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10 Considerações sobre Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia ou como dar adeus à esperança

O Blog Listas Literárias leu Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Para os que procuram a literatura em busca de porrada à boca do estômago, Enterre Seus Mortos é candidato a clássico imediato da literatura brasileira, numa publicação que não deve deixar enganar a despeito do tamanho físico do exemplar, pois assim como num Pedro Páramo, de Juan Julfo, as poucas páginas do livro levam-nos a um gigantesco universo de possibilidades, no caso deste romance de Ana Paula Maia, um universo brutal e pútrido que nos traga a talvez uma visão muito próxima do inferno, todavia, com todo o contorno de realidade que diante da fartura de cadáveres e crueza do mundo termina num ápice que de certo modo rompe com certa tradição brasileira de mesmo em obras críticas, como Não Verás País Nenhum, e A Hora dos Ruminantes que entre cheiros de chuva e relógios de horas alternantes, preservam alguma esperança, aqui, ela será desfeita pelo derradeiro ceticismo de seus protagonistas, Edgar Wilson e Tomás;

2 - Enumerar as virtudes do livro ao mesmo tempo que não deixa de ser fácil, pois elas estão ali, aos montes, por outro lado cria uma grande responsabilidade de nossa parte, pois é preciso neste caso abordá-las com grande propriedade pois esta é uma das obras relevantes para a literatura brasileira, e também para a universalidade. No romance narrado numa terceira pessoa que adentra parcialmente as perspectivas de suas personagens, acompanhamos a jornada peculiar de Edgar Wilson, um homem aparentemente insensível à morte que trabalha num órgão recolhendo carcaças de animais mortos das rodovias. Esta sua posição, não só constrói uma ambientação sufocante e irrespirável, mas gradualmente vai servindo às comparações que dão vazão a uma torrente de critica social em que o humano vai sendo dilapidado paulatinamente. Todavia, para reconhecermos seus elementos mais interessantes, precisamos abrir-nos a uma série de questões envolvendo esta bela estrutura narrativa, algo que se tentará neste post;

3 - Necessário e interessante observar o jogo mimético estabelecido na construção da obra, estabelecido entre aproximações e distanciamentos da realidade. Se em determinado momento somos aproximados pelo fato de uma personagem, por exemplo, comparar o fedor de uma carcaça de cavalo a um cadáver humano, por outro, as subjetividades e indefinições intencionais criam certo afastamento-aproximação, que tanto distancia, mas que também abre a possibilidade de o ambiente ser qualquer luar reconhecível pelo leitor (veja só, na minha cidade há também mineração de calcário). No campo das indefinições intencionais está o próprio fato de determinadas coisas não serem nomeadas, como o órgão no qual trabalham Edgar Wilson e Tomás, e também das cidades por quais percorre a narrativa, que não são citadas na obra e a partir disso amplia a necessidade do leitor inferir e completar lacunas, que nesse caso só valoriza a obra. Ademais, vale dizer deste ambiente cuja brutalidade e secura (do ambiente e dos homens) lembra o western, embora determinadas marcas tragam-no para o Brasil, caso do IML, entre outras, ao passo que a nomenclatura das rodovias e suas saídas, por sua vez se dá dum modo pouco usual daqui, de modo que o ambiente do romance instigará o leitor de várias maneiras;

4 - Se o ambiente já nos propicia uma série de reflexões e debates, não seria diferente com seu protagonista, Edgar Wilson (Nome recorrente no trabalho da autora). A começar por este nome composto e americanizado que vai justamente trabalhar nas fronteiras das incertezas. Há na sonoridade do nome mais uma aproximação do faroeste e que nos abre frentes de reflexão. Pois Edgar, aparentemente um homem brutalizado e insensível talhado para aquele trabalho miserável recolhendo carcaças de animais e triturando-os, parece inicialmente uma alma impermeável aos dramas humanos, em parte ampliado pelo seu comportamento inicial diante cadáveres humanos nas rodovias, recolhidos com muito mais lentidão que os dos animais. Nessa primeira parte, tão brutal quanto a segunda, Wilson parece insensível e tornado uma pedra de gelo pelo trabalho, o que, todavia, mudará de plano numa segunda parte do romance quando ele tentará seu modo encontrar destino as dois cadáveres que acabam indo parar num freezer do órgão, e parecem destinarem-se ao moedor. É quando entra em cena a verdadeira natureza de Wilson, ainda que ao mesmo tempo que tenta manter firme sua ética pessoal num mundo desgastado, esta e de todo erigida sob as suas próprias complexidades esse passado, vide a frase elementar da narrativa quando ele sugere a um trio de criminosos "da próxima vez enterre seus mortos", postura que fala não só de seu presente em que quer dar um fim digno aos dois defuntos, mas também a um passado sombrio e violento cujos indícios apontam para um homem nem tão íntegro assim;

5 - Vejamos que até aqui já abordei uma grande quantidade de elementos, o que diz muito da obra, já que ela provoca e suscita no leitor esse desejo de debatê-la. Mas antes de retomar uma questão essencial desta narrativa, atento para outro curioso elemento, não livre de suas complexidades, em alguns casos, talvez incoerência. Falo do tempo em que ocorre a narrativa, quando se passa a história. A obra de Ana Paula Maia se dá tanto por omissão quanto por marcas sutis, como no caso do tempo cuja pista pode ser vista da "Caravan com pouco mais de dez anos" de Edgar Wilson. Isso leva-nos a uma data incerta, que na segunda parte do livro será contrastada com elementos que até mesmo confundem, caso do pedágio, mas acima de tudo a prática de coleta de material biológico no IML, que dá uma percepção mais contemporânea. Contudo, tendo em vista tais elementos, poderíamos depreender que a narrativa se passe em algum dos meados, ou a última metade dos anos noventa ou a primeira da década de dois mil. Entrementes, em relação ao tempo, todavia, ao cabo do todo, a construção dá vazão a uma paralisia que une dois mundos distintos, um que avança e outro que permanece inalterado e habitando o outro mundo que progride a despeito das pequenas mudanças como vemos "a paisagem pouco mudou nas últimas décadas. Não fosse o betume resinoso que forma o asfalto, ainda estariam no século passado..."

6 - Mas acima de tudo, Enterre Seus Mortos é um romance da miséria e do fracasso do humano. A miséria percorre em todas as partes do romance e de diferentes formas. Do ambiente miserável e pútrido, tomado de cadáveres, humanos ou não, à miséria da alma cujas personagens habitam a parte cinzenta de um mundo em que já não se permite a dicotomia preto/branco, bom/mal. Do trabalho miserável de Edgar à história miserável do ex-padre Tomás que foi expulso da igreja depois de ter sido descoberto um crime passado. O livro reúne toda essa miséria que desgasta as experiências e a própria alma dos que habitam a narrativa, de modo que o que vemos é a instalação plena de um processo de degradação e falência;

7 - E a degradação não é somente do humano, mas de toda a sociedade, pois como veremos, toda ela está corrompida e degrada, e mesmo homens que tentam transmitir algum valor ético na narrativa não estão isentos de suas próprias biografias, caso de Wilson, que a despeito de seus esforços, na sua insensibilidade cotidiana e na brutalidade e comiseração do dia a dia mostra que a corrupção humana não precisa estar diretamente em Brasília sendo que os esquemas podem estar em qualquer lugar, como na sua relação com o taxidermista, com a polícia...

8 - Aliás, embora possa não aparecer de imediato, a obra possuiu elementos de forte crítica social e desenha mesmo à distancia do poder uma degradação completa e plena no próprio Estado, revelado no romance como ineficiente e corrupto, desmascarado pela postura policial que surge na obra, nos IML's abarrotados de corpos esquecidos e abandonados, que aliás, propiciam outras frentes de corrupção e renda. É nesse Estado e ambiente degradados e corruptos que a falência do humano se torna completa, e que se num primeiro instante somos tomados a criar comparações com o naturalismo brasileiro cujas marcas não nos abandonam totalmente desde o Século XIX, a fim nos leva à calamitosa compreensão que Ana Paula Maia solapa o próprio naturalismo, pois se lá existia certa aproximação do homem ao natural, aqui o humano é jogado às valetas dos párias, um degrau abaixo dos animais, visto a comparação criada atendimento dado pelo órgão de Edgar Wilson a estes, enquanto o humano é esquecido naquilo que ainda se traduzia como resquício de humanismo, o nosso respeito para com os mortos, fronteira que aqui é destruída pela narrativa da barbárie e sob os olhares gulosos dos urubus;

9 - Claro que neste ambiente desolado o andar e o (des)caminhar das religiões não passaria imune. Há nas camadas profundas do texto certa reflexão ateísta, descrente, caótica e critica das religiões, em parte abordada pelas convicções de Edgar Wilson, ou pela curiosa posição de Tomás, uma padre que não é mais padre para a igreja, mas não o deixa de ser para a população, e do mesmo modo não deixa o hábito de conceder a extrem'unção a quantidade de mortos que lhe surge. Aliás, nesse sentido, o homem permanece a despeito da própria igreja, o que já e algo forte. Ademais, em suas páginas a obra consegue trazer a transição do poder religioso que sai das mãos católicas para uma série de outras instituições de forma crível e crítica, algo que ao seu modo relaciona-se com o todo da narrativa revelando uma fé direcionada aos interesses terrenos (e questionáveis) dos homens, tanto que ao ser questionado, Edgar Wilson revela seu apavoramento com tal cenário degrado e corrompido, de modo que sua relação toma-se de certo ceticismo a la Riobaldo ao dizer "que o diabo vige no homem" quando declara que "e eu tenho certeza de que nada nem ninguém me escuta. Deus ou  Diabo, parece que nenhum dos dois está mais aqui".  Tal sentença de Edgar Wilson é uma comprovação desalentada de que não há por quem esperar, é a descoberta e a afirmação de que o mundo é dos homens, e bem, esse mundo...

10 - Enfim, Enterre Seus Ossos chega como prova de que se é possível produzir literatura brasileira sem ter de cair a academicismos ou erudições filosóficas, mas o sendo tudo isso. Visceral e sufocante, o leitor será embolado por restos mortais que cuspirão em nossas mentes o atraso da condição humana. É uma obra cuja brutalidade não está a mercê do entretenimento, mas sim da reflexão a cerca das nossas falhas, corrupções e degradações que levam a todo este misterioso e eloquente ambiente elaborado por Maia. Sem dúvida, trata-se de uma narrativa que de descoberta por todos agentes de nossa critica, deverá desempenhar importante papel em nossa literatura. Na desesperança derradeira do romance e seu último e extremamente simbólico capítulo, se algo nos sopra de bom que não o fedor de seus cadáveres, é a vitalidade da literatura nacional.




  

         

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