O Blog Listas Literárias leu Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, publicado pela Editora Globo; neste post confira as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro e descubra porque os mortos sempre contam a verdade...
1 - Publicado originalmente na década de 70 durante os anos mais duros e violentos da ditadura civil-militar no Brasil, incidente em Antares é muito provavelmente nosso grande clássico a tratar do autoritarismo presente nas estruturas sociais do país, bem como, é a obra que com melhor eficiência desmascara as idissioncrasias e as hipocresias da família tradicinal brasileira de bem, desmascaramento que o faz com a autoridade que só os mortos têm para jogar as verdades na cara da sociedade;
2 - O romance se passa na fictícia cidade de Antares nos confins da fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, entretanto, na constituição histórica da cidade de Antares até o seu famoso acidente, o que temos é expressão máxima do Realismo Maravilhoso em solo brasileiro em uma narrativa que dialogará com nosso próprio processo histórico, inclusive com a clássica nota "neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados por seus nomes verdadeiros" que reforça as intenções de diálogo - e crítica aos processos históricos em andamento;
3 - Aliás, aqui cabe uma breve digressão, já que embora escrito naquela década de 70, atrozmente, o livro dialoga com nossa história recente, de 2015 aos tempos de Bolsonaro, os de agora... As neuras de parte da sociedade brasileira com medo de um fantasma do comunismo, como próprio romance demonstra, máscara de reação a qualquer avanço social no país, as hipocresias da gente de bem, que na superfície são conservadores, mas no submundo atiram-se às perversidades distintas, enfim, um livro do passado que narra o presente traumático que vivia, passado esse que infelizmente tende a se reproduzir...
4 - Mas afinal, do que trata o romance? A primeira parte da narrativa cuida em traçar toda a gênese fundadora da cidade de Antares, por óbvio, uma gênese que bem poderia ser a de qualquer cidade gaúcha daquele ou mesmo deste nosso tempo. A constituição das elites locais, o coronelismo demarcado pela disputa de famílias tradicionais, a tal verve conservadora e antipática a progressismos, as características de certa demarcação do gaúcho, tudo isso vai sendo trazido da formação e história da cidade até o fatídico dia 13 de dezembro de 1963 (uma sexta-feira) em que ocorre o incidente que traz alguma fama à cidade que sequer existe no mapa;
5 - O incidente será a ponte criada entre a ficção e o processo histórico pré e durante o golpe de 1964. Antares, a despeito da distância geográfica, das comunicações arcaicas da época, vive a ebulição de um país divido e polarizado, um país cujas elites aderem a reacionarismos como forma de manutenção do status quo. Com o fundo histórico-político do país, Antares tem no Incidente o inóspito que a filia ao Realismo Mágico tão importante para a literatura latinoa-americana como forma de abordar e refletir acerca das nossas realidades, por si só, insólitas e por vezes inacreditáveis. No referido dia, sei mortos insepultos devido à greve dos coveiros da cidade retornam à vida, sim, para muitos nossos primeiros zumbis da literatura brasileira, já que, revoltados pela falta de sepultamento, ocorrerá uma grande assembleia no coreto da praça, um grande escândalo e cujas repercussões posteriores inclusive desnudam com maestria o processo recorrente de memoricídio brasileiro;
6 - Para além de mortos que voltam, o incidente se torna um escandâlo justamente porque, entre eles, um advogado, Cícero Branco, desempenhará o papel de promotor, expondo todos os crimes, "pecados", idiossincrasias e hipocresias da elite social antarense. Usará as prerrogativas dos mortos, para apontar o dedo sem dó, escancarando corrupções, abjeções, perversidades e todo tipo de situação feita pelos moradores importantes de Antares;
7 - Sim, o que ocorre na praça é um verdadeiro processo carnavalizado em que a ordem social sofre ruptura e "a tradicional família de bem" é desmacarada diante a uma platéia aturdida (muito interessante o fato de Veríssimo deixar o povo, os mais pobres, conscientemente à margem do que acontece, apenas espectadores da peleja da burgesia antarense, polarizada politicamente). Como os mortos são inimputáveis juridicamente, Cícero pode denunciar e confessar tudo, não sofrerá consequências, já que ele próprio testemunha a participante desses muitos crimes, torturas, roubos, infidelidades, corrupções de toda ordem... Ou seja, as denúncias dos mortos insepultos fazem cair todas as máscaras das elites sociais da cidade, sejam da situação ou da oposição... as tiranias, os autoritarismos e toda sorte de violência são expostos em praça pública de modo que o exposed dos zumbis antarenses abala as estruturas sociais e políticas da cidade;
8 - E o mais interessante do romance, em nossa concepção, surge pós incidente. O tempo do romance vai da pré-história (datando a cidade) até os anos sessenta, data do incidente. O tempo externo está nos anos setenta, no auge do AI-5 e da repressão. Assim, de certo modo, o pós incidente é quase que uma antevisão de Érico do que contecerá com a memória do próprio golpe, já que, ao passo que passado o incidente as elites sociais de Antares criam a "Operação Borracha" com ações sistemáticas para o esquecimento do escândalo e o próprio incidente, o autor apresenta estruturas e raízes de um dos grandes problemas nacionais: o memoricídio, nossa tendência de apagamento dos traumas sociais e históricos, em resumo, a tendência brasileira de jogar tudo para debaixo do tapete;
9 - Cremos que é justamente na abordagem da memória social e coletiva enquanto campo de embates e disputas políticas pela hegemonina do narrar - e assim controlar passado, presente e futuro - que está a maior de todas as virtudes do romance de Érico Verissimo. O autor compreende as fragilidades e complexidades dos conceitos de memória e de que modo a memória coletiva é um constructo que pode ser alterado conforme as intenções de diferentes forças e poderes políticos, além, é claro, das implicações dos traumas sociais no processo. De certa forma o que ele faz é demonstrar que a memória é uma construção, uma disputa narrativa de forças sociais que buscam valer seus próprios projetos de controle social, de modo que os métodos da "Operação Borracha" surgem como principal diálogo com nossa formação histórica dada a apagamentos, esquecimentos, ou seja, o passar a borracha nas personalidades incômodas ou nos atos históricos que colocam o status quo - a família tradicional de bem - sob qualquer risco...
10 - Enfim, muito mais que uma narrativa sobre mortos-vivos, ou acerca de uma cidade esquecida do Rio Grande do Sul ou mesmo documento ficcional do período da ditadura civil-militar, Incidente em Antares é obra essencial na interpretação e compreensão de contradições e práticas recorrentes no processo social e histórico da sociedade brasileira. É leitura indispensável para entender os problemas do país.

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