer;

8 - Nesse sentido, numa imersão plenamente intelectual, os diálogos representarão duas forças em embate, contudo, reconhecendo o leitor que este Mefisto dos trópicos, ao melhor estilo da cidade em que está, mostra-se muito hábil e ardiloso. Parece-nos, inclusive, que seu Fausto interior, Victor, de fato acredita e confia, por vezes, cegamente em seu interlocutor. O leitor, bem, esse se for esperto, perceberá algumas contradições e incongruências no demônio. Mas dito isso, dos embates intelectuais, precisamos destacar que isso não significa ação congelada à tumbas, salas sombrias. Victor e Lúcifer se movimentam por ruas, bibliotecas, principalmente botecos, não poderia ser diferente, não é? Os dois até mesmo fazem um passeio internacional, como é comum à maioria dos Faustos;

9 - Não, não esquecemos. Claro que há uma proposta e uma resposta a ser dada ao demônio, entretanto, esta vocês devem ler a obra e discutir as implicações disso tudo demandam um espaço maior que o desse post. Além disso, gostaríamos de abordar brevemente o romance à luz dos gêneros. Não é muito simples classificá-lo [e isso é sempre bom em nossa concepção]. Convenhamos, apesar de uma boa dose de ficção realista, a presença do demo - mesmo que ele se queira explicar sob prismas racionais e físicos -  junto a Victor flerta com o fantástico e com o misterioso - no mínimo, insólito. E o romance conscientemente não procura justificar a experiência vivida por Victor - sempre com algum grau de suspeição - deixando ao leitor que busque suas interpretações [teorias], e isso mais uma das virtudes da obra, além do seu texto inteligente e saboros de percorrer-se com os olhos - e a mente;

10 - Enfim, Fausto tropical é exitoso em nos entregar uma narrativa carregada de profundidades, mas com a brisa e os ares que a vida nos trópicos nos proporciona. Vai além de uma passagem pelas narrativas fáusticas e seus temas, contribuindo ele mesmo para novas abordagens, sem ter que necessariamente repetir os alemães, espanhóis, italianos, etc... além de toda inteligência presente em sua narrativa, temos aquela boa dose de diversão e humor solar - mesmo diante questões difíceis - que apenas a vivência tropical permite, ou seja, foi uma boa ideia de Lúcifer visitar o Rio de Janeiro.

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