10 Considerações sobre O homem e seus símbolos, organizado por Carl Jung ou um pouco mais sobre o livro que influênciou gerações de escritores

 O Blog Listas Literárias leu O Homem e seus Símbolos concebido e organizado por Carl Jung, publicado pela Harper Collins Brasil . Nest post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre este livro que a despeito de ser da área da psicologia, trouxe muitas repercussões para a literatura - e teoria literária, assim como influenciou um grande número de autores e autoras de diferentes gerações, confira:


1 - O Homem e seus símbolos é a derradeira obra da carreira exitosa do psicólogo Carl Jung e a tentativa de transpor aos leitores comuns - um projeto inicialmente refutado, mas com destino alterado pelos sonhos, o inconsciente - os principais conceitos construídos por ele, alguns supostamente hoje além de populares são "entendidos" e conhecidos por todos. Tal objetivo da obra está bem afirmado na introdução de John Freeman "este livro, no seu todo, é realmente destinado e dedicado ao leitor comum e que assuntos complexos de que trata foram cuidados com rara e estimulante simplicidade". O que está dito aí é que o projeto tem como base certa simplificação na busca de levar as ideias de Jung ao público digamos, leigo, não inserido nos textos acadêmicos da psicologia, ou seja, a realização de certa transposição didática para trazer a nós conceitos como o do inconsciente coletivo ou dos arquétipos tão caros à Jung. Vale destacar aqui em que pese essa simplicidade, ainda assim, é provável que a primeira viagem pela obra possa deixar lacunas ou dúvidas nos leitores, já que, por mais simples que o seja, trata-se de uma obra com propostas e conceitos cheios de complexidade. De todo modo, o que temos aqui poderia ser concebido como uma espécie de divulgação científica (não, não vamos entrar neste post na querela a respeito da psicologia ser ou não uma ciência);

2 - Para tanto, após quebrar sua própria resistência à ideia, Jung concebeu o livro, coordenou e supervisionou a escrita, além, é claro, dele mesmo escrever a sua parte na publicação, retomando seus principais conceitos. Com isso são cinco capítulos que contam com a participação de Jung e outros pensadores seguidores de suas teorias e pensamentos, além do fechamento com a conclusão da psicoterapeuta M. -L. von Franz, que também assina um dos capítulos do livro e foi responsável pelos últimos ajustes após a morte de Jung em 1961;

3 - O primeiro capítulo é escrito pelo próprio Jung e faz sentido, já que "Chegando ao inconsciente" é como se ele construísse uma trilha que leve os leitores à compreensão do que é o inconsciente coletivo, bem como, sua argumentação quanto a importância e as consequências dessa descoberta para as sociedades humanas. Neste capítulo ele não só aborda a a relação do consciente com o inconsciente, trata da construção e da relação humana com os símbolos e acima de tudo, coloca o sonho - os sonhos - no palco da compreensão dessas relações, já que nele constrímos nossos símbolos e expressa-se toda a força do nosso inconsciente. Além disso, no trilhar do capítulo ele aproxima-se e diastancia-se de seu mestre, Freud, pontudando as diferentes visões de cada um deles quanto à função dos sonhos. A bem da verdade, o capítulo é o essencial para que você compreenda melhor a interpretação dos sonhos e seu uso pela psicoterapia;

4 - Construída a trilha que busca familizarizar os leitores com seus conceitos, Jung abre caminho para que os estudiosos seguidores e adeptos de sua teoria prossigam, de modo que no capítulo 2, Joseph L. Henderson traga "Os mitos antigos e o homem moderno". Neste capítulo a demonstração da presença no inconsciente coletivo e na própria memória coletiva da sociedade das estruturas dos mitos antigos nos símbolos dos homens modernos, identificável especialmente pelos arquétipos que persistem e criam, segundo esse pensamento, a ligação do moderno com suas raízes primitivas. Devemos dizer, aliás, que a publicação é ricamente ilustrada com centenas de imagens exemplares dos símbolos humanos, o que causa reforço na ideia de transposição didática da publicação, pois que busca-se sempre associar o texto com exemplos das imagens que brotam em todas as suas páginas, praticamente;

5 - O terceiro capítulo "O processo de individuação" é escrito por M. -L. von Franz, uma de suas principais seguidoras. É um capítulo desafiador já que busca não só explicar o processo do crescimento psíquico do indivíduo, como também adentra a questões bem técnicas relacionadas à psique humana. Questões do self, do ego, as projeções, as sombras, enfim, questões bastante técnicas para a compreensão e entendimento do inconsciente são tratadas no capítulo;

6 - É neste capítulo que a doutora von Franz busca explicar dois conceitos caríssimos à Jung, o de anima, em grosas palavras os aspectos femininos na psique masculina, e o animus a porção masculina no inconsciente feminino. Essa é sem dúvida, a nosso ver, a questão mais problemática nas proposições de Jung. Ainda que, como vemos no capítulo a afirmação de que ambos existem e em ambos os casos a anima e o animus podem atuar de forma positiva ou negativa sobre o indivíduo e sua psique, o problema está justamente nas concepções que não passam ao largo do leitor, construída sobre alicerces culturais estereotipados, especialmente quando se trata da anima. Obviamente não é da nossa alçada e nem seria viável nesse espaço refutar ou simplesmente negar os dois conceitos, que inclusive são largamente aceitos na área e mesmo fora dela, mas podemos dizer que nesse caso, não somos nada convencidos pela ideia. Primeiro porque ao dizer que tanto o homem quanto a mulher são constituídos em seu inconsciente por uma outra parte, ele afirma, então, que os ambos, homem e mulher são constitídos pelas mesmas coisas. Sei que talvez não tenha sido claro, mas enfim, se ambos são constituídos no inconsciente por um outro aspecto não aparente, significa que não há nisso diferenças. Ocorre que as diferenças para o olhar de Jung são alicerçadas em estereótipos culturais, de modo que, embora eu sintetize muito, é muito provável - segundo sua teoria - que o homem cuja individuação, ou seja, seu desenvolvimento psíquico não esteja bem resolvido pode ser por ação dos aspectos negativos da anima em seu inconsciente. O problema é que justamente os aspectos dados como negativos dessa anima são estereótipos culturais que há séculos constituem as mulheres, como a histeria, por exemplo. Até mesmo quando se traçam aspectos positivos há relação com estereótipos, o sentimento, por exemplo. Não menos problemático é o fato de qu ena abordagem do animus, os aspectos negativos parecem bem menores e fica-se a impressão de que a mulher desenvolvida psiquicamente deve muito ao animus. Pode ser um problema deste leitor, pode, mas não, porquanto esse é um aspecto um tanto intragável da leitura;

7 - O quarto capítulo "O simbolismo  nas artes plástiscas" de Aniela Jaffé percorre especialmente a arte moderna, suas técnicas e movimentos, principalmente a discussão sobre o abstrato nessa arte moderna argumentando justamente a presença dos mitos e estrutras arquetípicas nessas construções. Nesse capítulo uma discussão que coloca em foco a mandala nas artes - e espiritualidades humanas;

8 - O último capítulo é como fosse uma demonstração dos conceitos por meio da exposição de uma prática. "Símbolos de uma análise individual", de Jolande Jacobi é a descrição de um caso, conhecemos os sonhos e as interpretações dos sonhos de um tal de Henry e o processo de individuação percorrido por ele. Outro capítulo cujo autor expressa algumas ideias no mínimo problemáticas;

9 - Assim, percorridas suas longas páginas, como dissemos, a obra busca facilitar o entendimento do leitor, o que consegue em grande parte. O livro, deste modo serve como um "modelo de entrada" aos trabalhos de Jung, que a despeito de suas contradições ou dos questionamentos que são levantados por quem se opõe às suas ideias, não só tem adeptos, mas também traz muitas virtudes. Como von Franz destaca na conclusão da obra, a "descoberta" do inconsciente, as estruturas arqutípicas, conceitos como o de sincronicidade, tudo isso abriu caminho a novas investigações, bem como abrindo frentes de trabalhos em outras áreas, como a literatura, seja na teoria, seja na penetração no pensamento des importantes escritores do século XX que passaram a olhar o mundo de outra forma a partir de concepções como a do inconsciente coletivo e memória coletiva. Como todo trabalho relevante, ao leito cabe ponderar o que faz sentido, bem como revervar certa criticidade por meio de problematizações dos aspectos que devem ser debatidos, como, por exemplo, pensamos a respeito da anima;

10 - Enfim, o que pretendemos dizer é que está é uma leitura importante e sendo um "modelo de entrada" nos familiariza com termos e conceitos que instigam nossa vontade de ir mais a fundo em nossas pesquisas, até porque, constituímos os símbolos e eles os constituem, de modo que quanto mais conseguirmos compreender tudo isso, um pouquinho mais sobre nós mesmos, talvez compreenderemos também.

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