10 Considerações sobre Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley ou como é chato esse Victor...

Esse tem sido o ano dos clássicos não lidos forem colocados em dia. Tá pagooo! Dessa vez o Blog Listas Literárias leu Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley, publicado pela editora Pandorga. Neste post veja as 10 considerações de Douglas Eraldo sobre o livro e descubra como é chato esse Victor...

1 - Entre o horror e a ficção científica, Frankenstein segue atraindo e renovando-se entre leitores e leitoras. Diante um clássico consolidado como esse, teríamos novas coisas a falar? Pode ser que não, pode ser que sim. Por isso, em nossa análise nos dedicaremos a simplesmente reagir à leitura desta obra que, a nosso ver, tem um dos narradores mais pedantes da literatura e cuja autocomiseração muitas vezes se torna irritante, sim, estamos falando dele, Victor Frankenstein. Mas já falaremos dele, antes, porém, devemos observar ainda que rapidamente do que se trata a narrativa;

2 - Em síntese, Frankenstein narra a busca de Victor, um curioso estudante de química, por concluir seu projeto científico, no caso, criar vida, vida humana; o que consegue, concebendo a criação de uma criatura que após a criação tornar-se-á sua grande nêmesis pois isso acarreterá em desgraças e vinganças no embate tenebroso que se estabelece entre ele e sua criação. Tragédias essas, sempre tão próximas a ele, e que, não fosse suas relutâncias e comiserações, ter-se-iam resolvido de imediato. E não que fóssemos concordar com Victor, caso ele resolvesse de imediato, pois que, talvez um dos elementos que contribuam para a permanência da obra seja a ambiguidade com a qual podemos recepcionar a criatura, seria ela um monstro tenebroso, ou a grande vítima da narrativa? É uma questão que permanece na sociedade. Mas detalharemos isso, logo a frente;

3 - Quanto à forma que Shelley constrói o romance, temos a prevalência da narração em primeira pessoa do próprio Victor, que ao ser resgatado por Walton em meio a mares congelados, fica semanas recontando suas histórias e remoendo suas desgraças. É uma narração febril, e como dissemos, carregada de uma autocomiseração incapaz de esconder as fugas do próprio Victor de suas responsabilidades. A bem da verdade, em grande medida estamos falando de um protagonista cuja obra inteira resume-se em fugir da responsabilidade de suas escolhas. Mas, embora narrado por Victor, o romance começa com as epístolas de R. Walton à irmã, que servem de introdução à aparição do narrador, Victor. Do mesmo modo, a obra encerra-se com cartas, quiçá, com a finalidade de expressar alguma realidade diante os fatos escabrosos narrados por Frankenstein;

4 - Feita essas premissas iniciais, ainda é importante falar quanto à genealogia. Não raro, Mary Shelley é incluída entre as pioneiras da ficção científica. Não nos parece. Embora consideremos a metafísica e sua presença na FC, parece-nos aqui, muito mais metafísica. Um metafísica, já antiga, inclusive. Embora narrativa do século XIX, as premissas científicas da trama de Victor está muito mais para os magos alquímicos do século XIV, que propriamente um cientista. Inclusive o fato de Victor nunca elucidar como criara sua criatura é uma questão relevante. Aliás, narrativas posteriores transformam Victor em um manipuladore de cadáveres, o que não é o caso do original. O subtítulo de Prometeu Moderno, inclusive sugera a manufatura com barro. Na verdade, talvez poderíamos pensar que o que tenhamos seja justamente uma obra de seu tempo que abre-se à modernidade;

5 - Nesse sentido, não à toa, o Fausto de Goethe e Frankenstein são aproximados por leitores. Em ambos temos a estrutura mitológica do Fausto e suas ambições. Contudo, ainda que, de fato, Victor Frankenstein seja um Fausto nos principais elementos que possam caracterizar um Fausto, especialmente a ambição pelo conhecimento,  todavia, ele e o Fausto de Goethe seguem caminhos diametralmente opostos. Ocorre que Frankenstein segue aprisionado ao Fausto original do século XIV, o Fausto luterano editado por Johann Spies. Frankenstein é um Fausto da danação, como em Spies e Marlowe. O conhecimento é causa do castigo de tragédia inescapável, enquanto em Goethe, passa-se a operar um outra ideia;

6 - Entretanto, não podemos dizer que as alegorias em Frankenstein simplesmente reproduzam a mesma pedagogia do Fausto de Spies. Poderíamos pensar na obra enquanto alegoria da condição humana a partir de seus discursos religiosos. Pensando desta forma, ser-nos-ia muito mais relevante focarmos nossos olhos na criatura, e se assim a chamamos, porque é assim que é. A criação de Frankenstein, após seu entusiasmo inicial, passa então a ser descrita sempre associadas a termos religiosos pejorativos, diabólico, demoníaco, além descrição grotesca e abjeta. A criatura, o próprio demônio, segundo o criador Victor. Mas vejamos que, de modo geral o que temos é um criador, um deus moderno, Prometeu Moderno que cria sua criatura e esta volta-se contra o criador, quase como se Shelley estivesse iniciando a percepeção do começo do assassinato de Deus pela humanidade. 

7 - Além disso, o desfecho de Victor e de criatura são emblemáticos, ele um Fausto que recebe a danação, mas também a criatura, vítima da danação permanente, de um exílio incerto como se a alegoria começasse a construir a compreensão, estamos sozinhos por nós mesmos... nosso criador voltou às costas a nossos pedidos... se escolhido esse caminho para interpretação, poderíamos encontrar coisas interessantes;

8 - Mas se encontramos muitas questões para falar da obra, por outro lado, precisamos confessar que este foi um clássico cuja leitura não nos entusiasmou como imaginávamos. Há questões bastante incômodas na leitura e momentos cruciais da narrativa, pareceram-nos frágeis, como a criação da criatura e sua posterior fuga. Há certo atropelo e precipitações no narrar, bem como, todas as escolhas para se manter a névoa sobre certas cenas acabam não nos convencendo de todo;

9 - Porém, nada supera nossa antipatia para com o narrador. Que voz pedante. Mais do que isso, Victor Frankestein passa remoendo suas desgraças enquanto, a qualquer leitor, é bastante perceptível que as coisas sempre estiveram ao seu alcance para soluções distintas. Na verdade, um covarde. Não conseguimos ver a criatura como vilã, sua trajetória parece-nos querer reverberar a velha máxima, "o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe", de modo que é fácil ter alguma empatia, para com ela. Ainda assim, não podemos negar que o fim "do monstro" sempre esteve ao alcance de Victor, pendante e covarde. "Ai, nossa, eu estou vivo... todo mundo à minha volta, ó céus, ó azar o meu...", como se não pudesse ter matado seu "filho" ou realizado então o acordo de dar-lhe uma companheira. Ocorre que toda sua caçada, por fim, vai se tornando inverossímil;

10 - Enfim, em nossa caçada aos clássicos não lidos, eis aqui uma outra leitura que, ainda que não nos tenha agradado de um todo, que a nós, algumas cenas não tenham nos convencido, uma narrativa com muita coisa a se dizer. Além disso, uma leitura que deve ser lida principalmente pelo fato que o imaginário que se construiu depois sobre a criatura Frankenstein (que nem nome tem no livro), é um bocado diferente de suas origens.

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