O Blog Listas Literárias leu Nem mesmo os mortos, de Juan Gómez Bárcena publicado pela DBA; Neste post confira as 10 considerações de Douglas Eraldo sobre o livro e descubra as duas semanas mais longas de toda a literatura:
1 - Nem mesmo os mortos é um romance de fôlego - e de tirar o fôlego - do escritor espanhol Juan Gómez Bárcena. Uma narrativa que ao soltar a ponta do fio leva-te por uma jornada transtemporal tal qual seu protagonista, Juan, que reedita daquelas "caçadas" obsessivas da literatura enquanto a obra apresenta-se como discussão crítica da história, permeada com um boa dose de pessimismo e assombro diante o sangue que tem constituído a trajetória da colonização europeia na América. Na caçada do guachupín Juan ao índio Juan, de duas em duas semanas o tempo transcorre em sua inexistência onírica fazendo com que percorramos os primeiros passos espanhóis no México aos muros contemporâneos de Donald Trump, tudo isso com as profundas camadas de reflexões filosóficas e históricas, todas elas pertinentes à formação do autor;
2 - Nesse sentido, temos de dizer que há muito o que se falar dessa narrativa, tanto em suas virtudes quanto em suas contradições, bem verdade que tais contradições estejam externamente à narrativa, outra camada complexa a se debater. Em síntese, o romance principia no século XVI durante a colonização espanhola no México. Juan é um espanhol, um qualquer, alguém distante das benesses do vice-reinado e das glórias, mas que ao cabo será imbuído de "uma missão", uma verdadeira caçada ao índio Juan (a duplicidade é signo importante na obra). Juan, o miserável soldado é um guachipín, um espanhol em uma terra que começa a miscigenar-se, em uma terra com história, em uma terra com a ação espanhola de colonização, com suas relações com os indígenas, bem como com o avanço do cristianismo. Assim começa a caçada de Juan, em pleno século XVI, que a cada embrenhar-se em um pueblo, em florestas e desertos, espera sempre pelas duas semanas vindouras para cumprir sua missão - que não é missão. Duas semanas que se perderão da contagem do tempo como numa jornada em sonhos em que tudo é elástico e impreciso. Duas semanas que não terminam nunca, com um Juan que busca, busca, busca, sempre indo ao norte, mais ao norte, enquanto a história mexicana transcorre diante seus olhos;
3 - Aqui poderíamos começar a abordar algumas contradições externas, que, se a nosso ver não prejudicam a narrativa, todavia, devem ser postas à mesa. O romance queira ou não apresenta seu olhar acerca da constituição dessa América espanhola, queira ou não, busca trazer as contradições e o processo sanguinário dessa constituição. Há no romance algo que é muito comum à nossa literatura brasileira, o debate acerca da identidade nacional, aqui, a identidade de um México, a identidade de uma nação sob diferentes prismas; e se há um elogio, o fato de Juan, o protagonista que anda, anda, anda, pelo espaço e pelo tempo, manter-se um guachupín, tal como o autor do romance. Não há que se pensar, portanto, que temos aqui algo decolonial, não, mesmo que haja reflexões críticas em relação ao processo colonizador. O olhar segue espanhol, obviamente, e aí a maior contradição da narrativa, já que é um tanto complicado narrar a história de um país, sua identidade, por meio dos olhos estrangeiros, pelos olhos do colonizador, mesmo que estes olhos assim não se portem na maior parte. Nesse sentido, poderíamos dizer que é a tentativa de um espanhol compreender seu legado a algo que se descola de si mesmo. Uma tentativa potente, contudo, sempre restando a questão do quanto essa narrativa pode representar essa nação? essa América?
4 - Feita a ressalva, podemos nos dedicar à narrativa em si. Como dissemos, ao avançarmos a leitura, fica-se presente a busca por um olhar histórico e de identidade da constituição de uma nação marcada pelas ideias, pelas lutas e mais do que tudo, pelo sangue de homens e mulheres que vão se tornando os cadáveres da história. O efeito disso no protagonista Juan vai sendo percebido com as suas mudanças perceptíveis em pequenas nuanças que pouco a pouco vão levando-lhe a certo fastio de tudo que observa enquanto espectador dessa história;
5 - E aqui podemos dizer de um aspecto importante desse "protagonista". A palavra entre aspas porque a despeito de ser ele o personagem cujo foco narrativo acompanha, é um termo, contudo, se não questionável, no mínimo curioso ao personagem em questão. Juan não é ninguém. Trata-se de um soldado que a despeito dos bons serviços à Coroa, nunca lhe viu sorrir a fortuna e a glória. É das últimas opções para "a missão" do vice-rei e quando encontrado, já passa por um processo de mudança. Não é mais apenas um espanhol com interesses espanhóis. É proprietário de uma taberna miserável e casado com uma indígena e aí surge ele mesmo como elemento de miscigenação. Mas o ouro então e a possibilidade de um futuro melhor o atira em sua jornada de duas semanas que não terminam nunca. E é a partir daí que ele mais que um personagem protagonista, mostra-se um espectador da tenebrosa história que corre diante seus olhos. Juan é um observador das mudanças, da colonização à formação de uma nação, suas revoluções e tal qual as duas semanas de Juan, um novo mundo que sempre aguarda a frente um futuro... um devir... um devir (no caso o devir imaginado) que nunca chega...
6 - Assim, enquanto espectador desse processo, Juan leva-nos junto. Os leitores, contudo, com certa vantagem sobre o personagem, já que o que para Juan é devir, a nós são passados... sejam eles longínquos ou recentes. Nesse processo, é como se tudo fosse um sonho, e diga-se, a mitologia onírica, a presença do sonho e das vigílias serão elementos estruturantes e relevantes nessa narrativa que é dominada por uma terceira pessoa, mas que em muitos momentos é transpassada pelas vozes de seus personagens por meio de um discurso geralmente indireto. Até porque, especialmente Juan, o caçador, é de pouca fala. Ele observa e nós observamos com ele, nos cansamos com ele em suas intermináveis jornadas a pé ou sobre o lombo de cavalos; jornadas que por momentos se confundem com os sonhos ou são os próprios sonhos;
7 - E aqui mais uma das tantas complexidades e camadas dessa narrativa. Se fizemos, de um lado a ressalva quanto à origem, ou seja, do colonizador, o romance está, de todo modo impregnado pelas características de uma literatura que nasce nas colônias. É um tanto quanto desafiador classificar a narrativa, romance histórico, realismo mágico, etc... as cores de uma literatura latino-americana se fazem presentes, seja na prosa poética, seja em sua linguagem miscigenada, seja especialmente pelos tons de um certo fantástico naturalizado enquanto realidade. Juan percorre os sonhos e o tempo com grande naturalidade, como um infante, a cada mudança precisa reaprender coisas com o novo a sua frente, especialmente as pessoas e a linguagem que muda com a passagem do tempo. Um tempo que para Juan, contudo, permanece encaixado naquelas suas duas semanas intermináveis. Como recurso técnico dessas passagens temporais, noites dormidas, visões de guerras que assomam-se uma sobre a outra e assim Juan das primeiras páginas do livro num século XVI vê-se num mundo contemporâneo e em uma nova língua de fronteira em pleno século XVI sem estranhar sua existência tão longa e das tantas coisas que testemunhou em sua caçada por um homem que vai alterando de nome e feições ao decorrer dessa passagem, a natureza fantástica de sua longa jornada vista com naturalidade tanto quanto observa os guias que lhe "facilitam" a sua busca quase que como um ente etéreo da história que transcorre diante si;
8 - Mas se dissemos que há algo de onírico na jornada deste protagonista, contudo, há grandes distinções ao tempo dos sonhos, especialmente quanto à linearidade. Os sonhos, como sabemos "lugar" líquido e fluído sem qualquer ordenamento espaço-temporal. Nos sonhos as imagens se sobrepõem sempre num destempo, o que no caso do romance não há essa indistinção, já que a jornada de Juan é marcada pela linearidade temporal a despeito das características oníricas de suas passagens. Assim, diante seus olhos veremos a colonização daquela terra hostil, a luta entre espanhóis, astecas, chimimecas e tantas outras nações indígenas, veremos as campanhas jesuíticas, de importante questão ao Juan que é perseguido por Juan. Veremos a mesclagem de povos, as aculturações, as migrâncias, tudo isso em sua caçada Juan testemunhará enquanto procura por alguém cujo conceito ele estará sempre atualizando durante a busca. Passaremos pelo nascimento de uma nação, pelas revoluções e contrarrevoluções marcadas por sangue e violência, pelo desencanto de um povo que foge ao norte e então encontra muros... aliás, o olhar de Bárcena para as fronteiras contemporâneas é atroz e desnuda uma violência animalesca e especialmente nas passagens finais, a questão da mulher, das violências que sofrem, dos abusos...
9 - Assim, se por um lado temos o que nos parece uma jornada histórica, ao cabo, está mais para a filosofia. Juan, o caçador, o sujeito de poucas palavras é um observador das tragédias da formação do mundo e suas nações. Alguém que percorre o tempo observando uma quantidade inquantificável de sangue derramado, geralmente um sangue derramado carregado "de boas intenções", de projetos que sempre apontam para um futuro, o norte está sempre a frente como suas duas semanas que não terminam; Isso vai edificando em seu íntimo certo desencanto, como se surgisse um desencanto com a natureza dos homens. As revoluções se perdem, as liberdades constroem novas prisões, erguem novos muros, há sempre um Juan, um Pai, um Padrinho, um Compadre, um Papito... Assim, o testemunho de Juan é uma jornada no tempo cujo legado é sempre sangue e cadáveres, o homem permanente animalia;
10 - Ou seja, Nem mesmo os mortos nos desaloja para diferentes lugares e reflexões. Uma obra que a despeito da caminhada longa - e às vezes exaustiva (não como sentido negativo da leitura, mas enquanto transmissão de uma exaustão sobre a história humana) - que seguimos ao lado de seu observador-protagonista apresenta-nos camadas e mais camadas para a construção de um pensamento crítico e reflexivo. Como dissemos, uma jornada histórica mas com predomínio da filosofia, uma filosofia talvez do desencanto com esse novo mundo, do desencanto com um devir que sempre promete, promete, promete... mas que sob o testemunho de Juan, apenas encontra cadáveres e miséria pelo caminho. Enfim, uma jornada imersiva por florestas e desertos enquanto assistimos percorrer diante nossos olhos a brutalidade de nossos feitos. Um livro para pensar e uma narrativa de grande técnica cuja prosa é permeada de reflexões filosóficas e inserções líricas numa espécie de tragédia prosódica das nações.

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