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10 Perguntas para Paulo Scott

O Blog Listas Literárias entrevistou o escritor Paulo Scott autor do recente Marrom e Amarelo que percorre os complexos caminhos do racismo estrutural na sociedade brasileira. O autor gaúcho, um dos nomes de maior credibilidade da literatura contemporânea brasileira nesta entrevista fala do novo livro e sobre literatura. Confira nossas 10 perguntas para Paulo Scott:

LL: 1 - Embora com diferentes possibilidades de leitura, Marrom e Amarelo é um romance sobre racismo em toda a sua complexidade. Isto talvez se mostre na raiva que brota e persiste em Federico, ao mesmo tempo que ele próprio compreende em determinado momento que está longe entender a amplitude do problema ao constatar as influências de um flash ligado quando fotografa Lourenço, o irmão negro. É uma forma de demarcar que mesmo em nossa luta contra o racismo, somos todos incapazes de entender a profundidade dessa violência?

P.S.: A compreensão das dores do outro nunca é plena porque pessoas são diferentes, são afetadas pelo meio que as cerca de maneira variada. Por isso imagino que somente um diálogo contínuo e franco, no qual o racismo seja compreendido como uma doença coletiva, possa tornar mais claro o impacto gerado pelos que reproduzem a lógica do preconceito. Nessa perspectiva, literatura é uma espécie de máquina, muitas vezes eficaz, que tende a ser eficaz, de fazer com que alguém entenda a tragédia do outro, a tragédia da existência geral, da humanidade.

LL: 2 - Nesses tempos extremos e polarizados mais do que nunca é necessário tocar em nossos problemas e alertar, nesse caso, a tirania persistente de um racismo, hoje escancarado, e que adere nas diferentes esferas sociais do país. Por outro lado, aliás, como cenário de seu romance, a polarização gera combates e discussões [às vezes nem sempre producentes]. Como tem sido a reação ao livro, como os fundamentalismos estão - se estão - reagindo a ele?

P.S.: Se você procurar, é possível encontrar algumas manifestações de extrema-direita, de pessoas com enorme dificuldade de se admitir como parte de um diálogo racional, mas são reações mais voltadas às minhas entrevistas a respeito do romance do que propriamente decorrente de leituras do livro.

LL: 3 - Observamos em nossa leitura que Federico enquanto escolha estética para narração possibilita-lhe muitas alternativas. Pertencente a uma família mestiça é o irmão "branco" cujo enfrentamento ao problema é bastante distinto do irmão. É também o morador periférico que gradua-se e passa a mover-se pelos corredores do poder. Isso possibilitou-lhe grande mobilidade, não?

P.S.: Sim. Não posso negar que foi uma estratégia pensada, uma forma de conectar a narrativa a um amplo espectro de expectativas, uma forma de potencializar as complexidades relativas ao racismo e também à mobilidade socioeconômica em um país tão desigual quanto o Brasil.

LL: 4 - Falando nisso, independentemente do tempo em que se passa, o livro tem uma grande capacidade de nos transportar para o cenário. O fato da sua intimidade com o ambiente facilita o processo?

P.S.: Penso que sim. Conheço aquela realidade que foi transfigurada na narrativa. Mas é importante registrar que mesmo assim tive de me dedicar a uma profunda pesquisa não apenas em relação ao colorismo, mas à própria história do bairro onde me criei. Mesmo que essa pesquisa não esteja aparente, foi crucial para a consolidação da verossimilhança da narrativa. Não há como escapar das pesquisas porque elas não apenas informam, embasam, mas possibilitam um tipo muito peculiar de reflexão e também uma atualização das possibilidades do objeto, no caso, do cenário sobre o qual transcorrerá a narrativa, a narrativa que precisa cativar.

LL: 5 - Por outro lado, pensando não apenas em ambiente, mas somando-o às classes sociais, aos círculos de poder e de intelectuais, Federico, como dissemos, é capaz de percorrer diferentes meios, entretanto, parece causar o efeito de não pertencer a lugar algum. Isso aumenta com o contraste das relações dele e de Lourenço com o bairro, o Partenon. Faz sentido essa nossa percepção?

P.S.: Sim. A formação de uma identidade muitas vezes retém você a determinado olhar que fará, no futuro, dentro das mobilidades que eventualmente sejam buscadas, você se sentir uma espécie de estrangeiro não só em relação aos lugares buscados, mas também – já que acaba provocando um desligamento trágico – em relação aos lugares deixados, talvez abandonados, na medida em que – na distância e no passar do tempo – aquele seu lugar conhecido se transforma e você se transforma, aquele lugar deixa de ser conhecido e passa à condição de elemento de um estranhamento irreversível.

LL: 6 - Aproveitando sobre sua intimidade com o cenário, seria possível dizermos que isso possa fazer ecoar notas autobiográficas no romance?

P.S.: Sim, há referências biográficas, mas, é bom deixar claro, não se trata de autoficção. Sim, uma realidade bem conhecida minha entrou como referência, uma das referências, na construção da realidade da narrativa. Aquelas pessoas não são as pessoas da minha família, e o protagonista não sou eu.

LL: 7 - Diferentemente de algumas leituras nacionais nossas em que os problemas sociais parecem apenas dar vazão a certo tédio pequeno-burguês e servir como debate teórico, seu livro parece-nos tratar da concretude dos dramas. Isso situado numa zona nem na extrema marginalização [embora você aponte-a] tampouco numa zona absurdamente intelectual [embora nele esteja toda a intelectualidade e teoria presente no romance] mas sim mais próxima de uma vida real, suburbana, periférica... Aliás, mais uma vez talvez o contraste entre Lourenço e Federico nos mostre um caminho, não?

P.S.: Isso dependerá da leitura do livro, dos debates e análises que estão acontecendo neste momento em torno desse livro. Busquei uma narrativa simples justamente para afastar desculpa que pudesse haver quanto às contradições do protagonista, quanto ao seu arco narrativo que apesar de nada óbvio é consequência de uma cultura bem determinada, e de reações a essa cultura brasileira hegemônica, presente no dia a dia de nosso povo, um povo que não quer se reconhecer como negro – embora isso esteja mudando com alguma velocidade.

LL: 8 - Fugindo um pouco de Marrom e Amarelo, sendo o seu livro bom exemplo de enfrentamento, no geral, como você observa a literatura brasileira contemporânea enquanto enfrentamento, mas também reflexo de nossos dilemas? Nosso presente e passado recentíssimo, desconfio, constituem momento que talvez, em termos históricos, se aproxime de um golpe de 1964. Acredita que o conjunto de nossa literatura tem conseguido dar conta dessas questões?

P.S.: Um escritor amigo meu, bem conhecido, criticava com todas as suas energias a literatura que se voltasse ao cenário sociopolítico presente, atual, e hoje, por conta das mudanças do país, mudanças que iniciaram lá em 2013, ele passou a escrever romances politizados, quase panfletários, e, até onde sei, está bem confortável e em paz nessa nova postura. Tomo isso como um sintoma da guinada que envolveu recentemente não apenas os escritores brasileiros, mas as editoras, os jornalistas, os acadêmicos. Não há limites, regras, para o que possa ou não ser abordado em uma narrativa literária. A literatura consolida identidades e compreensões. Ela só não pode ser didática, sem imaginação, panfletária.

O Brasil é um país em risco, de uma tradição violenta enorme que tendia a ser negada por alguns editores, alguns escritores, alguns leitores também. Respeito quem vive dentro da ambição de chegar a uma dicção ocidentalizada, aos moldes do que foi feito e é feito nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Alemanha, o que me parece difícil aceitar é quando se estabelece uma tentativa de hierarquização na qual as obras escritas por escritores brasileiros que reproduzem o molde anglo-saxônico, por exemplo, devam ser consideradas mais profundas, mais pertinentes, melhor.

LL: 9 - Nesse sentido, poderíamos pensar Marrom e Amarelo não só um fruto de seu tempo, mas também um fruto de nossa história? O peso da história seria um dos principais elementos no olhar cético, quase desesperançado de Federico?

P.S.: A noção da História e dos seus ciclos, daquilo que parece melhorar, daquilo que imaginamos estar fadado a desaparecer, de tudo que sempre volta para o bem e para o mal. Lembrando sempre que o tempo da literatura é outro, não é o tempo da História.

LL: 10 - Para finalizar, falamos aqui de sua intimidade com o cenário de Marrom e Amarelo. Maneira distinta do projeto Amores Expressos que enviou autores a diferentes cidades do mundo, entre eles você, e cujo resultado "nasceu" Ithaca Road. Poderia compartilhar conosco a diferença de se escrever sob condições tão diferentes? Uma sob encomenda e tendo que conhecer uma cidade para dela tirar um livro, outra, conhecendo cada recanto, rua, beco, e não apenas isso, conhecendo cultura, os habitantes do espaço...?

Não se engane, em Sydney eu praticamente morei naquela rua, a Ithaca Road, penso que conquistei uma intimidade com aquele cenário. [Riso]. Bem, o que posso dizer é que na literatura tudo é sempre reinvenção, transfiguração; a realidade e a integridade história é uma massa de modelar e necessariamente será refeita e refletirá, no resultado, diversamente.

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