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Santa Bosta! 10 Considerações sobre O filho mais velho de Deus e/ou livro IV, de Lourenço Mutarelli ou sobre fazer umas loucuras

O Blog Listas Literárias leu O filho mais velho de Deus e/ou livro IV, de Lourenço Mutarelli publicado pela Companhia das Letras e parte da coleção Amores Expressos idealizada pela RT features. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Integrante da coleção Amores Expressos cujos romances focalizam cada qual uma importante cidade do mundo, coube a Mutarelli escrever a narrativa sobre Nova York, e, se tomarmos "a grande maçã" como a grande metrópole mais filmada dos tempos recentes pelo cinema, veremos esta "cidade-cenário" refletida neste romance de difícil - talvez impossível - classificação dar vazão a uma narrativa insana e satírica, mas capaz de reforçar certa atmosfera etérea e absurda duma cidade onde as loucuras mais improváveis são possíveis, como veremos em O filho mais velho de Deus;

2 - Antes de mais nada, todavia, precisamos observar o tom satírico com que Mutarelli elabora sua narrativa nestes romance. A começar por seu narrador em terceira pessoa, mas íntimo não apenas do protagonista, mas também do próprio leitor, a quem ele procura estar sempre próximo. Trata-se de um narrador que extrapola as ironias e não teme o usa das figuras de linguagens ao que não se furta de cortar sua narração com trechos que desavisados poderiam pensar estar diante problemas de coerência, tais são as interferências, intrusões e outras rupturas realizadas pelo narrador. Contudo, não apenas ele é fortemente marcado pelas tintas da sátira, mas o próprio protagonista de múltiplos nomes, de certa fixação pelos cus alheios e uma jornada das mais absurdas - ou não;

3 - George, no caso o protagonista, que compartilha com outros personagens o bordão santa bosta! é um homem comum que acaba indo parar em Nova York depois de abandonar Minneapolis para envolver-se com um estranho grupo que envolve religião, alienígenas e outras teorias conspiratórias que na narrativa tecem-se pelo absurdo e pelo exagero da sátira, mas que como toda boa sátira vai deixando pelo caminho uma trilha de reflexões a serem feitas;

4 - A bem da verdade a leitura superficial do romance pode levar-nos a muitos enganos, o principal, talvez, o de concebermos o romance apenas com uma história maluca em que um homem inexpressivo, mundano no sentido exato da palavra, acaba experimentando uma aventura com alienígenas, reptlianos para ser exato, organizações secretas, encontros sexuais inesperados e improváveis, muitos cus, e uma intensa e extravasada decepção com a vida. O livro até tem tudo isso e mais um pouco, sempre com aquele exagero já citado aqui, mais em suas diferentes camadas poderemos encontrar tanto a melancolia da civilização que talvez como o pai de "nosso George" tenha passado a ver a vida como desnecessária, como a força da narrativa, por mais fakes ou absurdas que possam ser as narrativas, elemento cada vez mais em voga e em discussão nesta década;

5 - De certo modo O filho mais velho de Deus guardados os gêneros e as escolhas de seus respectivos autores acaba sendo uma espécie nacional de O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. Se no romance do autor italiano temos a discussão de teorias conspiratórias mais antigas, medievais, e um tratamento pelo filtro do suspense e da narrativa policial, na obra de Mutarelli veremos as mais recentes teorias conspiratórias [especialmente aquelas que alguém muito vidrado no History Channel ou aficionado em Eric Von Danichen] conduzir este estranho e exagerado enredo que a despeito de sua educação pelo absurdo, acaba dizendo muito desta nossa época. Aliás, vendo saltar pelo mundo, e o Brasil não livre disso, líderes e governos sob a égide das estranhas teorias conspiratórias, o livro acaba de maneira talvez até mesmo alarmante, ser também um retrato destes tempos paranoicos e ambíguos;

6 - Todavia, se fugirmos da superficialidade de leitura, a abordagem psicodélica e bastante alucinada das teorias da conspiração, em seu exagero, traz junto um importante e interessante elemento de análise, que inclusive demanda observação mais atenta que um simples post. Ao construir sua própria narrativa conspiratória, Mutarelli evoca mais do que as teorias em si e suas "maluquices", o poder histórico do "homo narratus" que desde que o mundo é mundo produz e cria suas histórias cuja realidade está muito mais relacionada aos que nelas acreditam do que propriamente na racionalidade dos fatos. Temos portanto uma provocação, pois que Mutarelli de forma repetida coloca na narração e nas narrativas que se produzem a diferença essencial entre os animais e os homens. Se aos primeiros não resta nada além das onomatopeias, aos homens serve o verbo, afinal, lembra-nos o narrador insistentemente "...o homem prega". A seu modo é então uma sátira [também] sobre linguagem e poder;

7 - Além dessa reiterada diferenciação entre os animais e suas onomatopeias e os homens que pregam, há também de prestar atenção noutro elemento relevante da construção estética do romance, a homofonia [e homografia], que em termos de linguagem muitas vezes está relacionada à ambiguidade e, que no caso da sátira, muitas vezes possibilita também o aspecto de humor [como em canções de duplo sentido]. No caso do romance os homônimos reforçam o caráter farsesco da narrativa, bem como, apontam para a necessidade de adentrarmos com mais profundidade as múltiplas simbologias no texto, nesse caso específico o fato de que todos os personagens são homônimos de assassinos famosos ao longo dos últimos séculos;

8 - E a esta altura vocês já devem estar perguntando-se quanto a Nova York, a cidade escolhida para discussão nesse romance. A metrópole nesse caso de fato cumpre um papel de "cidade-cenário" com seu estranho e inóspito personagem perambulando por endereços reconhecíveis a um clique no Google ou a algumas dezenas de sessão de cinema. Deste modo, curiosamente, a cidade a ser discutida pela proposta, acaba ocupando um papel coadjuvante, carregando nas neuroses do pós 11 de setembro talvez sua particularidade mais presente, porque de modo geral Mutarelli representa a "maçãzona" como o grande cenário do mundo e palco das mais loucas teorias, uma cidade em que todas as criaturas habitam, de fracassados como George a reptlianos. Uma metrópole cheia e ao mesmo tempo isolada o suficiente para que suas coisas estranham ocorram e se resolvam sem grandes impactos. Como um cenário, uma cidade que se reconstrói, recebe, mas nunca afaga o suficiente para que se deseje ficar lá. Pelo menos no caso de George;

9 - Temos portanto uma das narrativas mais curiosas de nossa literatura, um romance satírico e com pendores para a ficção científica [talvez mais apropriado o termo ficção alucinativa] com personagens escrachados que burlam limites e fronteiras num enredo cujos elementos estranhos nos levam a diferentes caminhos. É uma jornada que em sua camada superficial certamente é capaz de divertir, ou mesmo entreter, mas cuja virtude é fisgar para o contraste deste humor exagerado com a melancolia presente na visão de mundo de George, protegido por um misterioso grupo que a despeito de sua descrença viverá até mesmo experiências sexuais alienígenas. Um livro que dividido em três partes, em seus dois terços iniciais joga no campo das incertezas, da paranoia, e que no seu último terço adentra o maravilhoso e o fantástico, ganhando com isso certo aspecto caótico, não apenas na quebra de sua estrutura predominantemente linear, mas na própria prosa que se quebra em alguns momentos em aparentes versos. Tudo isso pra dizer que há certos ares de vanguarda no romance, mas uma vanguarda impregnada de diferentes fontes de herança de nossa literatura, entre elas uma boa dose de naturalismo e outra de antropofagia aqui unidas ao exagero do escatológico;

10 - Enfim, O Filho mais velho de Deus é no mínimo uma obra bastante peculiar. Carrega o onirismo dos sonhos mais malucos e o exagero da sátira que flerta com diferentes gêneros. Trata-se de um romance que pode nos enganar e nos levar a estranhas leituras assim como é sua tessitura. Todavia, muito embora não se possa tratar de tudo num post de blog, é obra capaz de suscitar interessantes interpretações que vão desde a fixação do romance pelo furico ao recalque das experiências juvenis que não se desvencilham do sujeito, que como George se afixa a algo de que não pode escapar. Há portanto diferentes portas para se debater este romance que não apenas um deboche e muito menos um retrato encomendado de uma metrópole, é um romance destes tempos doidos e revisionistas em que mesmo os mais loucos pregados podem ser levados a sério.


                   
*Discutirei com mais profundidade alguns elementos tratados nesta avaliação no perfil do projeto Amores Expressos Ufpel que está estudando as publicações da série Amores Expressos.

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