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10 Considerações sobre Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson ou sobre aquele 1% da tirania

O Blog Listas Literárias leu Nova York 2140, de Robin Stanley Robinson publicado pela editora Planeta/Minotauro; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Entre o populismo e a revolução, Nova York 2140 é uma ficção científica que resume não apenas estes tempos, mas também realiza projeções que tentam se equilibrar entre a utopia de persistência e resistência humana e a distopia marcada pela escalada das desigualdades sociais em um mundo controlado pelo 1% dos mais ricos do mundo. Nisso é um livro que a despeito de ser sobre Nova York, reforça a metáfora de mundo, cuja metrópole é um vértice em que todos os problemas do globo estão presentes, e, quem sabe, algumas soluções;

2 - Como podemos depreender pelo próprio título, o livro avança ao futuro, um futuro não muito distante em termos históricos. Nos leva a 2.140, época em que todas as cidades costeiras do mundo estão resistindo e tentando se reerguer após dois grandes colapsos causados pelo aquecimento global e o aumento das marés. Nessa nova realidade a metrópole é uma super-Veneza que dá lugar a barcos em vez de carros e a pequenos feudos que se tornaram as torres que resistiram à inundação. Nessa levada adiante da cidade o que não mudou em nada ao passado foi a desigualdade alarmante entre ricos e pobres que segue prenunciando um gigantesco colapso social;

3 - Dito isso seria de se pressupor que temos aí um romance de notas ecológicas tão somente, o que não é o caso, embora a mensagem esteja presente. Mas antes de tratar do que seja talvez a centralidade da discussão acerca da leitura da obra, de antemão é preciso dizer do caráter polifônico e biográfico do livro. Biográfico porque algumas das vozes da narrativa terão ainda mais cuidado quanto a biografia da cidade, seja a ficcional do entre-tempos do presente [data de hoje] e o tempo da narrativa, bem como uma biografia da cidade, especialmente de seus acontecimentos nos Séculos XX e XXI em seus primórdios. E polifônico porque além da fragmentação das vozes narrativas intercambiantes, também pelo acréscimo de vozes da cultura que têm retratado Nova York ao longo dos tempos, seja no cinema, literatura, música, etc.;

4 - Aliás, numa leitura mais simplista desta ficção pode-se de fato concebê-lo enquanto romance sobre Nova York. A cidade não é apenas tema, mas quase personagem construída em suas distintas complexidades. Há um olhar crítico, mas não despossuído de amor pela Grande Maçã de modo que os diferentes narradores e o diferentes excertos introduzidos ao longo do texto vão trazendo as diferentes facetas da cidade;

5 - Vejamos que até aí já encontramos algum material para leitura e análise da obra. Mas estes são detalhes um tanto coadjuvantes se aproximados do grande incômodo de que realmente quer falar o livro. A bem da verdade é um romance que talvez carregue [traga a baila] a voz e o discurso de um Bernie Sanders, por exemplo. Em síntese o livro procura se posicionar com um problema aparentemente cada vez mais visível não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o globo terrestre: a concentração de renda e a desigualdade social. Parece estar a obra ainda fortemente impactada pela crise de 2008 e os "remédios" governamentais para solucioná-la, salvando justamente os responsáveis pelo problema: os bancos e o mercado financeiro. Em última instância o capital e o capitalismo saltam como os antagonistas capazes de operar um sistema complexo que afunda 99% da população e protege aquele 1%, que diferentemente da canção nacional, não é vagabundo, mas sim, tirânico;

6 - É aí que a obra começa a se debater entre a revolução e o populismo. Não julgo aqui o conceito de populismo, entretanto o uso enquanto expressão de indignação popular contra as elites econômicas. Nesse aspecto o romance é populista, pois que sua artilharia mira Wall Street, Bancos, Governos e ousa [e em termos norte-americanos é mesmo uma grande ousadia] a desenhar a necessidade da retomada pelo Estado, na ótica de suas vozes todavia um Estado do povo, do controle das questões econômicas e do capital. Tanto que há um esboço de revolução populista na jornada do romance que estabelece planos [que certamente seriam chamados de populistas] para uma revolução contra o poder econômico;

7 - Aliás, há uma virtude do autor em esboçar uma revolução apenas, pois que historicamente sabemos que se pode iniciar uma revolução, agora seus caminhos e resultados serão sempre imprevisíveis. E é uma espécie de revolução que começa a ser alastrada pelos protagonistas acompanhados pela narrativa. Uma revolução utilizando das armas do mercado contra o próprio mercado financeiro, contra o próprio sistema capitalista, responsável nessa lógica pela miséria de 99% da população. Por isso a retórica do romance cuida em grande parte de argumentar a respeito da lógica nefasta de um sistema mantido por ilusões, especulações, corrupção, gentrificação, etc... Como de praxe no gênero, embora no futuro, os problemas da Nova York do Século XXII permanecem os mesmos;

8 - Claro, esses são aspectos que encontrarão os leitores que assim como muito de seus personagens, tem o gosto do mergulho nas profundidades. Em sua superfície a narrativa mostra sobreviventes num mundo hostil que tenta se levantar de desastres climáticos e econômicos. "Heróis" do cotidiano, ou seja, o povo, às voltas com suas coisas diárias e mundanas até que uma rede vai os conectando a algo maior, um algo maior, subentendido, pois temos aqui uma espécie de convocação provocativa tentando apontar um caminho e revelando seu começo de jornada pela derrubada do sistema, pelo começo da luta contra o tal 1%;

9 - Todavia, embora com posições políticas claras e alguns elementos interessantes para análise e a despeito da fragmentação de suas vozes, no geral o romance [talvez propositalmente] mantém certo aspecto de tão somente romance juvenil, um contraste com tudo isso que está em seu interior. Em meio a essa adversidade seus protagonistas sofrem pouco se comparados a uma ficção distópica plena, ao mesmo tempo de que há certa ingenuidade quanto ao caminho da pequena revolução deflagrada liberto de pedras e reações imediatas. Há certo pecado em pensar o sistema como algo frágil de ser derrubado;

10 - Enfim, Nova York 2140 é ficção política fortemente entranhada nos dramas e desafios de seu tempo. Tem certa vantagem de conhecer e saber para qual inimigo apontar, mas talvez peque em achar um tanto simples detê-lo. Aliás, os personagens só conseguem iniciar algo com certa dose de acaso. Nesse sentido, o mais relevante do romance seja talvez a análise assertiva das causas dos desconfortos e conflitos desta nossa época. Talvez por isso essa voz tão elevada em notas populistas, pois que o povo deve [ou pelo menos deveria] ser colocado nos planos e planilhas, o que não tem sido feito. Como no romance, a concentração de renda [e poder] e as desigualdades sociais estão criando verdadeiros abismos em nossa civilização e a quase totalidade das pessoas tem sofrido com o autoritarismo do capital cada dia mais nas mãos de um pouco muito pouco, enquanto a sobrevivência do restante da humanidade corre risco em diferentes pontas, pela economia, pelas mudanças climáticas... Nesse sentido esta talvez seja uma ficção nascida de Ocuppy Wall Street.



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