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10 Considerações sobre A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto

O Blog Listas Literárias leu A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto publicado pela editora Intrínseca; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - De uma potência desnorteadora, pelo menos aos humanistas e aos de bom senso, A Segunda Pátria ao nos propor uma versão alternativa da história do Brasil, não deixa de sê-lo também um registro de nossos tempos, do aumento da intolerância e do avançar por sobre nós das tenebrosas sombras que tanto causaram horror na primeira metade do Século XX. Trata-se pois sim d'uma escrita provocadora e de uma leitura perturbadora;

2 - No romance, o flerte histórico entre Hitler e Vargas que a história registra acaba ganhando vida e formalidade num secreto encontro planejado em Porto Alegre, e ao invés de um Brasil aliado aos americanos, temos um país submisso e entregue à Alemanha de Hitler. Como pano de fundo disso as divergências e disputas políticas à época, e, ainda, um mergulho num "e se" que para muitos historiadores fora bastante provável devido à admiração do ditador de cá pelo ditador de lá. Sanches Neto aproveita então o universo do poderia ter sido para construir sua narrativa ficcional;

3 - Para isso, o autor numa narrativa em terceira pessoa que por vezes adentra a intimidade de seus personagens, faz uso de dois personagens, o engenheiro negro Adolpho Ventura e a descendente alemã Hertha que dão o caráter de romance à obra em virtude de seus arcos narrativos. Com os dois protagonistas, mais importante ainda é o ambiente, os locais em que se passam a trama, a região sul do país, marcada pela intensa colonização, aliás, sempre vista pelas elites do país como mecanismo de eugenia, inclusive pelo próprio Vargas, de modo que o livro utilização deste espaço narrativo e de suas questões para apresentar a relação alternativa do acordo entre Brasil e Alemanha;

4 - Contudo, vale dizer, sendo inclusive um dos méritos da narrativa de Sanches Neto, o livro não se coloca como uma apontador das características do nacional-socialismo nazista, mas discute sim em grande parte é as causas que levam a determinada parcela da sociedade a apoiar um regime tirânico e genocida como tal, e isso numa perspectiva que encontra ressonância aqui nestas terras, entre colonizadores, mas não só eles...

5 - Nisso veremos a contradição de um povo que fugido das tragédias apega-se a um passado mítico e fantasioso permitindo-se a aderir a um novo sistema. Veremos ainda como o poder nesse caso se movimenta, inclusive elevando aos postos chaves os inaptos que só o chegam a ele por meio da força e da imposição. Revela ainda o papel dos ressentimentos e da intolerância étnica a serviço de um discurso populista e nacionalista;

6 - Mas talvez o mais assustador na narrativa de Sanches Neto seja aquilo que um habitante - caso deste que vos escreve - da região sul pode constatar e confirmar. Esta versão alternativa vive adormecida - e nunca morta - entre nós, pois tais bases feitas na intolerância étnica é uma das verdades sufocadas na região, preconceito que atinge negros, mestiços, os pêlos-duros e mesmo açorianos tidos nos locais de forte colonização como preguiçosos. Quem aqui vive sabe o peso destes estigmas culturais e sociais e o quão forte estes estão introjetados. E não falo pela existência de grupelhos de barbadinhos nazistas que os hão em número demasiado por estas bandas, mas sim de toda uma estrutura social, de associações comerciais a sindicatos, de prefeituras à associação de bairro. As bases desses preconceitos sobrevivem em muitos desses órgãos sociais, de modo que a ameaça paira contínua sobre todos, sempre;

7 - Isso, aliás, é a tristonha constatação dos personagens no romance. A diferença entre os verbos aturar e aceitar é gigantesca, bastando que uma guinada no poder, um líder que vocifere atrocidades para que todos esses rancores e ódios voltem à tona e permitam a tirania contra a humanidade. Reconhecemos isso fácil, naquela piada aparentemente despretensiosa contra essa ou aquela minoria, sobre os julgamentos morais contra esse ou aquele povo geralmente sussurrado entre poucos e só gritado quando Hitlers e seus asseclas tomam a sociedade de assalto. É o que descobrem Adolpho e Hertha em suas jornadas trágicas por um mundo trágico;

8 - Aliás, o livro, creio que estabelece um diálogo interessante com O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro. Ambos vão tratar do ódio e do rancor como ameaça permanente, como uma espada adormecida mas sempre disposta a desferir novos golpes. Golpes contra a civilização e o humanismo. Lembro ainda de Adorno que diz da necessidade de não esquecermos das causas e das condições que levaram ao nazismo, para que assim o não repitamos. A obra de Sanches Neto trilha esse caminho, ainda que num país que a leitura seja feita por poucos, e dentre estes poucos há ainda uma significativa parcela que finja não entender o que lê;

9 - Além disso, embora a construção de uma versão alternativa da história e que talvez por muito pouco não tenha se concretizado, o livro exala por suas tipografias os medos e as tensões, intensificadas especialmente no terceiro ano desta década quando vemos ressurgir no mundo as mesmas chagas que quase destruíram o planeta no Século XX com seus autoritarismos e totalitarismos espalhados pelo globo terrestre. Assim quando o autor desnuda as bases que em sua ficção permitiram campos de concentração no sul do país, legando novamente à escravidão aqueles que estavam libertos, o autor emite um alerta em sinais luminosos e outdoors de beira de rodovia dos grandes perigos que temos pela frente, bem como da necessidade de enfrentamento às ideologias que pretendam desumanizar ou descaracterizar de forma autoritária minorias e oprimidos, linha a qual, diga-se, o país tem ultrapassado com extremo risco;

10 - Enfim, A Segunda Pátria ao nos apresentar uma versão alternativa e ficcional do passado, de forma crua e dura trata também das possibilidades do presente em todas as nossas polarizações e embates. É uma obra que torna tudo muito crível e capaz de transpor para o leitor todo o ambiente de opressão e perseguição criado em sua realidade ficcional. Uma obra trágica e de desfechos emblemáticos, distópicos a seu modo, pois tão duro quanto o tempo da repressão, são o tempos posteriores em que se olha a insensatez humana e o resultados que ela produz.   


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