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10 Considerações sobre Hippie, de Paulo Coelho ou como a liberdade é uma viagem

O Blog Listas Literárias leu Hippie, de Paulo Coelho publicado pela editora Paralela; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Hippie habita uma zona confusa dos gêneros literários, nem autobiografia, nem romance, mas um tanto de ambos, Paulo Coelho revisita suas experiências pessoais, especialmente uma de suas tantas viagens pelo mundo, quando aventura-se numa longa linha de ônibus ia da Holanda ao Nepal e que caíra nos encantos dos hippies. Todavia, não deixa de ser a lembrança da viagem um gatilho para o autor encontrar-se com outras passagens de sua vida;

2 - O limite relacionado acerca dos gêneros acontece em parte pela escolha do autor pela narrativa em terceira pessoa de suas experiências, como o próprio assume confessando alterações de ordens e de nomes. Acontece que a narrativa em terceira pessoa faz mais do que dar voz a outros personagens, como justifica o autor, ela estabelece essa névoa a cobrir a própria vocação da publicação, porque então impossibilita-nos de ter na obra uma espécie de biografia do autor, visto que a narrativa desta terceira pessoa rompe a barreira da experiência pessoal por causa de sua capacidade de acompanhar outras personagens, ao mesmo tempo que a pura e simples ficção sai abalada pelo fato de tratar de conhecidas experiências do autor;

3 - Dito isto, e consciente do já exposto, partindo então para observação interna da narrativa, nos deparamos com um narrador em terceira pessoa que parece (não sem razões para isso) fundir a um de seus personagens protagonistas, narrando a experiência de Paulo, aspirante a escritor e voraz pelas culturas místicas e misteriosas que pertence então à tribo dos hippies, movimento cultural e político que marcou os anos 60 e 70;

4 - O livro, aliás, dá inicialmente a mensagem de buscar discutir e revisitar o movimento hippie, entretanto, a narrativa não nos oferece muito mais do que já sabemos sobre o movimento para além de seus anseios de liberdade, o uso de drogas e a relação cultural construída, além é claro de seu pacifismo e certa solidão coletiva, visto que se por um lado o jovem Paulo é participante deste movimento horizontal e sem grandes aspirações, por outro sucumbe às suas buscas individuais, o que, aliás, irá definir o desfecho de sua viagem;

5 - Além disso, se o movimento hippie surge como mote da narrativa, ele entretanto talvez escamoteie vontades não explícitas, como o reencontro do autor com momentos de seu passado, como a experiência de Paulo com a ditadura militar no Brasil, algo ainda envolto em névoa, visto que embora toda a relevância do autor, mesmo se à época não era ainda o autor famoso que hoje é, a sua, digamos, pouca participação política durante o período é ponto de críticas e discussões. Nesse sentido, é como se o autor, às vezes criticado por não ter participação ativa na luta do país, quisesse ao menos trazer à tona que o mesmo teve seus encontros com o autoritarismo. Assim, ainda que soe estranho no conjunto desta narrativa, é como se Coelho sentisse-se obrigado a tocar no assunto, como um assunto não resolvido de sua vida;

6 - Do mesmo modo como pincela sobre o autoritarismo no Brasil, o autor salta do tratar hippie, para abordar outro acontecimento relevante daquele tempo, o maio de 1968, abordagem que então a narrativa vai seguir outras personagens, no caso uma família francesa, quiçá para buscar maior autoridade sobre o tema;

7 - Assim, percebemos então que não deixa de ser uma obra com pretensões políticas, muitas vezes apresentando o olhar cruzado do hoje com a experiência do ontem. Mas se por um lado a obra propõe-se a tratar de política, por outro é como se o espírito hippie, em muitos aspectos alienados das questões de poder e focados numa bolha muito específica, permanecesse, com isso, produzindo muitas vezes uma análise talvez ingênua de questões complexas;

8 - Sem falar que posteriormente qualquer observação política ou histórica saia prejudicada justamente pelos elementos que fizeram de Paulo Coelho uma dos nomes mais famosos do planeta, seu misticismo e seu lado mais exotérico, de modo que este novo livro parece guardar muitas proximidades com sua principal publicação, O Alquimista, visto que ambos não deixam de ser uma viagem espiritual. Isto por certo agradará a muitos, mas também encontrará seus muros, visto que mesmo entre os que observem as culturas religiosas em seu aspecto de sociedade e cultura, ou então aqueles de pensamentos iluministas, sentirão desconforto na forma arbitrária e teológica em que o autor nos coloca como verdade;

9 - Temos portanto uma narrativa permeada pelo misticismo do autor, que, inclusive, em muitos momentos abre espaço para a autoajuda, a partir da narrativa de uma viagem de personagens peculiares e que aos leitores de biografias do autor será condizente com o perfil autobiográfico proclamado da obra. Todavia, por toda ela persiste certa aura de certo acerto de contas ou necessidade de retornar a algo, ou ainda não resolvido, ou pertencente a um passado mítico, de modo que ainda que seja uma desconfiança, percebemos que sob toda a exposição há algo escondido, obscuro, uma mensagem não explicita que paira como uma névoa pelos relatos da obra;

10 - Enfim, Hippie não se trata tanto sobre o movimento, mas mais sobre o próprio autor, que assume-se como um hippie, e viveu desta forma e por esta filosofia que marcou a segunda metade do Século XX. Neste sentido, vale dizer, não nos aprofundamos muito sobre a filosofia, que por si só sempre foi rebelde a definições, mas reconstrói o panorama político e cultural a que o autor-narrador-protagonista estava inserido, às vezes, produzindo junções nem tão conexas como a forma de debater a experiência com a tortura que surge como um grito de alerta e também de afirmação. Dito isto, a cabo, ressalta-se que provavelmente entre fãs de Paulo Coelho a leitura poderá agradar pela carga de espiritualidade e misticismo que tanto geram paixões quanto críticas ao autor.




   

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