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10 Considerações sobre Travessuras da Minha Menina Má, de Otávio Bravo ou sobre a potência das obsessões

O Blog Listas Literárias leu os três volumes (I, II e III) de Travessuras de Minha Menina Má, de Otávio Bravo; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre a saga, confira (Em alguns posts sobre a obra o pessoal comentou sobre a semelhança com o título de Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má. Na verdade não é nenhuma coincidência, visto que o autor declara tal referência, entretanto, como este blogueiro ainda não leu a obra de Llosa, não terei aqui de como abordar as relações intertextuais com a obra citada):

1 - Romance ambicioso em três volumes, Travessuras da Minha Menina Má é uma narrativa potente, que além de demonstrar força literária longe dos selos editoriais nacionais, traz novo fôlego ao romance burguês (e isso no bom sentido da palavra) e que acima de tudo trata das diversas obsessões da existência, isso explicitado pelas paixões de seu narrador mas corroborado pela estética do próprio autor que procurar a ater-se de forma minuciosa e digamos não menos obsessiva aos mínimos detalhes de constituem suas personagens de modo que estas tornam-se vividas nas impressões junto ao leitor. Todavia, para adentrarmos nessas minúcias, antes de mais nada precisamos olhar para o tempo que se narra e para o próprio narrador...

2 - Contudo, temos de para isso ter em mente que a saga é publicada em três distintos volumes, I (Avant Les Saisons), cujos fatos da narrativa acontecem entre 1984 e 2007, II (Les Saisons) que a ação transcorre entre 2007 e 2013 e o volume final, III (Aprés Les Saisons) que percorre nosso tempo presente ou próximo a um futuro não muito longe, narrando os acontecimentos entre 2014 e 2053. Vejamos, portanto que as três obras nos trazem distintos recortes de distintas épocas e avança pela especulação de anos por vir, entretanto nesse jogo do tempo, enquanto nosso passado recente cumpre papel relevante em termos de contextos, ao avançar nas probabilidades teremos muito mais uma jornada de mergulho na intimidade pessoal do narrador de modo que não há aqui mais do que tênues projeções de um futuro social, pois o foco será justamente a intimidade e os dramas de seu narrador. Isso, aliás foi um detalhe interessante, porque teremos um jogo criado entre os três volumes de modo que nos dois primeiros a relação intercambiante ente personagens e sociedade será mais nítida, enquanto no terceiro teremos foco total no elemento humano e psicológico de seu narrador e assim de forma curiosa se tornando o contexto externo ao narrador de menor impacto. Dito isso, creio que possamos avançar então sobre a questão do narrador;

3 - Se no ponto anterior destacamos o elemento temporal o fizemos para dar conta de mostrarmos os recortes de cada momento da narrativa e aí o detalhe relevante, seu narrador a bem da verdade já é uma criatura do futuro, um homem em 2053 que em tons memorialísticos refaz pela palavra suas venturas e desventuras percorrendo portanto dos princípios dos anos 80 a metade do Século que por hora vivenciamos. Victor Pridmore é o caçula de uma família inglesa residente no Brasil que entre seus prazeres e desprazeres se tornará conceituado acadêmico de história, entretanto, ao longo da narrativa constantes momentos de ruptura ou decadência, em grande parte motivadas pela relação obsessiva que passará a viver depois de conhecer a jovem Duda, sua menina má;

4 - Considerando aqui toda a subjetividade pertencente ao narrador e em épocas de diferentes experimentações vale dizer que Victor acaba mostrando que ainda há potência na voz em primeira pessoa, visto que a parcialidade existente neste tipo de voz, no caso da obra acaba balanceada pelo aspecto de vivacidade que a narrativa traz, especialmente porque, mesmo atento às minúcias das coisas, as mais de mil páginas dos três volumes guardam ainda lugares recônditos dos implícitos ao mesmo tempo que pincelam de contradições psicológicas suas principais personagens. Com isso quero dizer que Victor é um narrador eficiente e seus dramas trazem suas próprias contradições e podem preservar ainda questões mais profundas e polêmicas inesperadas. De certo modo, temos neste narrador um sujeito que por meio da narrativa faz o balanço de sua vida, embora não julgue a si próprio, apenas mostra ao leitor a quem no final de tudo preservará a liberdade de julgamentos, e esse é um detalhe que fala positivamente acerca do autor;

5 - Todavia, talvez a escolha questionável da narrativa dá-se justamente em sua força como narrativa burguesa, pois nesse sentido os estilo erudito, às vezes arcaico do narrar nos joga a certa desconjunção das coisas. Victor fala como um homem das décadas de 30, 40, talvez, (o detalhe é motivo de brincadeiras da menina má), e aqui vale dizer que trata-se de uma obra de riqueza vocabular pouco vista hoje em dia, mesmo em obras renomadas e acadêmicas, o que logicamente condiz quiçá a um senhor dos tempos de agora, erudito e ainda preso aos arcaísmos. Entretanto, por tratar-se de uma obra narrada a nossa frente, com um Victor já no ano de 2053, que tendo vivido e experimentado não só os dramas, mas as novas linguagens, a sua linguagem neste sentido não deixa de ser desconectada ao tempo que pretende ser de tal modo que essa é uma curiosidade do jogo temporal aí existente, pois isso reforça a sensação de que a narrativa pertença a época alguma ao mesmo tempo que seu melhor desempenho dá-se justamente quando há o intercâmbio entre personagens e contexto social;

6 - Refiro-me especialmente ao primeiro volume. Nele as andanças globais do cosmopolita Victor Pridmore são menos intensa, isto porque neste primeiro volume temos a apresentação de sua infância e juventude num Rio de Janeiro de outras épocas, aliás, de um tempo que o existir burguês na cidade maravilhosa tinha ainda traços românticos e mantinha boa distância das suas tragédias sociais. Isso aliás é tratado pelo próprio narrador que assume-se na bolha burguesa, o que não é demérito, apenas nos traz um recorte específico mas também necessário à compreensão de uma sociedade. No Segundo volume a presença carioca permanece forte já a vida adulta de Victor, embora aí ele já comece a conhecer não só o mundo, mas o universo das tragédias pessoais, ainda que, não passará o leitor imune a julgamentos ao narrador acerca de como ele enfrentará determinados desastres pessoais;

7 - Embora a centralidade da paixão obsessiva nascida ao conhecer Maria Eduarda, a especial atenção para os dois primeiros volumes é justamente porque parece-nos haver bem mais sob a superfície da narrativa do que pode parecer, em especial a relação de intercâmbio e análoga entre narrador e espaço, no caso a cidade do Rio de Janeiro. Se por um lado da saga, a narrativa termine em seu terceiro volume percorrendo o mundo, em especial a Europa e a Inglaterra, é a relação entre o Rio e Victor que parece desenvolver certa simbiose. O que pretendo dizer é que consciente ou não, a degradação moral e pessoal do narrador-protagonista percorre caminhos paralelos ao da cidade. Se na infância e na juventude de Victor somos levados a um Rio de Janeiro mítico, até mesmo nostálgico de tempos em que os problemas sociais não chegavam ao asfalto e que jovens burgueses podiam vivenciar o verão da lata, ao presente que a degradação da cidade é descrita até de forma tênue, mas escancarada pela decadência de Victor Pridmore, em grande parte, claro, já pelas tragédias pessoais vividas, especialmente pelas perdas que a vida lhe "proporciona", por seu comportamento perante o mundo e outros, e claro, pela relação conturbada que passa a estabelecer com Duda levando-se a uma queda gigantesca em nosso tempo presente, algo que se tomarmos também com analogia à cidade talvez não seja grande absurdo;

8 - Vejamos que até o momento não tratamos do relacionamento obsessivo de Victor e Maria Eduarda, romance que além da referência assumida, acaba trazendo outras influências de relações existentes marcadas pelo fogo da juventude e aquietação da idade. Quando conhecem-se, Victor já é bem mais velho que Duda e ela entra em sua vida marcada por suas próprias tragédias e decepções. Claro que temos aqui que descontar a perspectiva parcial do narrador, que até não procura julgar ou apresentar julgamentos prontos sobre a garota, de tal modo que as motivações do comportamento inconstante dela permanecerão sob os mistérios daquilo que um autor não onisciente desconhece. Deste modo o que nos resta é as dores e os fracassos de Victor a cada ida e volta de Duda, e isso falará justamente das fraquezas e da obsessão em não ver o que a leitor muitas vezes está visível, pois sim, parece-me que é possível o leitor dissociar-se do narrador para compreender Duda, o que é mais um elogio à narrativa. A bem da verdade, a insistência obsessiva de Victor, especialmente no terceiro volume, em dados momentos levam-nos ao enfado por sua insistência e suas atitudes desproporcionais. Isto tem a ver também que nesse volume, bem mais no que o dos outros, não adentramos um contexto social, mas sim a uma mente cheia de perturbações e incongruências que é a de Victor Pridmore;

9 - Portanto, podemos ver que o fato de nesse post não poder tratar de todas as questões pertinentes da obra reforçam nossa percepção de tratar-se de narrativa ambiciosa e qualificada capaz de abrir-nos distintas portas de interpretação, entre elas as mais polêmicas e capazes de adentrar nossos tabus, entre eles a pedofilia, pois há em pequenas nunces, trejeitos e falares do narrador que poderiam nos apresentar pequenas marcas desse drama que só ampliaria as complexidades desta personagem tão rica em elementos a serem debatidos;

10 - Enfim, Travessuras da Menina Má, aproveitando a erudição de sua linguagem, é romance de garbo. Rico em muitos sentidos e capaz de provocar diferentes portas de interpretação. Na perspectiva que opta narrar o faz com exímio domínio literário, e não receio dizer que deveria fazer companhia às melhores publicações da literatura brasileira pois tem sumos com polpa e sabor, especialmente ao ver deste leitor, em seu volume inicial, que propicia ao ler o Rio de Janeiro pela perspectiva adotada, também uma leitura nacional. Reforço uma vez mais que trata-se de uma grande obra de nossa literatura que provavelmente se descoberta por outros círculos, poderá desempenhar importante papel.




    

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