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10 Considerações sobre O Dossiê Odessa, de Frederick Forsyth ou sobre monstros não devem nunca ser esquecidos

O blog Listas Literárias leu [retirado dos meus velhinhos guardados na estante a espera de leitura] O Dossiê Odessa, de Frederick Forsyth publicado pela editora Record em 1972; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - O Dossiê Odessa é um primor aos fãs do gênero espionagem. Forsyth te submerge numa Alemanha pós-guerra de tal modo e consistência que sua fusão entre história e ficção não te permite muitas vezes dizer onde está uma e onde está outra. Para coroar todas as virtudes e valores de sua narrativa, soma-se a está "união" entre ficção e história, personagens verossímeis e permanentes e um enredo dinâmico carregado de adrenalina;

2 - No romance, Peter Miller, um jovem alemão da nova geração, filhos e órfãos da Segunda Guerra, é um repórter ambicioso e um tanto idealista, que a partir de um diário que lhe cai às mãos começa uma espécie de desnovelar, tal como Ariadne, um novelo de teia labirintítica e por demais perigoso, de tal modo que pode trazer à tona uma rede de proteção a ex-membros da mais monstruosa e terrível organização de Hitler, a SS;

3 - E aqui temos de fazer uma observação. Há diferentes formas de pensarmos os contextos históricos deste livro. Publicado originalmente em 1972, por si só é narrativa que já nos escapa algumas décadas na história. Na obra, temos a informação de sua contemporaneidade dos anos 70, contudo, sua ambientação dá-se nos anos sessenta, entre 1963 tendo a morte de Kennedy enquanto fundo e o ano de 64 por qual se avança a investigação de Miller. Já para sua época de publicação, a história de que trata a obra enquanto romance histórico está o recuperar das monstruosidades da Segunda Guerra Mundial, em especial a atuação da SS. Com isso, podemos dizer que para além da história intencional abordada por Forsyth, temos ainda acesso ao contexto histórico em que ambienta o romance, numa Alemanha dividida por muros e pela ameaça de guerra correndo por todos os lugares, em especial as bases do conflito entre Egito e Israel ;

4 - Nessa jornada, então, o protagonista Miller, que trabalha como repórter freelancer, num golpe de sorte do destino acaba encontrando o diário de um prisioneiro judeu no campo de concentração de Riga, onde quem comandava era Eduard Roschmann, conhecido como Açougueiro de Riga por causa de sua maldade extrema. A descoberta do jornalista por alguma razão a ser explicada ao fim da obra, desperta nele uma busca pessoal como nenhum outro alemão se dispôs a fazer, caçar e perseguir nazistas fugitivos, e em muitos casos, reintegrados ocultamente em diferentes lugares do mundo, mas também dentro da própria Alemanha;

5 - Nessa busca, entre a ficção e o real, somos colocado diante a possibilidade de uma rede regular e secreta de membros da SS criada ao fim e após a guerra como forma de proteção e recolocação dos SS na sociedade. Na prática, uma instituição cujo único objetivo era uma espécie de hibernação, nunca a morte do nazismo. Se entranhando em diferentes estruturas, sempre atentas a um possível retorno e em permanente "guerra" contra os judeus. Tal rede, oculta pela névoa do anonimato é Odessa, uma suposta associação secreta de nazistas, uma associação perigosas e com recursos não apenas para proteger seus membros, mas também de seguir com os planos de Hitler;

6 - Na leitura, para além da ação carregada de adrenalina que é iniciada com as investigações de Miller, quando disparada o colocará num turbilhão de acontecimentos, e outras questões relevantes surgem na narrativa de Forsyth, como, por exemplos, a complexidade e as contradições de uma Alemanha silenciosa entre a vergonha e algumas más intenções que estruturalmente parecem compactuar um acordo pelo esquecimento dos horrores legados por Hitler e sua turma no poder, um legado incômodo e vexatório;

7 -   E se a Odessa vem ser a nêmesis de Miller e da humanidade em sua forma institucionalizada, é preciso observar que o repórter encontrará inimigos inesperados; em especial nas estruturas sociais estabelecidas que o afastam de sua jornada. Perceberá como as estruturas do poder parecem trabalhar mais para os criminosos que para de fato levar a julgamento aqueles criminosos de guerra. Em geral, dá contrastes realistas aos perigos que surgem ao se mexer em vespeiros que muitos querem deixar guardados a sete chaves. debaixo do tapete. Isso colocará Miller quase que numa caçada solitária e obsessiva em busca de Roschmann, que no romance está mais do que ativo, sendo um elo fundamental em planos nazistas mais imediatos contra Israel;

8 - Entretanto, temos de considerar o ambiente e o tempo que se passa a narrativa. Talvez um dos mais paranoicos momentos da história humana, com grupos de espionagem e contraespionagem operando em cada esquina. É nesse submundo em que a noite desperta todos os personagens que Miller ser locomove por todo um submundo que esconde e protege diferentes intenções. Assim uma narrativa típica de seu tempo, não só pelo ambiente, mas também pela caracterização de seus personagens, do espião habilidoso em um jornalismo em sua era romântica, pin-ups voluptuosas homens armados dispostos a atirar;

9 - Além disso, ao leitor de hoje, outra coisa bacana é analisar o mundo de ontem e o quanto ele já nos é distante. Numa época que todos corriam em busca de informação, o processo manual, analógico, suscetível a falhas e desencontros. É o que possibilita, inclusive a investigação de Miller e que deixa ao leitor de hoje certa sensação de muitas coisas, sensações, experiências que a tecnologia de hoje nos sequestre. Disfarces, fichas de arquivos, documentos falsos, tudo isso hoje se dá de outra maneira;

10 - Enfim, O Dossiê Odessa é uma leitura penetrante e intensa. Um dos grandes exemplares de seu gênero e uma narrativa que tanto pode ser lida enquanto mera distração pela emoção da aventura, mas também pela competência que aborda e insere seus personagens no contexto histórico. Narrativa tão verossímil e tão habilmente entrelaçada que nos coloca diretamente dentro da jornada.


    

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