10 Considerações sobre Valis, de Philip K Dick ou peixes não portam armas

2026 chegou e com ele vamos começar o ano no pique e no ritmo com resenha para vocês. No post de hoje as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre Valis, de Philip K. Dick,  publicado pela editora Aleph ou descubra porque peixes nã portam armas, confira:


1 - Dizer que Valis é uma das mais estranhas obras de Philip K Dick soaria um tanto estranho (sic) em se tratando deste autor (que você encontrará muitas resenhas aqui no Blog), mas certamente podemos dizer que ao menos dentro de nossas leituras de obras suas, é uma das mais diferentes, em que o tom religioso (algo que é característico na maior parte das Ficções Científicas) assume a linha central da narrativa tomando as rédeas sobre os temas sci-fi. Contudo, mesmo com tais diferenças significativas, permanece no romance a grande celeuma e certamente principal tema do autor, a dúvida sobre o que é a realidade? e ainda, o que é o tempo? que nessa abordagem que mergulha de vez nos mitos e no místico e torna-se ainda mais intensa;

2 - O livro é uma publicação em reação ao evento teofânico e religioso vivenciado por Phil em 1974, segundo ele mesmo (esta edição traz a HQ feita pelo ícone Robert Crumb sobre o episódio). O evento místico e misterioso teria sido o encontro do autor com Deus e em grande medida Valis é sobre isso, o que fica ainda mais evidenciado não só pelas escolhas narrativas, bem como pelas exegeses do autor inclusas no romance e também como apêndice da obra. De certo modo este romance é uma tentativa de entendimento e compreensão da experiência do autor;

3 - O que de longe significa dizer que o romance é uma espécie de narrativa evangelizadora. Na verdade a ambiguidade é permamente na obra, a tensão entre racionalidade e fé está presente mesmo quando parece-nos superficialmente estarmos diante uma crença inequívoca no divino e suas múltiplas formas. É a fratura de quem tenta racionalizar a experiência subjetiva da espiritualidade e esse jogo dialético permanece do princípio ao fim, inclusive com o uso das vozes narrativas como forma de demonstrar diferentes momentos de "crença" de seus personagens e ambiguidade;

4 - E aqui devemos tratar as vozes narrativas, ou seja, da narração de Valis que é algo extremamente relevante e que também é responsável por grande parte do estranhamento da leitura. A narração dá-se em uma voz em primeira pessoa, contudo, de modo geral temos por princípio que a voz em primeira pessoa é limitada a um de seus personagens e com isso outra série de limitações, como impossibilidade de onisciência, etc; entratanto, no caso de Valis isso é um pouco mais complicado, e também uma aula das possibilidades do narrar. Primeiro porque inicialmente temos a sensação de uma narrativa em terceira pessoa até o momento em que o narrador Horselover Fat diz em primeira pessoa preferir narrar sobre si em terceira pessoa. Temos aí já um bom nó para a leitura; Contudo, veremos que a certa altura a voz de Fat vai sendo trocada pela de seu amigo, Phil, sim, o próprio autor. Dick, sabemos tem certo fascínio pelo duplo, e ele usa isso com muita maestria, já que Phil e Fat são duplos, uma identidade fracionada, mas que aqui funciona para muitos leitores como construção de um alter ego do próprio autor. É uma possibilidade, mas consideramos que nisso há um jogo mais complexo que a presença de um alter ego apenas;

5 - No Brasil presenciamos certo boom das autoficções no entremeio das duas primeiras décadas deste século XXI. Lembrei disso porque o que Phil faz em Valis, lá em 1981, em certa medida também é autoficção. Para além do episódio religioso acontecido com ele? com Horselover? com os dois? há outras citações supostamente da experiência do autor Philip K. Dick, contudo, como toda autoficção, a realidade, veja só, pode ser confusa nesses casos jogando entre o real e o imaginado. Ou seja, as autoficções ampliam a pergunta o que é real e o que foi inventado nisso tudo? vejamos que isso amplifica ainda mais as paranoias do autor com a realidade (aliás, Dick é um exemplo do que quase vim a chamar em minha dissertação sobre Mutarelli, mas cujo título mudou. Perdi uma estética muito interessante, Romance Nóia, obras em que seus autores expressam determinadas paranoias acerca da realidade - também do tempo. A expressão Romance nóia era muito instagramável rsrs). No caso de Valis, e por isso pensamos mais complexo que um mero alter ego, tais identidades Phil e Fat (um detalhe importante, veja que se ambos são a mesma pessoa, como se dá a certa altura, os outros membros da sociedade que criam, Kevin e David, ou também são ilusões ou então são loucos, pois se relacionam com ambas as personas, inclusive naturalizando o sumiço e o retorno de Fat) se fracionam e se unem em diferentes momentos da narrativa, e, por fim, voltam a se fracionar, aqui o reforço da manutenção da ambiguidade sobre a experiência vivida;

6 - Mas enfim, do que se trata tal experiência? No romance, assim como o próprio autor, o narrador teria experimentado certo contato com divino, com Deus, que inclusive teria mandado-lhe uma mensagem importante sobre a saúde do filho, salvo por tal intervenção divina. É a partir dessa experiência e da não compreensão do que aconteceu que o livro é uma espécie de busca por Deus, ou do que é Deus? Essa, parece-nos a grande questão de Phil/Fat. Tentar compreender um mundo para além do racional e do materialismo, tentar compreender as forças presentes e inexplicadas da experiência humana, de modo que, a narrativa perpassa diferentes tempos da história e cultura humanas e seus mitos religiosos expressas pela percepção da fratura do tempo percebida por Phil/Fat;

7 - Nesse sentido, em sua busca por Deus, a narração de Valis não bebe apenas no fenômeno supostamente experimentado por Phil/Fat. A obra bebe e muito das mais diversas fontes da filosofia, das religiões e especialmente dos diferentes estudos sobre mitologias, especialmente e citado textualmente Mircea Elíade. Em muitos momentos, inclusive, a prosa de romance é invadida por ares acadêmicos com citações e paráfrases no interior da narrativa como se fosse a construção de um grande mosaico na busca por entedimento da relevância dos mitos e da mitologia, especialmente porque os narradores pensam ser a vez da presença de um novo salvador no mundo, um Buda, um Cristo, Osíris, Asclépio, enfim, a obra perpassará por uma série de referências mitológicas que constituem nossas buscas por aquilo que somos e de onde viemos? Uma busca muito antiga, diga-se;

8 - Mas certamente entre as vozes que mais influenciam a narrativa está o pensamento de Carl Jung. Sua concepção do insconsciente coletivo, ideias sobre símbolos e principalmente a natureza dos sonhos. Mais do que tema, é como se o romance concordasse com a perspectiva de Jung para quem os sonhos são espécie de banco de memória humana e construção de símbolos. Isso expressa-se na narrativa em muitos exemplos em que os sonhos de Phil/Fat são tão relevantes quanto a busca que iniciam à Deus, ou à potência que disparou a mensagem/contato com ele. Uma busca que o levará a um cineasta, a um satélite, Valis, uma forma didática de tentar explicar Deus e com isso também um mergulho a mitos que não raro introduzem teorias conspiratórias, raças alienígenas, etc... 

9 - Nessa busca - ou caçada - pelo novo salvador e por meio de suas reflexões filosóficas e teosóficas, o livro introduz a exegese de Dick escrita após o fenômeno. São aforismos, conceitos, textos que procura compreender e também conceituar Deus, o tempo, a própria realidade - se é que ela existe. A exegese supostamente possui milhares de páginas, entretanto, pouco dela foi publicado, e é uma boa fonte de compreender um pouco mais o pensamento de Phil;

10 - Enfim, denso, complexo e uma busca truncada pela divindade, Valis a despeito do fenômeno místico experimentado é uma boa tradução da ambiguidade e do conflito do homem [pós]moderno titubeando entre a razão e a espiritualidade, mas carregado de todos os simbolos e da carga simbólica construída há muito tempo. Uma obra que exige de seus leitores, certamente, mas que nos traz interessantes reflexões sobre a natureza cosmológica da humanidade. 

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