10 Elementos comuns entre Quadrinhos e Literatura

 A questão é polêmica e a pergunta incômoda, afinal, quadrinhos é literatura? Essa é uma querela das mais rusguentas e ferida complicada de se meter. Como vocês sabem, pensamos que quadrinhos se não são literatura, no mínimo é parente bem próximo. Aqui julgamos que... bem, não afirmemos nada. Mas trazemos antes um pensamento do narrador de O grifo de Abdera de Lourenço Mutarelli um vagante bem recebido nos dois mundos "Muitos dirão que ele nunca fez um livro, mas Oliver fez sua HQ. E, para mim, um álbum em quadrinhos pode ser um livro. Ao contrário, um livro nunca será um quadrinho". Epa, temos alguma distinção, inclusive há trabalho em que Mutarelli meio que afasta a ideia de quadrinho como literatura, mas... mas a nós hoje, independentemente da resposta, pretendemos compartilhar 10 elementos comuns partilhados entre quadrinhos e literatura, confira:

1 - Artes narrativas: vamos começar pelo óbvio e mais básico, ambos são artes narrativas. Nosso post sobre direito à literatura traz algumas concepções de Antonio Candido e de modo mais largo literatura é arte e literatura a ele são as formas de fabulação que a humanidade construiu para narrar histórias/estórias e transmitir cultura. Quadrinhos e literatura estão nesse campo da fabulação, ambos narram estórias, o contar é o princípio básico dos dois, literatura e quadrinhos contam estórias, ainda que de modo diferentes;

2 - Narradores: Alguém dirá que exageramos ao chamar os quadrinhos de arte narrativa, afinal, não tem necessariamente um narrador, é possível contá-las como no drama, por meio apenas da ação em banda desenhada - e até existem quadrinhos apenas ilustrados, sem qualquer elemento verbal - É um ponto, mas primeiro, não esqueçamos que se o teatro em si não é considerado literatura, hoje é bem tranquilo colocar o texto dramático nesse campo, afinal, assim já o fez Aristóteles em sua divisão primordial dos gêneros. Em segundo lugar é que de modo geral muitas vezes os quadrinhos trazem um narrador, inclusive há elementos estéticos característicos para mostrar ao leitor a palavra de um narrador. O recurso é bem comum, por exemplo, mas narrativas de heróis que tanto popularizaram o gênero. Enfim, a presença de narradores em ambas as esferas é elemento significativo;

3 - Personagens: Estamos ainda no campo das obviedades, mas precisamos lembrar que a essência tanto da literatura quanto dos quadrinhos pode ser compreendida pela existência de personagens. No livro em que o professor Assis Brasil sintetiza o seu trabalho na oficina de escrita criativa o personagem ganha grande destaque e com razão, as grandes narrativas são lembradas em grande parte por seus personagens: todo mundo reconhece um Drácula, um Frankeinstein, um Dr. Jekyl originários da literatura como reconhecem um Batman, um Clark Kent, um Watchmen... Quadrinhos e literatura se tornam inesquecíveis quando nos trazem personagens inesquecíveis;

4 - Tempo e espaço: Quadrinhos e literatura também compartilham a relevância das categorias tempo e espaço em suas feituras. Quando pensamos em tempo, é possível, por exemplo, tempos distintos, como o psicológico e o cronológico - algumas histórias de X-Man são exemplares nesse sentido. Do mesmo modo o espaço é constituinte relevante em ambas as narrativas, com a sutil diferença de que na literatura o espaço nos chega pelo poder descritivo dos autores eenquanto nos quadrinhos a imagem já está ali em substituição à descrição. Todavia, ambas as narrativas prescindem de tempo e espaço em suas estruturas;

5 - A questão dos gêneros: aqui talvez seja um ponto em que se precise debruçar, mas convenhamos, nem mesmo na teoria literária a questão dos gêneros é muito pacífica. Temos as divisões aristotélicas bássicas entre os gêneros narrativo, lírico e dramático, mas que bem sabemos, mesmo nessa tríade as fronteiras nunca são bem definidas (a poesia narrativa, por exemplo). O quadrinho quase eu uma forma híbrida entre o dramático e o narrativo, mas pensamos que muito mais próximo de estar sob o guarda-chuva do segundo, um guarda-chuvas que permite que ambos compartilhem subgêneros como Horror, Ficção Científica, Suspense, Policial, etc.

6 - Polifonia e dialogia: Quadrinhos se expressam pela linguagem, tal como a literatura. A existência de uma linguagem humana é que viabiliza a existência de ambos, bem como, ambos acabam sendo formas que a linguagem humana encontra para se expressar. Assim ambos partilham de características que Bahktin visualizou em sua teoria literária. Os quadrinhos assim como a literatura são dialógicos, ou seja, não são formas isoladas em si mesmas, estão em diálogo com outros textos, ou seja, relacionam-se com outros textos (os mangás, por exemplo, a despeito de sua origem oriental, as principais obras lidas aqui no Brasil, estão em intereção com textos ocidentais, especialmente os de natureza judaico-cristã). Do mesmo modo os quadrinhos são polifônicos, como as obras literárias o são, por exemplo, como negar a polifonia em muitos arcos de Batman?

7 - Arquétipos: talvez um pouco mais evidenciados nos quadrinhos, mas tanto ele como a literatura parecem reproduzir os arquétipos conceituados por Carl Jung. Os arquétipos desempenham papéis relevantes em ambos;

8 - A jornada do herói: seria injusto pensar os quadrinhos como um subproduto da literatura, por isso nossa noção de compartilhamento e traços e elementos comuns. Em ambos podemos verificar a presença da estrutura concebida pelo mitologista Joseph Campbell: podemos encontrar no maior número de quadrinhos e de literatura a estrutura comum da jornada do herói descrita por Campbell reforçando que a feitura de ambos carrega muitas estruturas comuns;

9 - Quadrinhos e sociedade: Se há uma linha de pesquisa que analisa a relação entre literatura e sociedade, bem é possível construir uma linha pensando quadrinhos e sociedade: X-man, por exemplo, nos permite observar a relação social para com a diferença, os conflitos daí surgidos, as diferentes visões e aspectos culturais entre os mutantes, como Charles Xavier e Magneto. Do mesmo modo, é possível analisar tanto as intenções como as mudanças nas narrativas de um Capitão América ou um Superman comparadas às mudanças sociais de diferentes épocas; Assim como a literatura que existe em uma relação dialética com a sociedade, num jogo de mútua influência, assim também o é os quadrinhos, inclusive com um debate necessário na recente história política brasileira;

10 - O poder dos leitores: Assim como ma literatura, ou como em toda expressão da linguagem, quadrinhos e literatura compartilham aspectos comuns quanto à "morte de seus autores" e a significação final instituída pelos leitores, o que muitas vezes faz surgir intrepretações antagônicas às obras, como o exemplo de 1984 na literatura. Nos quadrinhos poderíamos pensar a questão a partir da duplicidade de leitura de um Batman, um anti-herói proto-facsista para uma parcela de leitores, enquanto, para outros um típico herói épico com alguns traços de roman noir. Seja nos quadrinhos ou na literaturas, os leitores significam suas respectivas interpretações.

Concordam? Discordam? Quais dos itens é possível refutar? Quais outros elementos comuns poderíamos citar? Deixe aí nos comentários.

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