10 Considerações sobre Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg ou como ser tragado pela narrativa

O Blog Listas Literárias leu Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg publicado pela editora Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Cidade em Chamas é puro deleite pois extremamente impressionista é capaz de envolver-nos em sua narrativa de forma que passamos a crer na realidade de suas personagens que habitam uma tumultuada Nova Iorque nos anos 60 e 70 numa publicação digna da grande arte de narrar e capaz de fazer com que suas mais de mil páginas voem diante de nós como o tempo, com suas complexidades e histórias dão densas que dotam duas páginas de vida, de pulsação. Cidade em Chamas é um livro que pulsa enquanto o absorvemos;

2 - Mas as qualidades da obra não param por aí. Há uma série de fatores que demandariam olhares específicos sobre o livro, pois o que é marcante neste trabalho é sua riqueza, seja de conteúdo seja de estética que fica difícil escolher por qual ponto dedicarmos nossas observações. É uma obra em que há tanta coisa, uma imensidão, um mundo tanto de riquezas externas quanto internas á constituição psicológica de suas personagens; é uma obra que em partes e no todo há tanto para se olhar e comentar que nos inebria falar desta leitura. Aliás, essa construção com partes tão ricas e intensas como o todo que surge disto não é a toa, afinal, a Gestalt Terapia vez e outra é citada no livro, e não creio que seja uma coincidência;

3 - A bem da verdade o romance é uma grande teia cujos fios interligam-se unindo personagens tão bem elaboradas que tornam-se vívidas diante de nós. Essa teia é inclusive uma grande demonstração prática de como construir uma narrativa complexa e bem elaborada, porque tudo vai se conectando de forma magistral no desfecho das tramas, estas contadas com diversas quebras de linearidade que exigem do leitor penetração total na ficção. Todavia todo o clímax está centrado no blecaute de 1977 por qual passou Nova Iorque, uma noite de perturbações sociais, de revolução, mas que no caso da obra é o desaguar de vidas que nos surgiram antes deste "dia D'. Suas personagens principais terão encontros e passagens marcantes nesta noite tenebrosa, contudo para eles a noite é um fator a somar-se na degradação ou na redenção de suas vivências pessoais que ganham narrativa a partir do "nó" do qual trata-se o crime em pleno Central Park envolvendo Samantha Cicciaro;

4 - A partir disso temos uma narrativa onisciente em terceira pessoal que salta de personagens e personagens ao mesmo tempo que salta no tempo elaborando as frágeis e intrincadas relações que dão vida a uma descrição do surgimento do movimento punk, o pós-humanismo entre outras reflexões e debates acadêmicos que vão surgindo nesta época. Contudo, paira como uma sombra malévola figuras que personificam o mal e representam a corrupção capitalista mesmo dentro de grupos revolucionários, o que com o avançar da trama vai tão somente reforçando a sensação de que é um livro carregado de falhas humanas cujas ideologias vergam-se sempre diante nossas fraquezas e fragilidades. Do mesmo modo, essa narrativa em terceira pessoa em muitos momentos é entrecortada pelas vozes pessoais por meio de fanzines e manuscritos originais que mais do que ampliar a percepção sobre o todo do romance, integram-nos em partes essenciais em que personagens documentam e testemunham esse período intenso de suas vidas. Tudo isso será muito interessante quando do final do livro suspeitas do leitor vão tomando forma até a revelação final de autoria cuja voz então vamos resgatando e reconhecendo durante a trama lida compreendendo seus exageros e suas ficções;

5 - Outro detalhe ainda no aspecto da narrativa é o encantamento sobre como a obra vai desabrochando diante do leitor. Tudo isso porque o autor não precisa dizer, ele simplesmente revela, isso no campo da ação ou na própria constituição psicológica ou de ambiente. Em nenhum momento ele aponta o dedo, apenas descreve, alias, em muitos momentos numa prosa bastante lírica, e então através desta descrição o leitor passa a integrar e a construir esse todo pois já está absolutamente envolvido;

6 - Contudo, não deixa a obra de apresentar alguns elementos já conhecidos. Temos aqui os conflitos familiares dentro dos grandes impérios econômicos, no caso o dos Hamilton-Sweeney, e claro a luta pelo poder, a rebeldia entre filhos e pais, a negação da continuidade do império etc... Há ainda o pesado jogo do capital especulativo, o sujeito detentor das informações e dos informantes, o casamento em ruínas e os segredos que se guardam neste tipo de círculo, muitas vezes apresentado com um imenso vazio. No entanto, tais elementos que já conhecemos em diversas abordagens aqui torna-se meno diante da constituição humana das personagens, é como se trata a coisa, de uma forma tão intensa e pontual que faz do livro um novo totalmente original a partir de coisas que já vimos;

7 - Além disso, a obra ainda que não um romance policial parte de um "nó" típico das narrativas de crime. Há uma investigação, há inclusive um detetive com as melhores características que o "noir" poderia exigira a não ser a sobriedade. Esse crime, ou essa tentativa de crime é a partida inicial para desenrolar o novelo dos fios da teia, ao mesmo tempo que os imbrica numa confluência de caminhos. A partir do tiro em Samantha vamos sendo apresentados à paisagem de uma cidade em decadência, ao movimento político do pós-humanismo, à arte, á cultura punk, aos fogueteiros, além de sermos apresentados a figuras impressionantemente humanas, incríveis mesmo, mas no fundo tomadas por fracassos e falhas que as põe em rota contra si mesmas;

8 - Dá pra dizer também que carrega o livro certa desilusão. Um desencanto com as ideologias, a figura daquele que se torna aquilo que combatia. No fim os "rebeldes" trabalham para o sistema, o sistema se engendra nos revolucionários. Ademais para além das ideologias será na obra os dramas e as experiências individuais que demarcarão destinos e personagens. O reencontro, o perdão, tudo por fim é também como diz o autor dos relatos "uma forma de exorcizar seus fantasmas". A atmosfera aqui não nos traz luz, é blecaute mesmo, tanto o de 77 quanto o da atmosfera que caracteriza o romance. Caminhamos por trilhas escuras, sombras que tem de serem reveladas aos poucos entre um salto e outro no tempo e nas perspectivas;

9 - Por fim, diante de tudo que já foi dito aqui é como se o livro fosse capaz de receber uma imensidão de coisas, dores e dramas. Do homossexualismo a Aids, da contracultura à doutrinação religiosa. Tudo está ali nas suas páginas, tudo carregado de conflitos e ilusões. Para compor ainda mais a excelência com que nos apresenta a narrativa, ao final não há punição, há continuidade, há novas oportunidades e há muito mais que isso, fios a que demandará o leitor trançar e uni-los à grande teia;

10 - Enfim, Cidades em Chamas é espetacular. Uma destas obras que precisamos conhecer e ler. Você literalmente é absorvido para suas páginas, uma confluência intelectual e cultural capaz de nos embriagar com sua prosa, suas descrições que são uma aula prática de narrativa, sua estrutura que nos provoca e nos entrega algo tão profundo quanto a própria experiência. Uma leitura imperdível.

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10 Considerações sobre Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg ou como ser tragado pela narrativa 10 Considerações sobre Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg ou como ser tragado pela narrativa Reviewed by Douglas Eralldo on quinta-feira, julho 21, 2016 Rating: 5

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