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10 Considerações sobre A Ordem do Dia, de Éric Vuillard ou sobre tempos sombrios

O Blog Listas Literárias leu A Ordem do Dia, de Éric Vuillard publicado pela editora Tusquets; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Até que ponto estamos distantes da barbárie? Que lógica social permite e cria condições para que ideais políticos nefastos como o nazismo? Quais esquecimentos são propícios a se esconder que a morte de milhões de seres humanos não mancha apenas a farda fúnebre de um ditador de bigodinho? Essas são algumas questões que poderíamos levantar - ou num termo melhor, talvez, revitalizar os - questionamentos que mantenham luzes sobre um dos tempos mais sombrios da humanidade sobre este planeta, quando milhões de pessoas foram mortas sob a cumplicidade de muitas pessoas e instituições que hoje mantêm-se à sombra da culpa. A Ordem do Dia mexe nessas cicatrizes ainda expostas de nossa história;

2 - Mas antes de avançarmos, talvez seja preciso comentarmos sobre o que este livro não é. Não trata-se de um romance, pelo menos, não na concepção e das principais características do gênero. Todavia, não se trata de uma obra de história, pelo menos no sentido acadêmico do termo. Embora uma "espécie de", não simplesmente crônicas históricas visto o tratamento ficcional da narração, uma narração sem um enredo definido por uma espinha dorsal porque neste livro os protagonistas, enquanto características de personagens, estão ausentes em meio a um intenso desfile de "pequenas" e "grandes" vilanias de um mundo sob a égide de antagonistas ou líderes fracos e ineptos a combater o mal crescente. É pois um livro de traços amargos, como nos exige a ocasião;

3 - A narrativa, e aqui tomamos sua proximidade preponderante com o cronismo, uma espécie de crônicas da barbárie, Vuillard parte do encontro secreto de industriais alemães com Hitler e o financiamento político deste como ponto de partida de sua crítica mordaz não apenas a nomes e pessoas, mas a todo um sisteme apodrecido e indiferente com a vida alheia. A partir desse momento, nessa proximidade com as crônicas, o autor vai construindo sob seu olhar momentos cruciais que levaram à Segunda Guerra Mundial e ao holocausto;

4 - Mas se o texto de Vuillard procura ampliar as culpabilidades relacionando o nazismo ao capitalismo, e por isso dando atenção específica ao referido encontro secreto, será sobre os momentos tensos e febris quando da anexação de Áustria ao Reich que o autor concederá maior atenção, desnudando a seu modo as intrincadas relações de um momento político esquizofrênico;

5 -  Mas voltando um pouco à questão do apoio dos industriais alemães ao chamar atenção para "essa reunião de 20 de fevereiro de 1933 - em que se podia ver um momento único da história patronal, um compromisso extraordinário com os nazistas -, para os Krupp, os Opel, os Siemens, não passa de um episódio muito comum na vida dos negócios, uma banal angariação de fundos. Todos sobreviverão ao regime e financiarão no futuro muitos partidos de acordo com a performance", Vuillard levanta a voz em meio a silêncios convenientes. Além disso, nessas crônicas da barbárie, tal relação espúria entre capitalismo e o nazismo, volta e meia é atirada diante o leitor, como na demonstração como estes nomes, estas instituições do capital não apenas mantiveram em movimento a máquina de guerra do Reich, como lucraram com corpos decrépitos de prisioneiros de Hitler e sua política;

6 - Aliás, impossível não traçar paralelos com um presente contemporâneo, inclusive num Brasil cujo capitalismo não raro tem sido nomeado de anarcocapitalismo, tem realizado diferentes e espúrios movimentos aderindo a ideologias tão radicais e muito próximas do pensamento nazista de Hitler, destituídas de qualquer humanidade ou compromisso social e civilizatório. Por isso rememorar mecanismos e escolhas que levaram a Auschwitz como advogava Theodor Adorno permanece uma demanda atual e necessária. Este livro colabora para isso;

7 - A bem da verdade tal lembrança é algo que o autor parece desejar jogar na cara da sociedade, algo saliente no modo verbal de ficcionalizar a história, descrevendo os fatos diante os olhos presentes de um leitor o qual ele enquanto autor procura levar para dentro da história num curioso movimento temporal transformando o passado num presente a ser tocado de modo que "poderíamos nos aproximar assim, um de cada vez, de cada um dos vinte e quatro senhores que entram no palácio, tocar-lhes..."

8 - E aí adentramos ao poder da literatura, claro. Há nesta obra também essa afirmação do fazer literário, do reconhecimento de sua força, tanto que esse é o movimento que faz Vuillard, apropriando-se do histórico para ressignificá-lo nutrido no irrealizável desejo de se fazer tudo diferente como "sonha" seu narrador dizendo que "a literatura permite tudo. Eu poderia então fazê-los [os industriais capitalistas na reunião] dar voltas infinitas na escada de Penrose, nunca mais poderiam descer ou subir..."

9 - Mas Vuillard não os aprisiona a uma escada sem fim, segue os passos da história, envolve-o com a força da literariedade numa tentativa por vezes agonizante de tentar mostrar que "a verdade está dispersa em todo o tipo de poeira" e por isso, enquanto autor, varre ciscos escondidos sob diferentes tapetes para trazê-los às claras da sala global. Denunciar para além de Hitler, todas as outras culpas que parecem agradecer aos efeitos da poeira. E o que faz é bastante necessário, pois que o sistema que não apenas não fechou os olhos ao nazismo, mas o financiou, segue vivo e sua voracidade por carne e dignidade humana só parece aumentar neste século XXI trazendo sérias dúvidas se já não repetimos a barbárie, só que diluída nesta poeira de verdades;

10 - Enfim, A Ordem do Dia é leitura fundamental para nossa ordem do dia. Uma narrativa e uma demonstração que "se erguermos os farrapos medonho da História, encontraremos isto: a hierarquia contra a igualdade e a ordem contra a liberdade". E esta é uma lembrança não só desse passado sombrio e recente, mas que também está muito forte em nosso exato presente em novos avanços reacionários contra o progresso civilizatório da humanidade.


     

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