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Ric. Ric. 10 Considerações sobre Crônica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami

O Blog Listas Literárias leu Crônica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami, publicado pela editora Alfaguara; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Intensamente simbólico e repleto de metáforas e filosofia, Crônica do Pássaro de Corda se constrói sob as névoas do estranho e do insólito numa narrativa que se agarra aos leitores como algum material simbiótico, e nos leva diretamente a uma dimensão entre o real e o irreal, um espaço-ambiente capaz de habitar todas as nossas dúvidas;

2 - Todorov estudou e delimitou o gênero fantástico ao tempo da incerteza. Mais do que incertezas, este romance de Murakami é o campo do incerto, e quem sabe das ilusões, que gradualmente vão esgarçando as linhas fronteiriças das certezas de seu narrador-protagonista Toru Okada, que mergulhado numa longa jornada habitada por personagens estranhíssimos e acontecimentos inesperados e surreais cria a sensação de uma existência não-real em que começa a ter dificuldade de discernir o que pertence ao real ou ao onirismos do "irreal". Tais incertezas, aliás, em muitos casos perdurarão compartilhadas pelo leitor, que em muitos momentos se verá dividido entre o acontecimento insólito e a manifestação sobrenatural do inexplicado explicável por tudo aquilo que não podemos compreender, de modo que tudo isso mexe com o próprio leitor;

3 - Mas de maior importância que a realidade ou não das experiências de Okada, é o próprio caminho por qual ele percorre do início ao final de sua crônica. Narrado em grande parte pela voz em primeira pessoa de Okada, mas ampliado com outras vozes que se somarão às crônicas, de um princípio bastante comum, apenas permeado com o fastio de uma vida comum e trivial, o estranho como se fosse fios de névoa que lentamente vão dançando por sobre a história, de repente, quando o protagonista e também nós, leitores, nos vemos envoltos por sombras pantanosas de acontecimentos surreais que escondem por trás de suas camadas muitas mensagens;

4 - Aliás, um detalhe muito interessante a se comentar sobre o livro é de que não se é muito comum vermos o casamento do estranho e do insólito com o urbano, como se na literatura os pequenos e recônditos lugarejos fossem o espaço destes, enquanto as metrópoles fossem o lugar das ficções científicas, do futuro e objetividade concreta. No caso, a Tóquio de Murakami pode conter espaço para as estranhezas da existência, estranhezas que nos chegam como personagens peculiares ou então com pequenos espaços perdidos na metrópole que podem nos levar para outros mundos... 

5 - É a tudo isso que vamos vendo se desenrolar quando o gato de Okada e Kumiko desaparece. O episódio na verdade é daquelas coisas que usamos para demarcar o tempo, tipo "as coisas começaram a ruir... se bem me lembro, na época que o gato sumiu..." É como uma marcação que principia o desfiar de todo o resto... E no caso deste romance é um resto bastante amplo que perpassa do mundo desolado das relações afetivas às relações de poder, e ainda aos traumas e lembranças relacionadas com a Segunda Guerra Mundial, que permanece ainda muito viva nas personagens da obra;

6 - E grande parte das virtudes desta obra, está justamente na subjetividade de seu narrador e na sua própria constituição. Ao contrário do leitor que vai mergulhando conscientemente num mundo surreal e insólito, Okada encarna uma espécie de pobre-diabo que esteve muito em voga na literatura brasileira pós 30. Chega ser angustiante acompanharmos a inércia ativa do protagonista, pois embora ele não se mova, estará sempre no vórtice d'alguma ação inesperada e estranha. Ele na verdade, em sua resistência inercial, incapaz de perceber o que acontece a sua volta - e talvez ao final Okada pouco saiba de tudo, de fato - ou de solucionar o desaparecimento do gato, e também da própria esposa acaba agindo justamente ao não agir, ao construir por meio de suas experiências estranhas o momento de desvendar tudo, ou pelo menos chegar perto disso;

7 - Além disso, um dos efeitos curiosos da leitura é percebermos que tudo próximo ao narrador de repente vai distanciando-se de tal maneira que por determinados momentos desaparecem de nossas lembranças por causa dos focos novos e paralelos que vão surgindo. Isso ocorre com o gato, com Kumiko, as irmãs Kanô... Algumas coisas retornam, outras não, seja à narrativa, seja à vida do Sr. Okada, que no tempo que perdura a narrativa de sua crônica é capaz de viver uma séride de diferentes vidas, ao mesmo tempo que lhe parece e nos soa, não ter vido sequer uma;

8 - Por estas razões, este é um daqueles livros que não podemos nos privar de sua leitura. Um testemunho de seu tempo, tanto pelas lembranças que carrega, quanto pelo cenário construído, distante e próximo numa dubiedade capaz de encenar e viver as estranhezas do espaço urbano ao mesmo tempo que faz de suas personagens sociais, mas ao mesmo tempo ilhas isoladas em suas próprias e profundas dúvidas existenciais enquanto por trás de todas estas cortinas um enredo violente e carregado de nuances desenrola-se;

9 - E tudo isso, claro, amplificado pelo estranho e por suas metáforas. Do pássaro que diariamente dá corda no mundo fazendo com que suas engrenagens movimentem-se ao fundo de um poço escuro capaz de nos apresentar a luz mais pura, além é claro de uma escara, um hematoma cheio de simbolismos e mensagens que amplificam a estranheza e a própria relação com o fantástico e o insólito, de modo que ao nos propor perguntas sobre perguntas faz literatura de grande qualidade, pois esta desfeita de respostas tem como função "plantar" muitos grilos em nossas mentes ansiosas;

10 - Enfim, Crônica do Pássaro de Corda é uma narrativa fantástica e essencial que nos faz trilhar caminhos misteriosamente oníricos, labirintíticos e surreais dos quais não escaparemos com facilidade. Uma obra das dúvidas, das incertezas e das dúvidas, dos sentimentos, um dos mais humanos. Okada compartilha conosco um existir não existido, constrói barreiras sem barreiras fazendo-nos perguntar quando sonhamos e quando acordamos, qual a distância entre uma coisa e outra... Mas estas não são perguntas a serem respondidas, pois no romance, as perguntas, na verdade são vividas por suas personagens, e suas respostas habitam as mesmas névoas das incertezas do estranho, urbano, e por que não, perverso e assustador mundo descrito por Murakami;



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