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10 Considerações sobre Portões de Fogo, de Steven Pressfield, ou Isso é Esparta!

O Blog Listas Literárias leu Portões de Fogo, de Steven Pressfield publicado pelo selo Marco Polo da editora Contexto; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Imersivo e narrado com grande consistência, Portões de Fogo leva-nos diretamente às Termópilas, transportando-nos ao epicentro dos épicos acontecimentos de resistência de Leônidas e os 300 de Esparta aos avanços do rei Persa, Xerxes, de modo que somos levados a 480 a.C e a uma batalha que resiste até hoje no imaginário cultural;

2 - Para tanto, enquanto narrativa histórica, Pressfield, não descuida das escolhas estéticas da obra literária, de modo que para nos transportar com boa dose de autenticidade faz o uso de dois narradores contemporâneos aos acontecimentos, a de um historiador do império de Xerxes, que registra os depoimentos (narrativas) de Xeones, escudeiro de um dos pares espartanos durante as sangrentas batalhas nas Termópilas;

3 - Tais escolhas estruturantes da narrativa constituem interessante efeito em busca de certa autenticidade dos acontecimentos, especialmente porque procuram infundir a natureza de testemunho, visto que Xeones, de ligação curiosa aos espartanos é escolhido para a função "do um para contar a história", e assim levar aos Persas o conhecimento dos costumes e da filosofia guerreira de Esparta, e assim, por meio dessa escolha acaba soando verossímil, havendo, claro, as marcas de nosso tempo e das nossas línguas nessa reconstrução histórica, mas ainda assim sendo bastante eficiente enquanto ambientação;

4 - Além disso, vale destacar ainda que não trata-se puramente de uma narrativa das Termópilas, pois ao reconstruir sua própria história enquanto narra a Xerxes, Xeones não só constrói-se enquanto personagem, mas também busca retomar e pensar sobre boa parte da cultura grega e em especial a espartana, marcada por suas virtudes enquanto guerreiros, até mesmo trazendo certa humanidade àqueles que conhecemos de seus feitos em guerra;

5 - A bem da verdade, Pressfield pela voz de Xeones procura estabelecer relações sociais que buscam dar algumas explicações da coragem e da abnegação espartana, espelhada por meio das escolhas de seu rei, Leônidas, mas também de um conjunto de outras personagens que interagem nesta teia social de conceitos e filosofias muito próprias. Portanto, procuro dizer com isso que Xeones, como muitas vezes faz apartes em sua narração aos que registram, procurará em lembranças de acontecimentos anteriores aos das Termópilas para tentar apresentar e compreender a postura de Esparta, e consequentemente, com isso falar da sua própria relação com a cidade de guerreiros;

6 - Então, ao mergulharmos nas lembranças de um prisioneiro, que assim como nas Mil e Uma Noites, necessita narrar, Xeones recuperará sua própria existência trágica, sua paixão ao mito espartano, além de trazer para narrativas um círculo maior que simplesmente Leônidas ou apenas pertencentes aos 300. Desta forma o escravo dará vida, ao conceder-lhes espaço na narrativa, a mais personagens que ganham destaque, como Dienekes, Alexandros, Polynikes e Arlete, que de certa forma surge como modelo social da mulher espartana, que na narrativa ganha bastante importância e relevância;

7 - Dito isto, vale dizer então, que ao leitor do romance, não só sobre a guerra específica tomará consciências, mas também certa representação social daquele período, suas estruturas, seus conflitos, e especialmente sua estrutura a época, somada a vários elementos da cultura grega;

8 - Enquanto narrativa das batalhas e da guerra, o livro nos produz ainda uma leitura crua e despida de romantizações da violência, algo especialmente percebido nas descrições em campo de batalha quando a carnificina e a morte produzem visões dantescas, mas extremamente condizentes com a barbárie da guerra e da morte provocada por ela. Tudo isso, claro, estabelece certo jogo de contrastes entre a filosofia do narrador e dos demais combatentes e a realidade prática de terrenos compostos por pilhas de cadáveres, vísceras e entranhas embaladas como bebês, enfim, no front, a guerra não perde suas matizes de horror;

9 -  Temos portanto uma obra de vigor e que não apenas dedica-se ao elemento guerra e guerreiros, mas permite um olhar mais amplo sobre tais fatos históricos, especialmente ao pincelar suas personagens com dúvidas, anseios e medos bastante humanos, e ainda que tais anseios e complexidades tenham as marcas do avançar dos tempos, não nos impede de imaginar assim como propõe a narrativa que embora vivessem num tempo histórico bruto e violentos, seus sujeitos guerreiros assim como surgem na narrativa de Xeones, estavam mais longe do mito que hoje os cercam, mas da fraqueza das carnes e dos organismos sociais que não permitem outra existência que não pela ponta de uma lança, uma espada...

10 - Enfim, Portões de Fogo permite diferentes interpretações e leituras de sua narrativa, que logicamente variará conforme erudição e capacidade de penetração de seus leitores, mas que independentemente de qual seja seu leitor, enquanto obra é um romance consistente e narrativa vigorosa capaz de atrair diferentes olhares, desde o que interessa-se apenas por batalhas sangrentas àqueles que procuram pelo fundo histórico e suas diferentes filosofias e teias sociais.


   

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