quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

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10 Considerações sobre Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár ou como florescer virtudes

O Blog Listas Literárias leu Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Os Meninos da Rua Paulo é um destes romances de formação que certamente deixará suas marcas nos leitores, ideal para os tempos de hoje, porque, inclusive trata de questões que nos parecem um tanto distante neste mundo moderno em que as virtudes e as falhas humanas quando da juventude se constituíam quase sempre num aprendizado coletivo em que os valores se formavam através da experiência;

2 - Todavia, vale ressaltar ao leitor de hoje que se precisa levar em conta a distância contextual histórica entre o momento da narração e a leitura em nosso presente, pois o olhar de Molnár ainda que construído do particular para o universal, retrata uma época bastante específica, numa Hungria que avança seu crescimento urbano e envolvendo grupos de jovens que detinham as ruas ainda como espaço físico que lhes era próprio. Além disso, o contexto histórico explica a quase plena e total ausência feminina na obra, bem como justifica o texto mais erudito carregado nas mesóclises que talvez cause estranhamento aos leitores de hoje;

3 - Aliás, ao falarmos de espaço físico, eis aí talvez mais um elemento interessante na leitura do livro, pois a ameaça ao grund, um pedaço da cidade ainda não tomado por edifícios e que se torna a razão de conflito entre dois grupos específicos de garotos pelo espaço e por poderem jogar seu tradicional pela, é um contraste com o que era antes, num início em que a metrópole foi ficando cada vez mais vazia de pessoas, exterminando espaços de convívio público até chegar os dias presentes em que esse isolamento é praticamente total e que histórias como as do grupo de meninos da Rua Paulo é quase impossível;

4 - Mas acima de tudo isso, esse romance juvenil que é colocado entre os clássicos do gênero e fundamental para a formação de milhares de leitores, é uma obra de constituição de valores, especialmente do moldar de caráter cujos personagens desfilam uma série de virtudes geralmente marcadas pela honra, pela ética, coragem e mais do que isso, da constituição de laços indissolúveis e distintos que demarcam uma profunda mudança transformando meninos em homens;

5 - Contudo, não se deixa de chamar a atenção e ser pauta para reflexões que a narrativa e a aventura de proteger o grund se constrói a partir da militarização já que os rapazes da Rua Paulo constituem "um exército" com suas hierarquias e suas patentes. O próprio enredo traz uma visão positiva da ação bélica e de certa forma reproduz discursos que justificaram tantas outras guerras, e, ainda, dando à luta aspectos heroicos além de transmitir a mensagem da possibilidade de ascensão pela guerra, modelo que, porém, certamente é bastante embebido em seu contexto histórico publicado pouco antes da Primeira Guerra Mundial;

6 - Mas o livro nos surpreende do princípio ao fim, pois há em sua atmosfera uma carga tensa que se avoluma e não sabemos bem como vai terminar até que mesmo tendo fortemente marcada a presença militar, ao fim, nos soa como ironia cruel os principais desfechos da obra que para além das lágrimas que nos cobra pela leitura, querendo ou não, põe em xeque os motivos da luta e de certa forma nos apresenta preços caríssimos que não deixam de nos impactar fortemente;

7 - Aliás, a tensão final e a dramaticidade que virá "a cobrar tal preço" apresenta uma transição justamente pela aproximação cruel de dois extremos da vida que raramente se chocam, a juventude e a morte, e principalmente por isso torna tudo tão mais profundo e acaba exaltando ainda mais os valores dos meninos da Rua Paulo que de fonte a inimiga tão tenaz e trágica percebem o momento da passagem da infância para a vida adulta de uma forma tão intensa que os moldará para o todo sempre;

8 - A experiência da narrativa que inclusive encontra adeptos de ter sido narrada por algum integrante da turma da Rua Paulo, nesse sentido, especialmente ganha peso, pois de fato ao termos um narrador em terceira pessoa que por certos momentos é tomado pela intrusão do autor com intensa pessoalidade e emotividade - vide as inclusões confessionais na turma e o uso de diminuitivos em momentos específicos - nos dá certa percepção memorialística em que um possível integrante do grupo relembre numa vida já adulta tal momento de passagem e transição tão marcante como o são geralmente aqueles pedaços específicos de vida que grudam-se a nós ou para valorar nossa coragem ou para intensificar nossos medos;

9 - Por tudo isso, temos portanto uma obra maravilhosa que embora aborde uma infância doutro contexto histórico e social, nos traz questões tão humanas e necessárias mesmo no dia de hoje para profundas reflexões acerca da amizade, valores e caráter numa obra que não perde em ação e personagens belamente construídos;

10 - Enfim, justifica-se nesse caso o porquê de Os Meninos da Rua Paulo ter-se consolidado ao longo dos anos desde sua publicação como um clássico da literatura juvenil tendo conquistado milhares de leitores em redor de todo o mundo com uma narrativa intensamente bela, carregada de nuances e mensagens de valor, mas não deixando de ser menos dolorida, pois ao cabo da narrativa os acontecimentos se exacerbam deixando ao fim aquele amargor de uma transição que obriga-nos a enfrentar as ironias e as contradições apartando definitivamente a infância das agruras da vida adulta. Ou seja, é uma obra sobre crescimento e evolução, mas ao contrário das ficções de auto-ajuda, Ferenc Molnár o faz com o brilhantismo e com a capacidade que tão somente o literário é capaz de proporcionar às reflexões humanas mais profundas.




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