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10 Considerações sobre Sete anos em sete mares, de Barbara Veiga

O Blog Listas Literárias leu Sete anos em sete mares, de Barbara Veiga publicado pela editora Seoman; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Memorialístico e descritivo, Sete anos em sete mares além de uma narrativa pessoal da ativista Barbara Veiga que pelos mares atravessa o mundo, é também uma narrativa acerca de instituições conhecidas em nível global e seus diferentes modelos de atuação, especialmente na área ambiental e marítima;

2 -  O livro é construído num formato próximo ao diário ainda que não fique totalmente preciso o momento em que se dá sua escritura, principalmente porque muitos momentos há a percepção da reconstrução de memória. Trata-se, claro, de uma narrativa pessoal e pela voz da autora que escolhe os pontos e as questões a focalizar em suas lembranças, mas especialmente ao tratar de assuntos mais íntimos percebe-se certo movimento reconstrutivo de modo a dar ênfase e garantir certo clímax a suas lembranças;

3 - Isto posto, se memórias reconstruídas após certo tempo ou anotações do tempo dos fatos, o conjunto dos textos aqui reunidos montam os anos vividos pela estudante, posteriormente jornalista e ativista Barbara Veiga numa jornada global entre viagens pelo ativismo ou por suas aventuras pessoais que percorrem o mundo todo e seus diferentes continentes, embora, claro, a centralidade dos fatos narrados se dão sobre sua participação em diferentes campanhas de ativismo ambiental;

4 - Assim, num texto bastante simples e limpo, a jornalista descreve suas ações junto de ONGS como o Greenpeace e a Sea Shepherd, pelas quais dedica maior parte de seu voluntariado ambiental. Isso, todavia, não significa que teremos nesta publicação informações com maiores relevância ou reveladoras acerca de tais instituições, porque tudo que nos é narrado dá conta da ação e das campanhas e raros vislumbres de questionamentos embora o surjam, não o são suficientes para uma discussão mais profunda e complexa sobre e questão;

5 - A bem da verdade, logicamente, não seria o objetivo de tal publicação, fazer revelações acerca de tais instituições. Entretanto, ao leitor não assimilado - ou doutrinado - pelo discurso institucional de tais instituições (e não confunda-se aqui não estar de acordo com a causa ambiental) a narrativa "de dentro" feita pela autora causa certa curiosidade quanto a adesão e a subjugação a certos procedimentos é capaz de assimilar alguém, ou mesmo enfraquecer as muralhas críticas, isto porque Barbara no papel de narradora lembrou-me um D-503 de Nós, que por aderir a uma ideia ou a uma causa, embora saltem algumas contradições aos olhos, não se mostra curiosa o suficiente para questionar algumas contradições de tais instituições a que acaba pertencendo;

6 - Desse modo temos o olhar de uma adepta, o que faz com que a natureza questionável de algumas escolhas e ações de tais ONGS surjam sem a criticidade possível a quem observa com certa distância. O olhar apaixonado e adepto da autora acaba mascarando - pelo menos a ela - o quão próximo do comportamento de seita acaba revelando-se a luta ambiental travada nos mares pelos grupos destacados, bem como relativiza de certo modo certas práticas autoritárias presentes no funcionamento de tais grupos. Ao leitor que não seja adepto ou não assimilado pelas instituições, embora o texto de Barbara mostre uma coisa, nas entrelinhas o leitor poderá encontrar elementos capazes de problematizar e questionar o trabalho de tais grupos;

7 - E aqui talvez minha principal crítica ao conjunto da obra, pois que a mesma curiosidade jornalística da autora - inclusive em ações infiltradas - a grupos poluidores ou caçadores de baleia não apresenta-se quando de uma série de perguntas que ficam em aberto quanto ao real funcionamento destas ONGS tão influentes no mundo, pois que na narrativa ou pelo menos no apresentado pela autora, apenas avolumam-se dúvidas quanto aos grupos, em parte porque temos um relato de alguém que não chegou à profundidade hierárquica deles e tampouco foi fisgada pela pouca transparência na conduta desta elite das ONGS globais. Além disso, há o fato de que mesmo as contradições às vezes até tocadas pela autora, acabam não sendo aprofundadas. Isso tudo acaba, parece-me tendo certo efeito contrário, pois que ao leitor - especialmente os céticos incorrigíveis como este - fica certa desconfiança quanto ao comportamento destas organizações ativistas cujos procedimentos de ação, a levarmos em conta a narração de Barbara, são feitos com pouca transparência ;

8 - Mas embora tenhamos aqui o foco na atuação de tais instituições há de dizer-se que o voluntariado global foi uma forma de a autora encontrar seu próprio espaço no mundo, bem como conseguir conhecer um pouco mais da vastidão desse planeta, algo que só se faz viajando e através de um grande processo de construção de redes como podemos perceber na viabilização dos diferentes roteiros dela pelo globo;

9 - Além disso, vale destacar que como espécie de diário de bordo, o livro de Veiga faz dos mares nosso oeste contemporâneo, cheio de perigos, armadilhas, e alguma reminiscência selvagem. Seus relatos do que ocorre nos mares, embora possibilitadores de aventuras românticas, descortinam também um lugar tão perigoso quanto qualquer metrópole, um ambiente conflituoso com suas tribos e seus embates vorazes que dão sempre certa tensão aos acontecimentos;

10 - Enfim, este é um livro que o leitor acaba definindo muito sobre ele. Em geral pode ser visto como a narrativa das aventuras pessoais ao mar de uma aventureira idealista - talvez aí a ingenuidade de certas partes - que não só dedica-se a causas globais, mas vive também a aventura humana com seus amores e desilusões. Mas há , talvez os mais chatos como este que vos fala, cuja desconfiança sobre o funcionamento de tais ONGS possa ser ampliado, porque embora totalmente integrada a elas, a narrativa de Barbara mostra como e quanto o todo ainda é obscuro. Isso claro, porque este leitor sempre possui certas reservas com práticas e procedimentos cuja transparência não está clara e onde se relevam condutas autoritárias.




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