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10 Considerações sobre O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmem Maria Machado

O Blog Listas Literárias leu O Corpo Delas e Outras Farras, de Carmen Maria Machado publicado pela editora Planeta/Minotauro; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Potente e acre como o sangue a escorrer, O Corpo Dela e Outras Farras é a pungente seleção de oito contos que têm como unidade tratar das angústias e das tragédias femininas numa literatura tanto lésbica quanto feminista e que desnuda um universo opressor, às vezes até mesmo claustrofóbico, a pressionar constantemente as protagonistas e as habitantes das respectivas narrativas;

2 - Exceto Especialmente Hediondas que discorre sobre 272 visões de Law & Order: SVU por meio de pequenos verbetes, os contos que compõe o livro acabam demonstrando unidade estética ultrapassando as barreiras do insólito, estando mais para o realismo mágico tão presente na América Latina (e nem sempre visto no Tio Sam) que por exemplo, ara o mero horror ou suspense. Na verdade, a narrativa de Carmen parece-me rivalizar e aproximar-se de autores como Cortázar e no Brasil, Murilo Rubião. Aproximar-se no sentido da opção estética, mas distanciar-se porque no caso temos esse realismo mágico, mas também insólito e surreal a trabalhar para as perspectivas e ideologias femininas, opção está que ganha força porque justamente o estranhamento de sua estética é exitoso sobremaneiras quando joga-nos os dramas, dando-nos a melhor percepção da luta feminista;

3 - Vejamos então que trata-se sim de uma obra de forte cunho político, cujo engajamento não e mascarado. Nesse sentido, alguns contos podem soar mais ou menos panfletários, mas estando todos eles, sem exceções ligados ligados às questões do corpo da mulher e cuja percepção mais distópica é justamente a de abordar o quanto independentemente do conto o corpo acaba não sendo tão somente de sua "proprietária", mas algo a instigar a curiosidade dos outros, a sofrer as preços sociais, e não só isso, algo a construir relações conflituosas com a própria mulher, de modo que tais corpos a partir da inserção de elementos insólitos dão vazão para a discussão de comportamentos da contemporaneidade em que se permanece a estabelecer sobre o corpo da mulher diferentes condicionamentos;

4 - É o que vemos, por exemplo, em O Ponto do Marido. O título, aliás, já trata-se de um grande golpe na boca dos estômago, porque tira da mulher algo que lhe é próprio. No conto as mulheres possuem uma fita enrolada ao seu corpo, na verdade trata-se de seus corpos, que como veremos na narrativa da protagonista, a desesperança surge porque por mais que proteja a sua fita, que tente fazer isso algo só dela, chegará o momento que a fita, que seu corpo será tomado. O drama aqui é ampliado pela impossibilidade da plenitude de seu controle, não porque o não queiram, mas porque não as permitem;

5 - A ausência ou a invisibilidade de um corpo não significa que não seja sobre ele que se fala. É o caso do conto Mulheres de Verdade Têm Corpos, cuja realidade insólita traz mulheres que vão apagando-se, desaparecendo mediante as imposições da moda, do mercado, dos padrões criados e cuja lamento terrível da narrativa é a tentativa fracassada de libertar aquelas que continuam imóveis, atadas por costuras sociais opressivas;

6 -  Algo semelhante ocorre em Oito Bocados, que não fala apenas sobre imposições de um padrão estético, mas vai além disso, creio eu, porque a percepção de inadequação do corpo no caso desse conto não está apenas ligada à questão da beleza, mas a pertencimento, inadequação, medos e angústias capazes de cortar da carne de alguém uma porção monstro de temor. A natureza estranha e melancólica da narrativa cria então uma percepção desoladora e incômoda e cujo corpo está na centralidade do drama;

7 - Além disso, a sexualidade, claro, está diretamente associada às questões do corpo, e Inventário vai tratar disso enquanto o mundo vai sendo desolado por uma peste e sua narradora conta tal apocalipse a partir de suas experiências sexuais;

8 - Mas em se tratando de sexualidade, o conto Difícil em Festas mais uma vez vai escancarar o quando as teias sociais retiram das mulheres o poder de escolha em tudo, inclusive em sua própria sexualidade, que no caso da narrativa se dá em virtude dos desejos, das demandas e da autoridade do outro, de tal modo que reconhecer-se nesse mundo é um tanto quanto mais complicado;

9 - Assim, basicamente dominado por personagens lésbicas, os contos expõe o abismo entre homens e mulheres, mesmo quando estas estão no protagonismo da ação, mas são inevitavelmente acossadas por eles e pela própria sociedade de tal modo que suas atmosferas surreais e insólitas tratam com extrema força as questões e revelam as faces de diversos dramas;

10 - Enfim, O Corpo Dela e Outas Farras entra de sola nas angústias de um mundo hostil a suas protagonistas, mesmo àquelas mais fortes, por isso sua radicalidade que parece exibir uma barreira que parece-nos hoje quase intransponível, pois a despeito dos avanços do feminismo, os contos de Carmen dão conta que ainda há muito a ser feito, até porque como trata a obra, sofrem as mulheres ainda em controlar algo que deveria ser-lhes de pleno domínio, o próprio corpo, que invadidos aqui por um realismo mágico a realçar os contrastes, revelam as diferentes forças opressoras que lhes causam tantos danos.



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