sábado, 29 de abril de 2017

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10 Considerações sobre Kyoto, de Kleiton Ramil ou sobre o poder dos bambuzais

O Blog Listas Literárias leu Kyoto, de Kleiton Ramil publicado pela editora InVerso; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – A dubiedade é uma característica presente em Kyoto deixando ao leitor sentimentos conflitantes numa suspensão entre o marasmo e a ação por causa de sua narrativa de aparente superficialidade mas com a desconfiança de que por trás disso tudo há algo mais, entretanto, tão tão escondido que se torna quase impossível chegar até o centro de sua alma;

2 – O romance nos traz histórias e personagens que já vimos e lemos por aí, contudo vivendo suas próprias experiências. Estas, a despeito de suas particularidades reencenam uma tragédia shakespeariana contando a separação de Murano e Naomi, ela sequestrada de volta ao Japão, pelo pai, enquanto, ele, um músico desconhecido e pobre perambula pelo Rio de Janeiro;

3 – Há em ambos notadamente um amor forte e talvez indestrutível, contudo, já neste momento nos damos conta de algo que conduzirá os personagens por praticamente toda a obra que é a falta de ação de cada um deles, mas especial em Murano, já que ela em súbito momento é capaz de romper as cordas de titereiro do destino; 

4 – Porém, no todo, ainda que os protagonistas movimentem-se, só o fazem pelo impulso e combustível de terceiros como se fossem os dois meros passageiros a mercê de para qual estrada lhes levará o motorista de suas vidas. Isso se acentuará mais com os desfechos e soluções finais que andam alheias aos passos dos personagens (Não muito, mas ainda assim alheias a Murano e Naomi) 

5 – Creio que talvez isso seja um dos fatores a ampliar a percepção de marasmo que a narrativa passa ao leitor. E não nego que há na obra tentativas de ação e movimento, mas mesmo estas quando surgem chegam e se vão mergulhando tudo novamente numa atmosfera de comiseração e aceitação a tal ponto que mesmo o final feliz soará inverossímil diante da confirmação de que é do destino a principal condução desta obra; 

6 – Além disso, a tentativa de demonstrar complexidade contrasta com o singelismo e superficialidade dos personagens que em muitos momentos entregam-se a frases prontas, a clichês e senso comum de tal forma que compromete a leitura. Ademais, em certos momentos tais acontecimentos prejudicam a própria caracterização de determinados personagens, como o soar estranho de um japonês lascando de pronto a necessidade de “relaxar e gozar” ao melhor estilo Mata Suplicy; 

7 – Somado a isso exposto anteriormente soma-se a inclemente naturalidade dos personagens diante do absurdo ou do tenebroso, como o fato de um crime acontecido diante de Naomi não causar dramas interiores algum, no máximo curiosidade por ir mais a fundo nas desconfianças daquele homem que a aprisionava no Japão e que chamava de pai. Por sua vez Murano também age com grande naturalidade diante o que poderia incomodar a outros e mesmo que fale verbalmente de seu passado e seus dramas, estes não parecem de forma alguma impressioná-lo tanto; 

8 – Então, chegamos até aqui quando vale dizer que esta é uma obra que me causara expectativas, talvez por isso ainda insista tentar buscar e encontrar algo escondido sob sua camada de superficialidade, porque afora esta desconfiança tudo acaba ficando nesta primeira camada textual, límpido e transparente como a história de seus personagens; 

9 – Dito isto, portanto os navegadores pela história de Murano e Naomi encontrarão uma história de amor tradicional do amor proibido temperado com uma narrativa criminal que resolve-se por si só enquanto suas personagens absorvem e refletem as vozes mundanas e simples do nosso cotidiano enquanto o destino se encarrega de conduzir os protagonistas ao ápice de toda história de amor; 

10 – Enfim, Kyoto é um romance talvez contraditório, e este contraditório diga-se muito mais pelo contraste entre o esperado e o entregue, que ao fim nos deixa esta sensação de marasmo e simplicidade em meio a um e outro conflito que se desenrolam e desfecham com a naturalidade da vida real ainda que abra espaço para a inverossimilhança e os clichês de determinados momentos.



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