10 Considerações sobre O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, ou porque o mundo não presta pra chuchu

O Blog Listas Literárias leu O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger publicado pela Editora do Autor. Neste post confira a fita de Douglas Eralldo sobre o livro, um dos mais polêmicos e controversos da literatura norte-americana:


1 - Narrado por um adolescente de 17 anos, Holden Caufield, o livro suscita polêmicas quanto à linguagem, à rebeldia juvenil para com a sociedade e acima de tudo, para com a hipocrisia humana, entre tantos outros aspectos que sejam da própria obra ou por fatores externos, como a própria natureza arredia de seu autor, J. D. Salinger, ou aos supostamente crimes influenciados pela obra, especialmente o assassinato de John Lennon. Tudo isso torna a narrativa um tanto misteriosa quanto perigosa, das coisas proibitivas (os banimentos da obra contribuem para isso), mas será que é de fato para tudo isso? Trata-se de um livro bom para chuchu?

2 - Bem, antes de mais nada, cremos que a última linha do item anterior e nosso próprio título do post evidencia uma questão importante. Publicado parcialmente pela primeira vez em 1945/1946, Holden é um jovem de seu contexto histórico e com a linguagem daquela época (obviamente uma linguagem a afastar-se do culto e do formal, para a adesão a gírias e dialetos de uma juventude rebelde), e isso é bastante perceptível na tradução desta edição, que precisa recorrer por sua vez a termos e gírias que ao leitor de hoje estão bastante datadas, como "essa fita", os repetidos "pra chuchu" que aos olhos de hoje até nem mais soam agressivos, diga-se. Mas enfim, há certa datação em termos de linguagem, mas não no âmago do que pretende o livro, Holden extravasa seu pessimismo em um contexto de saída de uma das maiores tragédias humanas - não que a guerra esteja presente na obra - em puro contraste e desvelamento das hipocrisias humanas;

3 - De certa forma Holden principia o jovem burguês que desperta para o seu pequeno-grande mundo de ilusões e mentiras. Filho de família abastada, um advogado novaiorquino, alguém diria em termos de hoje que ele seria um "socialista de iphone" (a gente nem concorda com esse termos, rs), perambulando de escola em escola sempre sob o signo da rebeldia e do não pertencimento, mas com a proteção que a classe e a grana lhe permitem. Sua narração trata especialmente de sua última expulsão escolar e dos dias que fica a vagar antes de retornar para casa dos pais em Nova Iorque. Nesse vagar pela megalópole também nos leva a outros períodos de sua vida, à suas lembranças, memórias... enfim, a um conjunto de experiências que o faz detestar a humanidade, as máscaras usadas em sociedade... Holden é incapaz de compactuar com as hipocrisias, é como se seus olhos permitissem olhar todo tempo para as pessoas de modo a vê-las no mais recôndito íntimo de suas putrefações morais e éticas. Os colégios por quais passara como microcosmo de um mundo poder, infecto, um mundo em que pessoas não prestam;

4 - Alguém diria que ele é azedo, outros dirão que o que faz é meter o dedo em uma ferida. Tudo não passa de encenação, de cumprir papéis, vide nisso seu repúdio ao cinema. Holden compreende o mundo como algo falso, mentiroso e os poucos que não jogam esse jogo de cartas marcadas são expelidos como bernes. Dentre tantas coisas que se levantam sobre o livro, talvez devessemos olhar com mais atenção para como retorna à sua memória à lembrança do jovem que se suicida após colegas de internato ofenderem o jovem das piores formas. Holden interpreta o mundo com angústia, analisa a falta de consequência aos maldosos... em seu mundo, de proteção e dinheiro, no centro do sonho americano, todos podem ser imbecis, idiotas, marginais... todos festejam a miséria humana da ilusão de um paraíso capitalista desprovido de ética qualquer... parece-nos que é isso que tenta gritar enquanto nos narra sua indignação para com o mundo - o seu mundo...

5 - E essa indignação nos chega com a verborragia e com a linguagem juvenil e disruptiva, fonte de tantas polêmicas. Mas seria possível ser diferente? Falar amaciadamente? Logicamente não, é um jovem pistola, um jovem narrador pistola que quer gritar na cara de todo mundo, vocês não prestam, bando de otários... nossa educação é uma farsa, nossas vidas é uma farsa... tudo farsa...

6 - Mas ao mesmo tempo que manifesta sua indignação enquanto anda pela cidade, imensa cidade, toma porres, participa de encontros com pessoas que ojeriza, mas dialeticamente e contraditoriamente, gosta e sentirá falta, Holden surge como um errante em busca de um farol. Odeia o mundo, odeia as pessoas, ao mesmo tempo corre e busca por elas, precisa de uma tribo, de uma identidade...

7 - E aqui precisamos dizer que, e buscando não soar de modo a reduzir o livro, de certa forma, a repercussão da obra por vezes nos pareceu exagerada. Mesmo a rebeldia de Caufield retumba em enorme fracasso da forma como tudo se encerra. Seus lamentos evaporam-se ao fim e nos resta seus dias mais amargos, mas que porém, conforme último capítulo, retorna à segurança do próprio mundo que pareceu tanto odiar e renegar. No fim uma rebeldia sem coragem, incapaz de romper consigo mesmo. Quase um anticlímax. O final de certa forma torna tudo mais enfadonha, de que lhe serviu a rebeldia? Mas como dissemos, talvez aqui queríamos mais devido a toda a aura que se forma acerca do livro, que mesmo tendo suas camadas de complexidades, ao fim...

8 - Aliás, falando em complexidades é que a narração verborrágica e voraz do jovem ao mesmo tempo que nos atiça a seus rancores contra o mundo, do mesmo modo entrega-nos migalhas de muito que não é dito, mas que merece no mínimo certa atenção. O impacto do testemunho do suicídio em um internato é um desses casos assim como certa fixação de Caulfield nos tarados e nesse sentido com episódios relevantes e específicos que podem sustentar possíveis abusos ou no mínimo alguma relação problemática com a sexualidade. Embora supostamente tenha tido relações, o episódio de Holden com uma prostituta num hotel pardieiro é significativo. Ele não consegue ter relações. Suas alusões a tarados e afirmação de conhecê-los amplia isso e, claro, o enigmático episódio com o professor Antoneli na última noite sua fora de casa;

9 - Junta tudo isso e temos um personagem que está além da mera rebeldia, como geralmente é lido Caufield. Há nuances que ficam à margem do que está na superfície. Holden saiu para o mundo e conheceu o seu pior, seja nos internatos que passou, nos clubes que frequenta, nos bares... ninguém presta sob sua ótica porque talvez ele tenha passado por coisas que ao cabo não são ditas textualmente, mas podemos remontar a partir das pistas que ele vai deixando, como se nós, leitores, também o sejamos uma espécie de analista. Aliás, em seu mundo hipócrita e ilusório é emblemático e soma para nosso anticlímax o fato de ele ir para em um analista, que em certa medida tem a função de adequar ao mundo o inadequado, reconfigurar sua própria mente, mexer com as lentes que vê o mundo;

10 - Enfim, icône da rebeldia e da linguagem disruptiva a desmascarar as hipocrisias sociais, O apanhador no campo de centeio apresenta-se como a própria metáfora que Caufield cria sobre si mesmo. Um apanhador a segurar os jovens que caem em um abismo, nisso o desejo de proteger uma juventude que caminha sem propósito, quem sabe incapaz de ver todo o terreno ilusório que os leva a um despenhadeiro. Com isso temos o contraste entre a derrota final de Caufield - talvez sua vitória - e a única e ingênua utopia em toda a narrativa: a ingenuidade do desejo de aparar. salvar aos que caem desse abismo, a ingenuidade da possibilidade de qualquer proteção em um mundo tão repugnante. Salinger e seu narrador Holden Caufield são extramamente exitoso em mostrar que o mundo, o mundo burguês-capitalista de uma metrópole ao mesmo tempo tão cheia de gente, mas tão solitária, não presta pra chuchu;

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