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10 Considerações sobre O Despertar - Existência Integral, ou sobre a poesia plástica

O Blog Listas Literárias leu O Despertar - Existência Integral, criação coletiva de Cláudio Furtado, Mauro Andrade e Kerrys Aldabalde e publicada pela editora Jaguatirica. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira: 

1 - O Despertar faz parte de uma manifestação artística que pretende-se mais ampla que as próprias palavras, pois que de acordo com os autores procura "expressar a visão do artista através da plasticidade das letras e da interação entre as diversas forma de manifestação artística na busca da essência da inspiração". Isto na prática importa dizer que trata-se de uma obra que pretende interagir com seu contexto, isso desde seu lançamento e a presença doutras manifestações artísticas. Seria isso a seu autores a "poesia plástica" que fiel aos principais momentos do gênero no país, assume-se também manifesto;

2 -  E não há exagero no uso da expressão manifesto, pois que é o que fazem seus autores na abertura da coletânea de poemas com o seu "Manifesto da Poesia Plástica". Segundo o documento esta poesia "é livre de discriminações, pois seu fito é se fazer entender, independente ao que seja necessário se unir para manifestara sua ousada forma de expressão". De acordo com o manifesto, nesta poesia "alguns temas são fundamentais como integração, interatividade e sensibilização".  Para eles a poesia plástica "unindo e harmonizando letras, formas além de letras, transbordando cores, sons, luzes e também sombras, mostra ao público que suas questões internas são inerentes ao inconsciente coletivo". No sentido em que pensam sua própria obra, os autores expressam em seus poemas o seu manifesto, todavia a este leitor, não sabe-se se apenas o termo "plástica" é uma das possibilidades de definição dos trabalhos que compõe o volume;

3 - Mas antes de qualquer tessitura acerca do livro e do alimento que o abastece, cumpre dizer que quando falamos de poesia as avaliações do conjunto da obra tornam-se ainda mais subjetivas que a análise de um romance, pois que cada poema grita e reclama por uma análise única, e os que habitam as páginas deste trabalho não apresentam diferente reivindicação, vide o potencial de cada poema e seus versos, aqui, diga-se, em sua estrutura livre, carregando a herança de nosso modernismo que vigora desde então, e de forma libertária.  São na ampla maioria, versos livres, com ou sem rimas e que perpassam por uma grande diversidade de elementos e temas do nosso cotidiano social, o que não significa que não tenha certa unidade em seu todo, especialmente quanto a alguns elementos;

4 - Mas retornando à questão da plasticidade de da "poesia plástica", penso que não seria exagero a vermos também como uma poesia naturista. Esse tendência, aliás, tenho visto mesmo em algumas prosas, esse certo voltar à paisagem e à natureza, que no caso do Brasil sempre mantiveram certo vínculo com nossas artes. Nisso vale dizer que quanto ao gênero, temos aqui certa união entre modernismo e arcadismo, pois se os versos são livres e soltos, em grande parte, os poetas voltam-se à natureza, à fauna e à flora, especialmente em suas partes finais em poemas a seu modo ecológicos e ecologistas, o que leva-me quase sempre à palavra naturismo (longe de qualquer relação com o naturalismo, claro);

5 - O naturismo unido ao tom espiritual e místico de muitos poemas é o que nos leva a outra característica a pincelar a obra, sua utopia com boas doses do movimento hippie e a relação de liberdade entre humanos e natureza, trazendo com isso essa busca por integração, sustentabilidade e mesmo algo bastante claro nesta relação um tanto simbiótica, a sua existência por ciclos;

6 - Haverá então nos diferentes (e diversos) poemas essa constante busca pela integração tríade de alma, humanos e natureza unindo seus diferentes corpos, bem como tratando dos diferentes corpos e seus comportamentos nesse caminhar existencial nos planos físicos e espirituais, de modo que há uma busca por transcender o medíocre e as disputas por picuinhas que por vezes tomam-nos em nossa caminhada;

7 - Contudo, se há no todo essa aura naturista e até mesmo utópica e resistente daqueles que ainda acreditam que um outro e melhor mundo é possível, os poemas não deixam de trazer, especialmente na primeira parte, os dilemas e as dores que essa sociedade pós-moderna nos coloca e nos apresenta. Nessa primeira parte, em especial, o indivíduo representado pelos diferentes eu-líricos coloca-se muitas vezes como um sujeito pressionado, controlado e manipulado pela sociedade (aliás, outra questão bastante em voga em algumas narrativas). A bem da verdade há um confronto e mesmo certo ranço, com todos os incômodos que essa palavra e seu uso exagerado me causam, entre cada eu-lírico e a sociedade e suas regras e condicionamentos existentes. Nesses poemas encontraremos certo cansaço, um desgaste com a existência e a sociedade humana, um desgosto muito próprio do distopismo;

8 - Entretanto, parece-me após feita a leitura do todo, essa crítica social às vezes veemente no princípio, bem como o desgaste e a descrença vivida esta a serviço da própria proposta e do caminho a ser apresentado a seus leitores, o que, claro, dependerá de seus leitores;

9 - Aliás, vale dizer ainda quanto à análise dos poemas, o fato de não possuírem cada qual um título, sempre um norte em qualquer interpretação, isso pode nos levar a uma análise por blocos, estes sim titulados e que dão a natureza dos poemas e versos em cada parte da publicação. No final do livro os autores inclusive apresentam uma tabela com o método de criação e do processo do livro que poderia levar um ou outro leitor ao erro de segui-la também no processo interpretativo. Todavia, bem sabemos que a plenitude da "propriedade" das palavras dos autores, termina justamente quando o leitor lhes põe os olhos;

10 - Enfim, O Despertar é em toda a concepção da palavra, uma obra artística, não só por seus versos, mas também por seus elementos visuais e mesmo todo o contexto e processo criativo e divulgador do trabalho. Carrega em si um utopismo não muito fácil de ver-se nos dias de hoje, mas acima de tudo propõe um convite a voltarmos nossas ações a direções contrárias do que vemos na maioria do cotidiano social. É nisso um convite naturista, para muitos, talvez, até mesmo sem lugar nos dias de hoje, o que faz na coleção também um pouco de resistência a frenesi tecnológico do presente. Além disso, como disse, o conjunto firme de seus poemas faz com que de sua diversidade, tenhamos a necessidade de analisá-los um a um, pois cada parte desse todo possui sua força e sua voz específica. Uma obra interessante para os que gostam de arte e porque não, da ingenuidade da utopia.


     

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