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Era uma vez... 10 Considerações sobre Hazel Wood - A Origem do Azar, de Melissa Albert

O Blog Listas Literárias leu Hazel Wood - A Origem do Azar, de Melissa Albert publicado pela editora Plataforma 21; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Intenso, sombrio, mas extremamente envolvente, Hazel Wood rasga as tecituras que separam nosso universo real do universo dos contos de fada, da magia e de suas criaturas fantásticas numa trama de ritmo frenético, mas que sob a superfície cheia de ação, guarda perigosos labirintos em suas camadas mais profundas;

2 - Mesclando o contemporâneo moderno e urbano e o bucólico das florestas rurais dos contos de fada onde a magia, todas elas, das boas e das más ainda vive, o livro narra a história estranha da estranha Alice, uma adolescente andarilha carregada pela mãe por diferentes cidades americanas enquanto fogem de uma ameaça inicialmente abstrata, o azar e a sombra de sua avó, uma renomada autora de um livro de contos permeado por mistérios;

3 - Isso faz do livro, inicialmente uma fuga constante em que Ella (a mãe) e Alice perambulam por um mundo real em que pragmaticamente coisas ruins acontecem. Embora cismada com o passado das duas, especialmente a distância sempre mantida da avó, Alice tenta encontrar respostas na vida real, entretanto após a ruptura total, mesmo daquela rotina sem rotina que ela e a mãe viviam, a garota precisará encontrar nas histórias do livro da avó, sua própria história;

4 - É quando então as portas do Recôndito chegam até ela, mostrando-lhe uma ponte entre dois mundos, uma espécie de plataforma nove três quartos, que entrelaça dois mundos distintos. Isso aliás, reforça o caráter intertextual desta narrativa e a influência das principais narrativas juvenis na escrita - e leitura - de Melisa Albert, passando muito por Harry Potter que aqui partilha a mesma relevância doutros clássicos do gênero, de Lewis Carrol e sua a Alice à Fantástica Fábrica de Chocolate de Dahl, ou em nomes relevantes da fantasia como Diana Wyne Jones, de modo que Hazel Wood com sua voz forte e original alicerça-se numa base firme de referências, e isso torna o livro ainda mais forte;

5 - Vale dizer ainda que este mergulho no gênero da fantasia e dos contos juvenis o livro o faz da forma soturna e sombria de suas origens. Não há aqui uma mágica ingênua ou perigos não tão perigosos. A natureza do Recôndito é bastante tenebrosa e suas histórias mergulham no negro dos piores sentimentos, de modo que suas histórias não estão no partido dos finais felizes, algo que Alice-Três-Vezes logo perceberá quando ter de adentrar o lugar do qual justamente fugira toda a vida;

6 - Para além da aventura eletrizante, especialmente após sua jornada com Finch tentando encontrar Hazel Wood e depois de adentrar a tecitura do universo do Recôndito, o livro propões então em suas camadas mais fundas discutir temas um tanto mais sérios, em especial a questão da identidade, que parece nortear toda a narrativa a partir da busca de Alice por conhecer sua própria história, de modo que sua jornada é portanto uma grande caçada à identidade, e não apenas de Alice, pois no romance parecem quase todos os personagens buscar por alguma identidade;

7 - Além disso, a busca pela identidade parece ganhar reforço com as nuances metaliterárias que estruturam a narrativa. Elas não surgem sob holofotes na obra, mas permeiam toda a jornada pincelando reflexões sobre a construção narrativa, os personagens, enfim, aproveitando para em muitos momentos e de forma discreta por a própria construção literária em debate, e aí, mais uma vez, muitas vezes visitando suas referências e influências;

8 - Dito isso, vale portanto dizer que trata-se de uma grande aventura, mas não destas aventuras entremeadas de ufanismo pedante que o herói ou a heroína sai revigorada. Pelo contrário, a aventura de Alice desde seu princípio é emblemática e ao fim, talvez pela força de nossos tempos distópicos, o conto de fadas termina a seu modo um tanto melancólico, cuja esperança surge no tímido resistir seguindo em frente;

9 - É que a bem da verdade, todo o processo acaba deixando fortes marcas em sua protagonista. O gelo de sua narrativa invade sua vida real após a aventura e algo parece ficar pelo caminho. É como se Alice nos revelasse que toda aventura tem seu preço e não suas recompensas, e assim toda a jornada, em muitos momentos tenebrosa, não a abandona fácil. Aliás, é possível aqui talvez observarmos a metáfora do desencanto, pois que a melancolia não será monopólio de Alice, mas doutras figuras que conseguem sair do Recôndito, de jeito que é como se a tecitura entre a ilusão e a realidade fosse uma fina camada de cristal, ao fim quebrada pelo final da história, legando às personagens a realidade, universo no qual a grande maioria dos habitantes do Recôndito parece não adaptarem-se;

10 - Enfim, Hazel Wood é uma narrativa tristemente bela como o devem ser os bons contos de fada. Imaginativo e mágico, o livro é erigido com a força de suas referências e com o charme de sua autoridade original. Uma bela e emotiva jornada por terrenos assustadores da fantasia, e que acima de tudo reforça o poder e a força das boas histórias.


 

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