10 Considerações sobre Cama de Gato, de Kurt Vonnegut ou como diria Bokonon... é o que tínhamos para hoje!

 O Blog Listas Literárias leu Cama de gato, publicado pela editora Aleph [via MEC Livros]. Confira neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro ou sobre sátiras que não nos fazem rir, mas pensar...:


1 - Jonah é o narrador de Cama de Gato, que em primeira pessoa, em tese, queria escrever O dia que o mundo acabou. Um homem "azarado" em contato com aqueles que seriam os responsáveis pelo fim do mundo. Um apocalipse estruturado sob os fantasmas e os mortos da bomba atômica. Em síntese, o livro narra - ou tenta reconstruir - a partir do dia em que a bomba atômica cai sobre o Japão. Jonah quer escrever sobre este dia a partir do dia de um dos criadores da bomba, Felix Hoenicker. Assim, em uma espécie de reconstrução documentarista e biográfica ele faz contato com seu karass, todos eles pessoas ligadas à bomba atômica. Nessa jornada por esecrever sobre Hoenicker, Jonah então encontrará os filhos do cientista, viajará para uma republiqueta de bananas, na América Central, descobrirá uma nova religião, o curioso e debochado bokononismo e ainda terá de enfrentar um novo fim dos tempos devido a uma invenção ainda mais mortal que a bomba atômica, o gelo-nove;

2 - Nessa pequena introdução já podemos perceber quantas e porosas fronteiras constituem essa narrativa reflexiva e, a despeito do humor e da graça, o quão tensa, densa e sombria análise, não só da bomba atômica, mas também uma espécie de divã da própria ciência ela é. Assim entre a ficção científica, o romance histórico e documental, o que Voennegut nos entrega com predominância é uma sátira ácida e uma crítica voraz à guerra e a ciência que a instrumentaliza, ainda que, de certa forma centrada na alienação de um único homem aos seus interesses "exóticos" e distanciados de uma coletividade, uma "alma" isensível e incapaz de poderar seus próprios engenhos;

3 - Diz-se que o antagonista de Cama de gato, Felix Hoenicker é a versão de Konennegut de Openheimer, principal cientista na construção da bomba atômica. Embora não explícito, o narrador Jonah parece querer reconstruir o dia da bomba buscando ressaltar a estranha - e diabólica - normalidade na vida pessoal do homem que criou artefato tão destrutivo. As cenas bucólicas do dia que a bomba caiu enquanto vida de Hoenicker e família, seguros, fazendo o mesmo de sempre, enquanto milhares de vidas eram dizimadas e a própria ordem mundial era reorganizada e reconstruída então com um novo medo absoluto - o que reforça o terrorismo da situação - : o fim do mundo atômico. Tudo isso coloca a narrativa no campo da sátira, cujo humor existe, mas não do modo escrachado. Ainda assim uma sátira do que há de pior na humanidade e em muito nos Estados Unidos;

4 - Nesse sentido, a narrativa é um olhar de questionamento tanto à bomba atômica, à conduta ética de uma ciência que não pondera ou estabelece limites para suas criações, que não faz análises de probabilidades e viabilidades, mas também dos próprios meios e conceitos políticos dos Estados Unidos e sua política bélica e intimidadora. Ou seja, a sátira de Vonnegut não tem apenas um objeto como alvo de sua crítica;

5 - Obviamente há a sátira e à crítica à ciência que expande-se sem critérios e compromissos humanistas, como, por exemplo, inventar uma bomba atômica. A irresponsabilidade da ciência é um dos elementos satirizados por Vonnegut, entretanto, no processo e estrutura de sua sátira, ele, no entanto, ao centrar na misantropia de Felix Hoenicker, um homem sem qualquer laço emotivo - e humano - com as pessoas, nisso inclusa a própria família, cujos três filhos herdeiros serão contatados por Jonah para escrita de seu livro, de certa forma pessoaliza uma questão que deve ser coletiva. Fica-se com a sensação que a frieza do cientista Hoenicker, sua alienação sentimental, sua estranheza, que tudo isso é a fonte da insensibilidade que o leva a criar algo tão destrutivo. No romance, aliás, a bomba atômica é o menor dos problemas, pois para além dela, o cientista inventara algo ainda pior [elemento que leva a narrativa à ficção científica], o gelo-nove, cujas partes foram divididas entre os filhos e produzirá ao fim do romance novas e ainda mais danosas cenas apocalípticas em uma pequena ilha totalitária na América Central;

6 - Outro foco da sátira, obviamente, é a nação que propicia e viabiliza tal invenção que, de modo geral, até hoje é o maior ataque terrorista do mundo: a bomba atômica. Sim, porque o lançamento das duas bombas atômicas pode ser classificado como ataque terrorista, já que terrorismo na exegese do termo está a intenção de impor medo pela força e violência com objetivos políticos. Bingo! Logo, Vonnegut satiriza os Estados Unidos debochando e com talvez as cenas mais escrachadas do livro, atacando especialmente a ideia vendida do "bom mocinho". Tais momentos se dão especialmente no avião em que Jonah viaja para San Lorenzo, onde um dos filhos de Hoenicker tornou-se ministro. No avião e na republiqueta de bananas, o deboche para com a ideia de que todos "amam" a América é trazida pela narrativa em diversos momentos;

7 - É também na ilha de San Lorenzo que Vonnegut ironiza outro costume humano: a mitologização e as religiões, apresentando a curiosa religião bokononista com a qual Jonah tem contato na ilha. Bokonon, idealizador da nova seita, criada com fins políticos, é uma espécie de meu malvado favorito, um pária que precisa ser pária para que o mito circule com maior força e com isso forneça estabilidade à ditadura de San Lorenzo. Curiosidade é que Jonah torna-se bokononista, e isso parece-nos fortalecer a sátira que aqui tem um terceiro alvo: a religião;

8 - Mas diga-se que o bokononismo e como ele penetra no próprio narrador é um dos grandes feitos do livro. Jonah descreve todo o processo de nascimento de uma religião, cujos ritos são exóticos e curiosos. Entretanto, se de um lado o bokononismo é também um elemento satírico, de outro, é fácil seduzir-se por ele, especialmente por certas aproximações a um estoicismo que talvez nos permitisse um olhar mais cínico para com tudo, até porque o cinismo é a aura de todo o bokononismo e do próprio líder, Bokonon;

9 - Somando-se a tudo isso, que por si, já torna a leitura interessante, o que ajuda e torna ainda mais dinâmica a leitura da narrativa são suas centenas de capítulos curtos. São 127 capítulos pequenos e sempre com movimento em suas cenas, o que torna o livro uma leitura mais que voraz. Além disso temos uma narrativa do absurdo, pois são imagens do absurdo que vão surgindo diante do leitor a todo momento, abbsurdos que porém contatam com a própria história humana. Além disso, tal estilo, vale reforçar, de modo algum retira da obra sua capacidade de mergulho mais profundo, pois precisamos nso recolher constantemente para refletir sobre o que lemos em suas páginas;

10 - Enfim, de uma capacidade crítica ímpar, Cama de Gato é um olhar que se vale da sátira e do bom humor para não só reconstruir um dos episódios mais sombrios da humanidade, bem como nos propiciar uma reflexão profunda, especialmente, nos que se refere a uma necessidade de autocrítica daquilo que tanto é nosso apogeu, como nos é nossa grande desgraça: a ciência. A ciência e o que nós, humanos, fazemos ou desejamos fazer com ela. Talvez por isso o maior pecado do livro seja centralizar demais na figura de Hoenicker enquanto todo um sistema o criou.

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