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10 Perguntas inéditas para Edilton Nunes do site Stephen King Brasil

O site Stephen King BR é o maior site com conteúdos exclusivos sobre Stephen King no país, cujo acervo além de ótima qualidade, é bastante diverso e completo sobre o universo deste autor que reúne milhões de fãs pelo mundo. Conhecedores do ótimo trabalho de seu criador, Edilton Nunes, resolvemos entrevistá-lo para conhecermos mais sobre este site feito por fãs e também sobre o próprio Stephen King. Veja esta ótima entrevista:


LL: 1. Você administra e publica o conteúdo do maior site de fãs de Stephen King no Brasil. Quando você começou este trabalho e o que te motivou?

E.N: O embrião do StephenKing.com.br surgiu há aproximadamente 12 anos, em 2007. Na época, embora eu já fosse um leitor assíduo do velho Steve (desde 1995), eu havia acabado de conhecer a série “A Torre Negra” (os livros começaram a ser lançados por aqui em meados de 2004, quando Steve tinha lançado o último volume lá fora, se não me falha a memória) e estava muito empolgado com a “mistureba” que ele havia feito naquela saga de Pistoleiros futuristas. Tão empolgado que acabei construindo o primeiro fã site brasileiro sobre a obra, que apelidei, na época, de “Projeto 19”. Reuni o máximo possível de informações que eu consegui sobre os livros, mas chegou um momento em que eu comecei a pensar que gostaria de expandir o conteúdo do site, ultrapassar as fronteiras do universo da Torre e falar sobre os outros livros, filmes, séries, hqs e tudo que fosse possível. Foi aí que três anos depois eu comecei a trabalhar no stephenking.com.br, ao lado de alguns colegas muito competentes, que convidei para participarem comigo, na época, dessa empreitada, e no dia 14 de Setembro de 2011 ia ao ar a primeira postagem dele, sobre uma provável capa para o novo livro da Torre Negra, “O Vento Pela Fechadura”.

LL: 2. Quais são os desafios de gerenciar um site de fãs de autor? Conte-nos os problemas, mas também as recompensas deste trabalho.

E.N: Os principais desafios de gerenciar um fã site se resumem, ao meu ver, em duas palavras: Tempo e Dinheiro. Administrar um site por conta própria, e que apresente conteúdo de qualidade, demanda muito tempo (edição de imagens, produção e revisão de textos, edição de podcasts, etc) e é muito complicado conciliar meu trabalho (sou professor) e a vida pessoal (casado apenas há 4 anos) com o tempo que eu dedico ao site, por isso ele não é atualizado com a frequência que eu gostaria que fosse, embora eu sempre tente corrigir isso, em especial durante as férias e durante o recesso escolar.

Sempre procurei encarar o site como um trabalho feito de Leitor Fiel para Leitores Fiéis e como leitor eu sempre detestei entrar em fã sites e encontrá-los repletos de propagandas. Por isso, o pouco de propaganda que você encontra no site é a lojinha virtual da Amazon (Coisas Necessárias), devidamente direcionada para conteúdo relacionado ao autor. Acontece que quando eu optei por não colocar propagandas no site, eu acabei tendo que arcar com todo o custo de manter ele online, porque todos os servidores gratuitos de hospedagem que encontrei tinham propagandas gigantes e extremamente inconvenientes e eu não queria que os visitantes do site perdessem o tempo deles esbarrando naquelas propagandas chatas. Esse custo, é óbvio, não é barato e sai todo do meu bolso, já que não tenho sequer parcerias com editoras que publicam King no Brasil (não por falta de tentativas, que fique claro, rsrs).

Apesar dos pesares, é gratificante saber que posso dividir minha paixão pela literatura (em especial, pelos livros do Tio Steve), com outros Leitores. Graças ao site fiz muitas amizades, que conservo até hoje e pelas quais tenho um carinho muito especial e isso não tem preço que pague.

LL: 3. Aliás, conversamos pelo Twitter que uma dificuldade para fãs de King é o preço de suas obras. Considera Stephen King um autor caro para se ler? Se sim, quais seriam as razões na sua opinião?

E.N: Lá fora não, mas no Brasil, sem dúvida. Os preços elevados dos livros dele por aqui já renderam ótimos memes, inclusive. Particularmente falando, acredito que eles são caros por dois motivos. O primeiro deles é que o nome “Stephen King” tem bastante peso (ou, como eu costumo dizer, “Steve possui o Toque de Midas Literário”). Tudo o que ele toca vira dinheiro (e muito) em sua conta bancária. Se uma série é baseada em uma obra de Stephen King, por mais duvidosa (“Sob a Redoma” que o diga) que ela seja, ela receberá atenção. No meio literário não é diferente. Todos os livros dele viraram best sellers, desde “Carrie”, nos longínquos anos 70, o que nos leva até o segundo motivo. Embora isso aconteça lá fora, no Brasil, especificamente falando, não acredito que Steve tenha muitos leitores (os dois principais perfis de fã sites no twitter, juntos, não somam nem 4 mil seguidores, por exemplo), mas a base de leitores que ele tem é uma base bastante fiel, que compraria até mesmo a lista de supermercado dele se ele publicasse e eu acredito que as editoras acabam se aproveitando um pouco disso. É claro que também há a questão dos direitos autorais, que provavelmente não devem ser baratos e outras questões mercadológicas, que acabam influenciando na publicação dos livros dele por aqui. Acontece que, embora ele provavelmente venda relativamente bem, não acredito que os livros dele tenham o mesmo impacto que os dos chamados “autores do momento”, como Dan Brown, George R. R.Martin ou mesmo Augusto Cury. Tanto que, com exceção dos momentos em que alguma adaptação alavanca as obras dele (como “IT”, por exemplo), você raramente verá Stephen King entre os dez mais vendidos no Brasil.

LL: 4. Como leitor e fã, você acredita que King seja menosprezado pela, digamos, crítica tradicional? Haveria sentido nisso?

E.N: Ele já foi muito mais menosprezado, mas nos últimos anos a crítica tem sido menos crítica (perdão pelo trocadilho infame) com ele, talvez por perceberem que há sim, em seus livros, muito mais do que mera literatura de entretenimento. Qualquer leitor que se aventure um pouco mais em suas obras, perceberá que ele conhece muito bem sobre o universo que escreve, em especial sobre as nuances psicológicas da sociedade norte americana contemporânea. Sua experiência como professor e sua paixão pela literatura (além, é claro, de sua experiência de vida) provavelmente colaboraram muito para o amadurecimento de sua escrita e isso reflete, entre outras coisas, no reconhecimento do seu trabalho e nos inúmeros prêmios literários que ele já ganhou mundo afora. Em 2015, por exemplo, ele foi agraciado com a “National Medal of Arts”, um título que foi criado pelo Congresso dos Estados Unidos no ano de 1984, com o intuito de premiar artistas e patronos do meio cultural e é considerada como a maior honra individual conferida a um artista em nome do povo norte-americano (ele recebeu a medalha, na época, das mãos do então presidente Barack Obama). Até o meio acadêmico já se rendeu à sua obra. Em 2017 a Universidade do Maine criou, em seu curso de Literatura, uma disciplina voltada especificamente para a análise das obras dele.

LL: 5. O trabalho no site te permite contato com outros leitores de King no país? O que você poderia nos contar sobre o universo de leitores de Stephen King no Brasil?

E.N: Nos primeiros anos em que o site ficou no ar, houve um hiato onde eu não sabia se as publicações estavam ou não alcançando os leitores (na época eu não tinha conhecimento técnico o suficiente para saber disso), então eu fazia o que podia com o que estava ao meu alcance e esperava que isso estivesse acontecendo, que eles estivessem gostando. O feedback dos leitores passou a vir mesmo, de maneira mais efetiva, depois que eu aderi às redes sociais como forma de divulgação, em especial ao twitter e ao instagram. Esses canais permitiram um contato mais rápido e direto com os outros leitores, algo que não acontecia apenas com o site (nem todo mundo tem paciência para usar gerenciadores de e-mail ou formulários de contato). Hoje eu diria que 90 por cento do contato que tenho com outros leitores se dá através dessas plataformas (e do grupo Stephen King Brasil no facebook, do qual sou moderador), onde encontro Leitores Fiéis com perfis bem diferenciados, desde o fanático (que compra tudo que ele escreve assim que o livro é lançado), até o “Old School”, que gasta boa parte do seu tempo em sebos, procurando os livros raros da época da extinta editora Francisco Alves. Uma característica bastante marcante dos leitores de King no Brasil é que os que gostam, gostam de verdade, a ponto de formarem um séquito fiel de seguidores.

LL: 6. Em algum momento você já recebeu algum contato do autor ou de seus representantes acerca do trabalho feito no site, que por sinal, possui um grande acervo de informações? E se não, esse é um desejo, um sonho?

E.N: Infelizmente, não. Steve é um escritor bastante reservado. Ele raramente faz viagens internacionais e costuma dizer que seu contato com os leitores se dá através de seus livros (isso foi agravado por um incidente que ele teve, certa vez, com um leitor maluco que invadiu sua casa acusando-o de plágio). E eu respeito bastante essa posição dele, por isso não sou daquele tipo de leitor que escreve cartas ou fica marcando o perfil dele nas postagens do twitter. O máximo de contato que tive com ele foi quando ele se propôs a responder algumas perguntas de leitores no twitter e eu perguntei se ele tinha pretensões de conhecer o Brasil. Ele respondeu a mensagem dizendo que adoraria, mas que não estava nos planos recentes dele, infelizmente. Mas eu admito que gostaria muito que ele viesse ao Brasil ou que algum dia eu pudesse visitar o Maine e conseguir um autografo dele ou só vê-lo pessoalmente, para dar um olá e dizer o quanto admiro o trabalho dele.

LL: 7. Na sua opinião, quais são os fatores que levam King a conquistar um grande público de leitores em todo o mundo?

E.N: O próprio Steve já respondeu essa pergunta, quando disse que “talento é mais barato do que Sal. O que separa a pessoa talentosa da bem sucedida é muito trabalho duro.” No início de sua carreira, depois de muitos perrengues (recomendo a biografia “Coração Assombrado”, para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a labuta que ele passou até virar um escritor famoso) ele recebeu uma boa ajuda, com o sucesso da adaptação de “Carrie” e “O Iluminado” para o cinema, mas se não fosse o amor pela literatura e o trabalho duro, ele não teria chegado onde chegou. Hoje, mesmo não precisando, ele mantém sua rotina diária de escrita, lançando um ou dois livros todos os anos. Se ele quisesse, com a conta bancaria que tem e com os direitos autorais de suas obras (a cada ano mais e mais adaptações aparecem) ele já poderia ter se aposentado há muito tempo (alguns anos atrás ele chegou até a anunciar a aposentadoria, dizendo que já destruiu árvores demais, mas logo desistiu da ideia). E eu acredito que os leitores enxergam e admiram isso, indiretamente falando. Além, é claro, de suas histórias fascinantes, que embora apresentem, muitas vezes, plots absurdos (o que dizer de um carro que “come gente” ou de um dedo assassino que aparece na pia do banheiro?), são bem construídas e apresentam personagens críveis, que convencem o leitor. O aspecto humano de suas obras, aliás, me fascina muito mais do que o fantástico. Boa parte do Terror de seus livros se dá através do questionamento sobre o que as personagens (seres humanos comuns, até então) são capazes de fazer, se confrontadas com situações absurdas, como em “Quatro Estações” ou “Escuridão Total, Sem Estrelas”.

LL: 8. Aproveitando, para você quais os melhores livros do autor e por quê?

E.N: Steve é conhecido (até certo ponto, injustamente) como o Mestre do Terror Moderno, alcunha que ele ganhou com o sucesso de “Carrie” e “O Iluminado”, logo no início da carreira. O próprio Steve ajudou a construir os alicerces dessa fama, quando escreveu “Dança Macabra” (seu tratado intelectual e “filosófico” sobre o terror na literatura, cinema e outras artes). Na minha opinião, entretanto, os melhores livros dele não são necessariamente de terror. Gosto muito de “Misery: Louca Obsessão”, “Quatro Estações”, “Escuridão Total, Sem Estrelas”, “Blaze” e “À espera de um milagre” (o melhor, na minha humilde opinião), principalmente porque neles ele explora os dramas interiores dos personagens e embora o elemento sobrenatural apareça, ele não é a peça principal. É, quando muito, o catalisador para os fatos que se desenrolam no decorrer da trama, mas “só” isso (se você parar para analisar, na verdade, isso acontece na maioria dos livros dele). É o fator humano que me atrai nessas obras, porque por vezes elas me fazem pensar até que ponto eu mesmo iria, se eu estivesse no lugar daquelas pessoas.

LL: 9. Em algumas resenhas aqui no blog frisamos que King a despeito do que muitos pensam, não se trata apenas de entretenimento, há questões mais profundas em muitos de seus livros. Concorda?

E.N: Sem sombras de dúvidas. Em “Carrie”, lá no início de sua carreira, ele falou sobre o bullying quando esse fenômeno sequer tinha esse nome. Em “O Iluminado” ele toca em questões delicadas como a paternidade e o alcoolismo. “Love: A História de Lisey” fala sobre a dificuldade de lidar com a perda de entes queridos e sobre o quanto “quem fica” sofre. “O Corpo” (conto do livro “Quatro Estações”, que deu origem ao filme “Conta Comigo”) fala sobre o poder da amizade e sobre como “nunca temos amigos com os que tivemos quando tínhamos doze anos”. Em “Gigante do Volante” o estupro dá vazão ao sentimento de vingança da personagem e à força que esse sentimento negativo exerce nela. Enfim... King é tudo, menos “apenas” literatura de entretenimento. Ele choca, emociona, faz rir e surpreende, seja positiva ou negativamente falando.

LL: 10. Para encerrar, conseguiria dizer algum livro (alguma história) que ainda não tenha sido escrita e apenas Stephen King poderia escrevê-la?

E.N: Pode parecer meio bobo, mas eu gostaria muito de ler um livro de contos onde ele diria o que aconteceu com seus personagens depois do “Fim” na última página (com os que não morreram no processo, é claro). Acho bacana o sentimento de revisitar aqueles “velhos amigos” que tive quando li “Dr. Sono” ou quando reencontrei personagens de outros livros dele nos romances da saga “A Torre Negra”, por exemplo. Em alguns casos, isso talvez acabasse um pouco com a magia do final em aberto (aquele que o leitor completa as lacunas), mas seria um preço que eu não me importaria de pagar.

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